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Crajubar em Ação > Blog > Saúde > Consenso internacional redefine o que é lipedema e aponta caminhos para diagnóstico e tratamento
Saúde

Consenso internacional redefine o que é lipedema e aponta caminhos para diagnóstico e tratamento

g1
Ultima atualização: 2026/02/06 at 6:00 AM
Por g1
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Lipedema: condição reconhecida pela OMS que afeta milhões de mulheres
Por décadas confundido com obesidade ou linfedema, o lipedema —uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, dor e sensibilidade principalmente nos membros— acaba de ganhar a definição mais abrangente já construída até hoje.
Um grupo internacional de especialistas publicou, em janeiro de 2026, um documento de consenso que busca padronizar o diagnóstico e orientar o tratamento da condição em escala global.
O trabalho, resultado de um processo do tipo Delphi conduzido pela Lipedema World Alliance, reuniu médicos, pesquisadores, terapeutas e representantes de pacientes de 19 países. Ao todo, foram analisadas 62 afirmações sobre a doença; 59 delas atingiram concordância mínima de 70% entre os participantes —muitas com níveis de acordo superiores a 90%.
A iniciativa surge em resposta a um problema recorrente: apesar do aumento da visibilidade do lipedema nos últimos anos, ainda há grande variação nos critérios diagnósticos e nas abordagens terapêuticas, o que dificulta tanto o cuidado clínico quanto a produção de evidências científicas.
Uma doença crônica, dolorosa e diferente da obesidade
O consenso reconhece formalmente o lipedema como uma doença crônica, de evolução prolongada e impacto significativo na qualidade de vida. A forma mais típica envolve aumento bilateral e simétrico do tecido adiposo subcutâneo nas pernas —muitas vezes poupando pés e mãos— acompanhado de dor, sensibilidade ao toque, sensação de peso e facilidade para formar hematomas.
Mulheres com diversos graus de lipedema
ONG Movimento Lipedema
Segundo o cirurgião plástico Vitor Pagotto, membro da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, essa diferenciação é central para evitar erros comuns no consultório.
“Na obesidade, o ganho de peso é global. No lipedema, há uma distribuição desproporcional e simétrica de gordura, principalmente nas pernas e, por vezes, nos braços. Diferente da gordura comum, essa é uma gordura ‘doente’, que causa dor, sensibilidade ao toque e uma desproporção física marcante em relação ao tronco”, afirma.
O novo consenso reforça esse ponto ao destacar que o lipedema não é resultado de falha de estilo de vida, mas uma desordem do tecido adiposo, com influência genética e hormonal.
A gordura característica da doença costuma ser resistente a dietas hipocalóricas, o que explica por que muitas pacientes não observam melhora mesmo após perda significativa de peso.
Mulher com lipedema
ONG Movimento Lipedema
Por que o lipedema ainda é confundido com obesidade
Apesar dessas diferenças, a confusão diagnóstica segue frequente. Para Pagotto, o erro mais comum é a avaliação visual simplista.
“No consultório, vejo muitas pacientes que ouviram a vida toda que ‘precisavam fechar a boca’. A desproporção corporal é ignorada. No lipedema, a paciente pode ter manequim 38 no tronco e 44 nas pernas. Na obesidade, o aumento é global.”
Outro sinal clínico importante, também citado no consenso, é a preservação de pés e mãos.
“O acúmulo de gordura para abruptamente nos tornozelos, formando o chamado sinal do garrote. Os pés ficam poupados, o que não acontece na obesidade severa nem no linfedema”, explica o médico.
Dor é sintoma central
A dor aparece no documento como um dos sintomas mais consistentes e incapacitantes do lipedema, com impacto direto na saúde mental e na qualidade de vida. Ela pode ser espontânea ou provocada pelo toque, fenômeno conhecido como alodinia.
“A dor do lipedema é multifatorial e é o que mais compromete a vida da paciente”, diz Pagotto. “Já sabemos que existe um estado inflamatório crônico no tecido e uma hipersensibilidade dos nervos periféricos naquela região.”
O que ainda está em investigação, segundo ele e segundo o próprio consenso, é o papel exato da matriz extracelular, da fibrose e do acúmulo de líquido entre as células.
“A ciência ainda busca entender como esse edema e essa fibrose comprimem microvasos e nervos. Por isso, tratar a dor exige ir além da cirurgia, passando pelo controle da inflamação sistêmica e por uma abordagem integrada.”
Paciente mostra a diferença causada pelo lipedema no formato de seu corpo em foto de campanha de conscientização da doença feita pela ONG Movimento Lipedema
Crédito: ONG Movimento Lipedema/Conheça Lipedema
Diagnóstico segue clínico e subdiagnóstico é alto
Outro ponto central do consenso é o reconhecimento de que não existe exame que confirme o diagnóstico de lipedema. A identificação da doença continua baseada na história clínica detalhada e no exame físico.
“O diagnóstico hoje é 100% clínico. Isso exige um olhar treinado, que infelizmente ainda é raro, porque muitas faculdades de medicina não ensinam sobre lipedema”, afirma Pagotto.
Exames de imagem, como ultrassonografia ou ressonância magnética, podem ter papel complementar, mas não substituem a avaliação médica.
“Eles ajudam a excluir outras doenças ou a planejar uma cirurgia, mas nunca substituem a escuta clínica. Sem diretrizes claras, a paciente peregrina por anos entre especialistas sem resposta”, diz.
Não tem cura, mas tem controle
O consenso internacional é claro ao afirmar que o lipedema não tem cura conhecida. O objetivo do tratamento é controlar sintomas, preservar a mobilidade e evitar progressão.
“A ciência prefere falar em controle e remissão. O lipedema é crônico”, resume Pagotto.
Segundo ele, quando indicado corretamente, o tratamento pode devolver qualidade de vida.
“Com o tripé formado por dieta anti-inflamatória, compressão e fisioterapia e, em casos selecionados, a lipoaspiração especializada —que preserva os vasos linfáticos— a paciente consegue viver sem dor e recuperar a autoestima. O objetivo não é estética. É devolver funcionalidade e liberdade de movimento que a doença roubou por décadas.”
O que muda com o novo consenso sobre lipedema
Reforça que lipedema é doença crônica e distinta da obesidade
Reconhece a dor como sintoma central e incapacitante
Confirma que não há exame confirmatório: diagnóstico é clínico
Defende tratamento multidisciplinar e individualizado
Aponta lacunas científicas e a urgência de mais pesquisa
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