{"id":63054,"date":"2025-12-20T18:00:51","date_gmt":"2025-12-20T21:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=63054"},"modified":"2025-12-20T18:00:51","modified_gmt":"2025-12-20T21:00:51","slug":"a-surpreendente-rotina-de-sono-que-era-a-regra-na-idade-media-e-por-que-a-abandonamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=63054","title":{"rendered":"A surpreendente rotina de sono que era a regra na Idade M\u00e9dia (e por que a abandonamos)"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/DvAJfcXMtIlq9wc16Nwc6zf26Vs=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/q\/i\/lkFh3DRJOBv1Fr2UQPxQ\/thumbnail-image001-5-.png\"><br \/>     Falta de sono \u00e9 o que mais reduz a expectativa de vida depois do cigarro<br \/>\nEram cerca de 11 horas da noite de 13 de abril de 1699, em uma pequena aldeia no norte da Inglaterra. Jane Rowth, com nove anos de idade, piscava os olhos, observando as sombras da noite escura.<br \/>\nEla e sua m\u00e3e haviam acabado de acordar de um curto sono. A m\u00e3e de Jane levantou-se e andou at\u00e9 a lareira daquela casa simples, onde come\u00e7ou a fumar seu cachimbo. Foi quando dois homens surgiram na janela. Eles chamaram a sra. Rowth para se aprontar e ir com eles.<br \/>\nComo Jane explicou mais tarde para um tribunal, sua m\u00e3e claramente estava esperando os visitantes.<br \/>\nEla foi com eles sem resistir \u2014 mas antes sussurrou para sua filha: &#8220;fique deitada e estarei de volta pela manh\u00e3&#8221;.<br \/>\nTalvez a sra. Rowth tivesse alguma tarefa noturna a cumprir. Ou talvez ela estivesse em dificuldades e sabia que encontraria perigos ao sair de casa.<br \/>\nDe qualquer forma, a m\u00e3e de Jane n\u00e3o conseguiu cumprir sua promessa e nunca mais voltou para casa.<br \/>\nDormir em conjunto significava que as pessoas normalmente tinham algu\u00e9m com quem falar quando acordavam para a &#8220;vig\u00edlia&#8221;<br \/>\nGetty Images\/BBC<br \/>\nNaquela noite, a sra. Rowth foi brutalmente assassinada e seu corpo foi encontrado dias depois. O crime nunca foi esclarecido.<br \/>\nCerca de 300 anos depois, no in\u00edcio dos anos 1990, o historiador Roger Ekirch visitou o Escrit\u00f3rio de Registros P\u00fablicos de Londres \u2014 um imponente edif\u00edcio g\u00f3tico, com belos arcos de entrada, que abrigou os Arquivos Nacionais do Reino Unido entre 1838 e 2003.<br \/>\nFoi ali que, entre fileiras quase infinitas de documentos e manuscritos antigos, ele encontrou o depoimento de Jane Rowth.<br \/>\nEkirch estava originalmente pesquisando para escrever um livro sobre a hist\u00f3ria das horas noturnas e, naquela \u00e9poca, buscava registros do per\u00edodo entre o in\u00edcio da Idade M\u00e9dia e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<br \/>\nEle havia descoberto que os depoimentos judiciais s\u00e3o muito esclarecedores.<br \/>\n&#8220;Eles s\u00e3o uma fonte maravilhosa para historiadores sociais&#8221;, afirma Ekirch, que \u00e9 professor da Universidade Estadual da Virg\u00ednia, nos Estados Unidos.<br \/>\n&#8220;Eles comentam sobre atividades muitas vezes n\u00e3o relacionadas ao crime propriamente dito.&#8221;<br \/>\nUm dos temas que Ekirch temia ter que abordar em algum cap\u00edtulo de seu livro sobre os h\u00e1bitos noturnos seria o sono.