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Crajubar em Ação > Blog > Saúde > Atraso constante: falta de educação ou ‘cegueira temporal’?
Saúde

Atraso constante: falta de educação ou ‘cegueira temporal’?

g1
Ultima atualização: 2026/01/07 at 12:08 PM
Por g1
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Chegar atrasado no trabalho pode prejudicar o trabalhador?
Desde criança, Alice Lovatt enfrentava problemas por chegar atrasada.
Ela frequentemente se envergonhava por decepcionar os amigos e se sentia estressada diariamente por não conseguir chegar à escola no horário
“Simplesmente não tenho aquele relógio que parece existir na cabeça das outras pessoas”, disse Lovatt, musicista e funcionária de um lar coletivo em Liverpool, na Inglaterra.
Alice recebeu o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) apenas aos 22 anos, um transtorno neurobiológico que afeta a atenção, o controle dos impulsos e a organização do tempo, quando descobriu que o que sentia era um sintoma chamado de “cegueira temporal”.
Russell Barkley, neuropsicólogo clínico aposentado da Universidade de Massachusetts, é frequentemente citado como um dos primeiros pesquisadores a associar dificuldades na percepção do tempo a pessoas com TDAH ou autismo. Em 1997, ele descreveu o fenômeno como “miopia temporal”.
Recentemente, a “cegueira temporal” passou a gerar debates nas redes sociais. Afinal, onde está a linha entre uma condição genuína e alguém apenas desorganizado ou mal-educado?
O atraso constante pode impactar a rotina e atrapalhar a conclusão de tarefas.
Freepik
Atrasar vai além de chegar depois do horário
A “cegueira temporal” é a dificuldade de estimar quanto tempo uma tarefa vai levar ou de perceber quanto tempo já passou. Ela está relacionada às funções executivas, que ocorrem nos lobos frontais do cérebro, e é comum em pessoas com TDAH, explica Stephanie Sarkis, psicoterapeuta em Tampa Bay, na Flórida.
“Qualquer pessoa pode ter dificuldade para chegar no horário, mas pessoas com TDAH podem apresentar comprometimento funcional”, disse Sarkis, autora do livro “10 Soluções Simples para o TDAH em Adultos”.
“Isso afeta a vida familiar, social, o trabalho, a gestão financeira, praticamente todas as áreas da vida.”
Segundo Sarkis, quando o atraso crônico é apenas “uma estrela em uma constelação de sintomas”, ele pode indicar um transtorno tratável. Estudos mostram que medicamentos estimulantes usados para tratar outros sintomas do TDAH, como desatenção e inquietação, também podem ajudar na “cegueira temporal”.
Isso não significa, porém, que toda pessoa cronicamente atrasada tenha déficit de atenção ou uma desculpa pronta.
É importante entender a causa do atraso
Jeffrey Meltzer, terapeuta em Bradenton, na Flórida, recomenda que pessoas que nunca chegam no horário tentem identificar o motivo principal do atraso.
De acordo com ele, quem odeia conversas triviais pode evitar chegar cedo por ansiedade. Outras pessoas sentem que têm pouco controle sobre a própria rotina e usam o atraso como uma forma de recuperar alguns minutos para si.
“É o mesmo conceito psicológico por trás da procrastinação antes de dormir”, afirmou, em referência ao impulso de ficar acordado até mais tarde para compensar um dia cheio de obrigações.
Nesses casos, segundo o terapeuta, uma ferramenta possível é a criação de um pequeno “cartão de enfrentamento”, usado para consulta frequente. A ideia é identificar a causa do atraso e escrever, de um lado do cartão, um pensamento reformulado e, do outro, a consequência do comportamento.
Por exemplo:
“Participar desta reunião não significa perder minha liberdade.”
“Chegar atrasado novamente vai chatear as pessoas no trabalho.”
Meltzer afirma que o motivo mais difícil de mudar é o senso de direito, frequentemente atribuído aos atrasados por quem chega no horário. Pessoas que acreditam que seu tempo é mais importante do que o dos outros tendem a se permitir atrasos.
Para o terapeuta, esse comportamento costuma aparecer também em outras situações, como estacionar em vagas reservadas para pessoas com deficiência ou fazer entradas chamativas em eventos.
“Às vezes a pessoa chega 20 ou 30 minutos atrasada e parece dizer: ‘Olha só quem chegou’”, disse. “É uma forma de chamar atenção.”
Como melhorar a situação
Independentemente de ter ou não TDAH, cada pessoa continua sendo responsável por suas ações, pontuou Sarkis, que também recebeu o diagnóstico já adulta e enfrenta dificuldades para administrar o tempo.
A boa notícia é que as estratégias usadas por pessoas com TDAH podem ajudar qualquer um que tenha dificuldade para chegar no horário.
Sarkis recomenda o uso de relógios inteligentes para configurar alertas, além de relógios analógicos, que ajudam na percepção visual do tempo. Depender apenas do celular, segundo ela, tende a gerar mais distrações.
Outra sugestão é dividir tarefas grandes em atividades menores e evitar encaixar compromissos demais em um único dia.
Lovatt passou a se dar muito mais tempo do que imagina precisar. Hoje, ela usa o aplicativo Forest para gerenciar o tempo e outro aplicativo que bloqueia o acesso a redes sociais enquanto se concentra.
Também tem sido útil listar, com detalhes, quanto tempo cada etapa da rotina realmente leva. Sair de casa parecia levar 20 minutos, até que ela anotou cada passo, da cama à porta.
“Descer as escadas, um minuto. Achar os sapatos, um minuto. Eu tinha literalmente uma lista de uma página inteira enquanto andava entre os cômodos”, contou.
No fim, o processo levou 45 minutos.
“Não funciona 100% do tempo. Mas, no geral, hoje sou muito mais confiável.”
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