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Leitura: De ‘zé ninguém’ a ganhador do Oscar: a história do funcionário de escola que enfrentou Putin
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Crajubar em Ação > Blog > Internacionais > De ‘zé ninguém’ a ganhador do Oscar: a história do funcionário de escola que enfrentou Putin
Internacionais

De ‘zé ninguém’ a ganhador do Oscar: a história do funcionário de escola que enfrentou Putin

g1
Ultima atualização: 2026/03/16 at 6:03 AM
Por g1
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Pavel Talankin venceu o Oscar de melhor documentário com ‘Mr Nobody Against Putin’
Patrick T. Fallon/ AFP/Getty Images
Pavel Talankin nunca havia saído da Rússia antes de ir para o exílio no verão de 2024, deixando sua casa nas montanhas dos Montes Urais por questão de segurança, depois de discretamente se opor à máquina de guerra do presidente Vladimir Putin.
Em menos de dois anos, Pasha — como é conhecido — transformou-se de um coordenador de eventos e videomaker em uma escola primária em Karabash, um dos lugares mais poluídos da Terra, a um vencedor do Oscar.
Pasha foi premiado neste domingo (15/3) com a estatueta de Melhor Documentário, com seu filme Mr Nobody Against Putin (que em português seria algo como “Zé Ninguém Contra Putin”).
Antes de sua vitória, o diretor estava aproveitando sua nova fama e tirou selfies com alguns dos maiores nomes de Hollywood, incluindo dois dos concorrentes ao prêmio de melhor ator deste ano, Leonardo DiCaprio e Ethan Hawke.
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“Eles são apenas pessoas normais como todos nós”, ele me disse quando nos encontramos em Los Angeles antes da cerimônia do Oscar deste domingo (16/3).
Mas Pasha está longe de ser normal: um herói improvável cujo filme, Mr Nobody Against Putin, feito com o diretor americano baseado em Copenhagen, na Dinamarca, David Borenstein, venceu o prêmio de melhor documentário no BAFTA Film Awards em fevereiro.
Quando conversamos, ele ainda não sabia que também sairia com o Oscar de melhor documentário.
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O autodenominado “Zé Ninguém” tornou-se um “Sr. Alguém” em Hollywood.
Nós nos encontramos no aniversário de 35 anos de Pasha. Ele apareceu para a entrevista com balões rosa brilhantes — um “3” e um “5” — que, segundo disse, havia comprado para si mesmo naquela manhã.
Antes de domingo, a preocupação mais imediata dele em relação ao Oscar era a estatueta.
“Quanto ela pesa?”, perguntou. “Essa pergunta me interessa muito, porque em todas as lojas vendem falsificações chinesas de plástico e elas não pesam nada, então estou curioso para saber quanto pesa.”
A resposta, caso você esteja interessado, é 3,86 kg — mas isso é típico do seu humor sardônico, sempre dito com a maior seriedade.
A comédia também está muito presente no filme, apesar do tema sério.
“Pasha obviamente usou o humor como uma forma de lidar com o que estava acontecendo ao redor dele”, me disse David Borenstein.
“E, claro, o humor sempre foi uma grande parte da vida sob as realidades diárias do autoritarismo. As piadas soviéticas estão entre as melhores piadas. É simplesmente a forma como as pessoas lidam com isso.”
Pavel Talankin ajeitando o microfone antes de gravar alunos em escola na Rússia
Pavel Talankin
Sobre o que é o documentário
O documentário da BBC acompanha a história do que aconteceu depois da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 e como Pasha foi, relutantemente, arrastado para a máquina de propaganda de Vladimir Putin.
Seu papel na escola era filmar videoclipes musicais dos alunos, apresentações e cerimônias de formatura.
Mas a guerra trouxe ordens do Kremlin, introduzindo mais patriotismo, militarização e dever na vida escolar, além de cerimônias de hasteamento da bandeira.
Pasha disse que recebeu instruções para filmar e enviar provas às autoridades de que a escola estava obedecendo ao novo currículo.
Ele percebeu que isso o tornava “uma espécie de fiscal dos professores”, para fazê-los entender:
“Olhem, eu estou aqui, tenho uma câmera, estou filmando, então vocês vão dizer tudo o que devem dizer, vão falar conforme as instruções e usar o material fornecido pelo governo.”
Ele se rebelou, correndo grande risco pessoal, decidindo tornar-se um denunciante por meio do cinema.