<br \/>\nEle acreditava que o sono fosse n\u00e3o s\u00f3 uma necessidade universal, mas uma constante biol\u00f3gica, e n\u00e3o esperava encontrar nada de novo sobre o tema \u2014 at\u00e9 que um ponto estranho do testemunho de Jane Rowth chamou sua aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo ler o depoimento, ele encontrou duas palavras que nunca havia visto antes, mas que pareciam retratar um detalhe particularmente intrigante da vida no s\u00e9culo 17: &#8220;primeiro sono&#8221;.<br \/>\n&#8220;Posso recitar o documento original de cor quase inteiro&#8221;, afirma Ekirch. Sua euforia com a descoberta ainda pode ser percebida, mesmo d\u00e9cadas depois.<br \/>\nNo seu testemunho, Jane descreve como, pouco antes dos homens chegarem \u00e0 sua casa, ela e sua m\u00e3e haviam acordado do primeiro sono da noite. N\u00e3o havia mais explica\u00e7\u00f5es \u2014 o sono interrompido era indicado como sendo algo comum e totalmente sem import\u00e2ncia.<br \/>\n&#8220;Ela se referiu ao caso como se fosse absolutamente normal&#8221;, afirma Ekirch.<br \/>\nA exist\u00eancia de um primeiro sono indica que havia tamb\u00e9m um segundo sono \u2014 uma noite dividida em duas metades. Era apenas um h\u00e1bito familiar ou haveria algo mais, al\u00e9m disso?<br \/>\nNa Idade M\u00e9dia, era absolutamente normal que v\u00e1rias pessoas dormissem juntas<br \/>\nBritish Library\/BBC<br \/>\nPr\u00e1tica generalizada<br \/>\nPelos meses que se seguiram, Ekirch vasculhou os arquivos e encontrou muitas outras refer\u00eancias sobre esse fen\u00f4meno misterioso do duplo sono, ou &#8220;sono bif\u00e1sico&#8221;, como ele viria a denomin\u00e1-lo.<br \/>\nAlguns relatos eram um tanto banais, como a men\u00e7\u00e3o feita pelo tecel\u00e3o Jon Cokburne, que simplesmente o citou de passagem em um depoimento.<br \/>\nMas outros eram mais sombrios, como o de Luke Atkinson, de East Riding em Yorkshire, no norte da Inglaterra.<br \/>\nCerta vez, ele cometeu um assassinato no in\u00edcio de uma manh\u00e3, entre os dois sonos \u2014 e sua esposa declarou que, muitas vezes, ele usava esse intervalo para ir at\u00e9 as casas de outras pessoas com a inten\u00e7\u00e3o de realizar atos sinistros.<br \/>\nQuando Ekirch ampliou sua pesquisa, incluindo bancos de dados online de outros registros escritos, logo ficou claro que o fen\u00f4meno era mais comum e difundido que ele havia imaginado.<br \/>\nPara come\u00e7ar, o primeiro sono \u00e9 mencionado em uma das obras mais famosas da literatura medieval, The Canterbury Tales (Os contos da Cantu\u00e1ria, em portugu\u00eas), de Geoffrey Chaucer (escritos entre 1387 e 1400). O livro apresenta um concurso de contar hist\u00f3rias entre um grupo de peregrinos.<br \/>\nExiste tamb\u00e9m uma men\u00e7\u00e3o no livro Beware the Cat (Cuidado com o gato, em tradu\u00e7\u00e3o livre), escrito em 1561 pelo poeta William Baldwin \u2014 um livro sat\u00edrico considerado por alguns o primeiro romance j\u00e1 escrito.<br \/>\nEle conta a hist\u00f3ria de um homem que aprende a linguagem de um grupo de gatos sobrenaturais assustadores. Um deles, chamado mouse-slayer (assassino de camundongos, em tradu\u00e7\u00e3o livre), enfrenta julgamento por promiscuidade.<br \/>\nMas isso \u00e9 apenas o come\u00e7o. Ekirch encontrou refer\u00eancias casuais ao sistema de sono em duas partes em todas as formas escritas que se pode imaginar \u2014 centenas de cartas, di\u00e1rios, livros m\u00e9dicos, escritos filos\u00f3ficos, artigos de jornal e pe\u00e7as de teatro.