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Saúde

Influenciadora descobre linfoma associado a próteses mamárias; entenda tipo de câncer ligado a implantes

g1
Ultima atualização: 2026/02/04 at 6:02 AM
Por g1
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Influenciadora descobre linfoma associado a prótese mamária
O aumento repentino de uma das mamas, “do dia para a noite”, levou a influenciadora e comediante Evelin Camargo a procurar atendimento médico no fim de dezembro. A suspeita inicial era comum entre mulheres que têm implantes de silicone: ruptura da prótese. Exames de imagem, porém, mostraram que o implante estava intacto.
O que chamou a atenção dos médicos foi a presença de líquido ao redor da prótese —um seroma tardio—, condição que não é esperada anos depois da cirurgia. Diante do achado, a equipe decidiu investigar. A influenciadora passou por uma punção para retirada do líquido e por exames laboratoriais mais específicos.
A confirmação veio após a análise de imunohistoquímica, que identificou um linfoma anaplásico de grandes células associado a implantes mamários, conhecido pela sigla BIA-ALCL.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Evelin contou que o linfoma estava restrito à cápsula que envolve a prótese e que o tratamento indicado foi a retirada do implante. Ela afirmou que decidiu tornar o diagnóstico público não para gerar medo, mas como alerta para que outras mulheres fiquem atentas a alterações inesperadas nas mamas.
Leia também: ‘Se não explantasse, morreria’: o que a ciência já sabe sobre doenças relacionadas a implantes de silicone
A influenciadora Evelin Camargo
Arquivo Pessoal
O que é o BIA-ALCL
Apesar de surgir na mama, o BIA-ALCL não é um câncer de mama. Trata-se de um tipo de linfoma, câncer que se origina nas células do sistema linfático, responsáveis pela defesa do organismo.
“O linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário é um câncer do sistema linfático. Ele não se origina na mama, mas acaba se manifestando ali porque o gatilho é a presença da prótese, que pode provocar uma inflamação crônica ao longo do tempo”, explica Breno Gusmão, integrante do Comitê Médico da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale).
Oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, Stephen Stefani reforça que, no BIA-ALCL, as células malignas se desenvolvem, em geral, na cápsula fibrosa que se forma ao redor do implante, e não no tecido mamário propriamente dito.
Essa distinção é fundamental porque influencia tanto o tratamento quanto o prognóstico.
Quão raro é esse linfoma?
O BIA-ALCL é considerado uma doença rara. Revisões científicas estimam uma incidência média de 1 caso a cada 30 mil mulheres com implantes mamários, com variações conforme o país, o tipo de prótese e o tempo de uso.
O intervalo entre a colocação do implante e o diagnóstico costuma ser longo. Na maioria dos casos descritos na literatura, o linfoma surge entre sete e dez anos após a cirurgia, embora possa aparecer antes ou depois desse período.
Especialistas, entretanto, ressaltam que os números podem não refletir totalmente a realidade.
“Há indícios de subnotificação, principalmente porque muitos casos são tratados apenas com cirurgia e não entram em sistemas oficiais de registro”, diz Stefani.
Existe relação com o tipo de prótese?
Próteses de silicone de superfície texturizada
Fabiana Catherino
Embora a causa exata do BIA-ALCL ainda não seja totalmente compreendida, os estudos apontam uma associação mais frequente com próteses de superfície texturizada. Isso não significa que o linfoma ocorra apenas nesse tipo de implante nem que a prótese seja a causa direta do câncer, mas que determinadas características podem atuar como fator de risco.
Uma das hipóteses mais aceitas é que a textura da prótese favoreça uma inflamação crônica ao longo dos anos.
“As irregularidades da superfície aumentam a área de contato e podem facilitar a formação de biofilme bacteriano, o que mantém o sistema imunológico ativado por longos períodos”, explica a cirurgiã plástica Fabiana Catherino, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e autora do livro “Silicone: um padrão de beleza que adoece?”.
Com o tempo, esse estímulo inflamatório contínuo pode contribuir para a transformação maligna de células de defesa.
Sinais de alerta e diagnóstico
O principal sinal de alerta é o inchaço tardio da mama, causado pelo acúmulo de líquido ao redor do implante. Dor persistente, assimetria súbita, endurecimento ou nódulos também devem ser investigados.
“Seroma tardio não é algo normal muitos anos depois da cirurgia. Ele precisa sempre ser avaliado”, afirma Catherino.
A investigação inclui exame físico, exames de imagem e, quando indicado, a análise do líquido ou da cápsula retirada, com testes específicos de imunohistoquímica que permitem confirmar o diagnóstico.
Tratamento e prognóstico
Na maioria dos casos, quando o linfoma está restrito à cápsula do implante, o tratamento consiste na retirada da prótese e da cápsula em bloco. Quando diagnosticado precocemente, o prognóstico costuma ser favorável.
Se houver sinais de disseminação para linfonodos ou outros órgãos —situação menos comum—, pode ser necessário tratamento complementar, como quimioterapia ou imunoterapia. Mesmo nesses cenários, os especialistas destacam que o BIA-ALCL é, em geral, uma doença potencialmente curável.
O que muda para quem tem implante?
O diagnóstico da influenciadora se soma a uma discussão que vem sendo feita por especialistas nos últimos anos: próteses mamárias não são dispositivos para a vida toda e exigem acompanhamento contínuo.
Embora o BIA-ALCL seja raro, ele faz parte de um conjunto de riscos associados ao uso prolongado de implantes, como contratura capsular, ruptura, seromas tardios e necessidade de novas cirurgias.
Segundo Catherino, o acompanhamento não deve depender apenas do aparecimento de sintomas.
“As agências reguladoras orientam que a mulher faça a primeira ressonância magnética cerca de cinco anos após a colocação da prótese e, depois disso, mantenha o exame a cada dois ou três anos. Isso permite avaliar não só o implante, mas também a cápsula ao redor dele”, explica.
Ela ressalta que alterações tardias não devem ser consideradas normais. “Inchaço súbito, acúmulo de líquido, dor persistente, assimetria ou endurecimento da mama precisam sempre ser investigados. O corpo dá sinais quando algo não está bem”, afirma.
Para os especialistas, a informação clara faz parte do cuidado. O objetivo não é gerar pânico, mas deixar evidente que o uso de próteses envolve riscos conhecidos e incertezas, que precisam ser assumidos de forma consciente.
“Todo procedimento cirúrgico tem riscos, principalmente quando envolve a colocação de um corpo estranho no organismo. O importante é que a mulher esteja informada para tomar decisões conscientes e saiba que o acompanhamento faz parte desse processo”, afirma Catherino.
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