Começou a enviar suas filmagens para David Borenstein, na Dinamarca, por servidores criptografados — uma decisão tomada em um instante, mas com consequências de longo prazo.
“Naqueles segundos eu fui movido pela raiva”, recordou. “Eu realmente não me importava. Pensei: que qualquer pessoa faça isso, que qualquer pessoa mostre esse filme, que qualquer pessoa o edite. O principal é que ele exista, para mostrar o que está acontecendo.”
Borenstein acrescentou:
“Nós achávamos muito importante que o mundo visse que Vladimir Putin obviamente não tem intenção de parar apenas na Ucrânia… Ele está dizendo às crianças da Rússia todos os dias que elas precisam se preparar para um futuro de guerra e de império.”
Pasha registrou soldados do grupo mercenário Wagner na escola mostrando às crianças como identificar minas e manusear armas — além de professores dando aulas aos alunos sobre a “desnazificação” da Ucrânia.
Também ouvimos histórias de ex-alunos que morreram no campo de batalha e de uma mãe chorando ao lado do túmulo do filho. Era perigoso demais para Talankin filmar o funeral, mas ele gravou o áudio angustiante dela.
O filme também mostra seus próprios atos de resistência.
Ele é um verdadeiro brincalhão: transformou os símbolos pró-guerra “Z” nas janelas da escola em “X” e retirou a bandeira russa da escola enquanto tocava alto Lady Gaga cantando o hino nacional dos Estados Unidos.
Ele enfrentou o regime, mas se recusa a aceitar que é corajoso.
“Não”, disse-me ele, “isso é apenas normal”.
Mercenário do Wagner foram à escola em Karabash mostrar armas e minas às crianças
Pavel Talankin/BBC Storyville/Feito em Copenhague
Borenstein discorda.
“Eu o descreveria como alguém muito corajoso, alguém que sente emoções de forma muito, muito intensa, alguém que realmente se importa profundamente com a verdade e alguém que realmente, realmente, realmente ama seu aniversário.”
Para os cineastas fora da Rússia, proteger Pasha e as pessoas no filme de represálias era a prioridade máxima.
“Tínhamos uma longa lista de protocolos de segurança”, explicou David Borenstein, “e estávamos ouvindo de pessoas que realmente nos deram uma avaliação grave dos riscos na Rússia.
“Líamos notícias sobre professores, sobre pessoas na Rússia que receberam longas penas de prisão, não por trabalharem com estrangeiros, não por fazerem um filme clandestino, mas simplesmente por desrespeitar a bandeira russa, que é uma coisinha pequena que ele fez no filme.”
“Estávamos com medo. Ele não estava com medo.”
No final, quando Pasha vê um carro da polícia do lado de fora de seu apartamento e há preocupações de que sua vida possa estar em risco, ele percebe que é hora de fugir.
No filme, ouvimos um produtor que fala russo dizer a ele:
“Antes de atravessar a fronteira, você deve apagar nosso aplicativo de mensagens seguro.”
“Você precisa ter muito cuidado ao levar suas filmagens pelo controle de fronteira. Apenas fique calmo. Você tem uma passagem de volta. Eles vão pensar que você retorna em sete dias. Apenas acredite em si mesmo. Acho que o que você fez terá um grande impacto.”
Ele deixou sua terra natal — e sua mãe — e agora vive em um local não divulgado na Europa. Ele acredita que isso não será para sempre.
“Quando o regime cair, eu planejo voltar e ser útil.”
Por enquanto, ele está focado em garantir que o filme seja visto pelo maior número de pessoas possível. Ele sabe que pessoas em Karabash já assistiram.
Quando o filme estreou no Sundance Film Festival, nos EUA, no ano passado, Borenstein conta que alguém o gravou digitalmente e depois compartilhou pela cidade.
Enquanto produziam o filme, Talankin diz que quase 200 mil professores deixaram seus empregos em vez de fazer parte de um sistema que está doutrinando crianças.
Ele espera que Mr Nobody Against Putin mostre aos russos “que pensam de forma semelhante a mim que não estão sozinhos”.
No dia em que nos encontramos, enquanto caminhávamos pelo píer de Santa Monica, na Califórnia, sob o sol, o espectro da guerra ainda pairava sobre ele. Ele compartilhou uma notícia que havia recebido poucas horas antes:
“Hoje descobri que um dos meus alunos morreu.”
Nikita, de 19 anos, foi morto na Ucrânia, disse ele. “Eu o conhecia. É um rapaz bondoso e ele nunca teria ido sem a propaganda.”
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