<br \/>\nA pr\u00e1tica aparece at\u00e9 em can\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, como na balada Old Robin of Portingale: &#8220;&#8230; e, ao acordar do seu primeiro sono, voc\u00ea precisa tomar uma bebida quente; e, ao acordar do sono seguinte, suas m\u00e1goas se acalmar\u00e3o&#8230;&#8221;<br \/>\nE o sono bif\u00e1sico tamb\u00e9m n\u00e3o era exclusivo da Inglaterra. Ele era amplamente praticado em todo o mundo pr\u00e9-industrial. Na Fran\u00e7a, o sono inicial era chamado de &#8220;premier somme&#8221;, enquanto, na It\u00e1lia, era o &#8220;primo sonno&#8221;.<br \/>\nDe fato, Roger Ekirch encontrou evid\u00eancias do h\u00e1bito at\u00e9 em locais distantes como a \u00c1frica, sul e sudeste asi\u00e1tico, Austr\u00e1lia, Oriente M\u00e9dio \u2014 e no Brasil.<br \/>\nComo muitos romanos, o historiador L\u00edvio praticava o sono bif\u00e1sico<br \/>\nAlamy<br \/>\nUm registro colonial do Rio de Janeiro, datado de 1555, descreve que o povo tupinamb\u00e1 costumava comer depois do seu primeiro sono.<br \/>\nJ\u00e1 um registro de Mascate, em Om\u00e3, explicava no s\u00e9culo 19 que os habitantes locais se recolhiam para seu primeiro sono antes das 22 horas.<br \/>\nE Ekirch come\u00e7ou a suspeitar que esse m\u00e9todo, longe de ser uma peculiaridade da Idade M\u00e9dia, poderia ter sido a principal forma de dormir por mil\u00eanios \u2014 um padr\u00e3o antigo herdado dos nossos ancestrais pr\u00e9-hist\u00f3ricos.<br \/>\nO registro mais antigo encontrado por Ekirch foi do s\u00e9culo 8 antes de Cristo, no \u00e9pico grego A Odisseia, enquanto as indica\u00e7\u00f5es mais recentes dessa pr\u00e1tica datam do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, quando, de alguma forma, ela caiu no esquecimento.<br \/>\nComo isso funcionava? Por que as pessoas dormiam em dois turnos? E como algo que um dia foi t\u00e3o comum acabou sendo completamente esquecido?<br \/>\nEra um momento vago<br \/>\nNo s\u00e9culo 17, a noite de sono era mais ou menos assim:<br \/>\nDas 21 \u00e0s 23 horas, as pessoas que tinham condi\u00e7\u00f5es come\u00e7avam a recostar-se em colch\u00f5es forrados com palha ou trapos (os colch\u00f5es dos ricos poderiam ter enchimento de penas), prontas para dormir por duas horas.<br \/>\nEnquanto isso, nas camadas inferiores da sociedade, as pessoas precisavam acomodar-se sobre plantas espalhadas no solo ou, pior, no ch\u00e3o de terra batida \u2014 talvez at\u00e9 sem cobertor.<br \/>\nNaquela \u00e9poca, muitas pessoas dormiam juntas, frequentemente acompanhadas de uma acolhedora variedade de percevejos, pulgas, piolhos, familiares, amigos, servos e \u2014 se estivessem viajando \u2014 tamb\u00e9m completos estranhos.<br \/>\nPara minimizar constrangimentos, o sono envolvia uma s\u00e9rie de conven\u00e7\u00f5es sociais r\u00edgidas, como evitar contato f\u00edsico ou muitos movimentos durante a noite. E havia posi\u00e7\u00f5es definidas para dormir.<br \/>\nAs meninas mais jovens, por exemplo, normalmente deitavam-se em um lado da cama, com as mais velhas mais perto da parede, seguidas pela m\u00e3e e pelo pai, depois os filhos meninos \u2014 tamb\u00e9m dispostos por idade \u2014 e os que n\u00e3o eram membros da fam\u00edlia depois deles.<br \/>\nDuas horas depois, as pessoas come\u00e7avam a despertar desse sono inicial.<br \/>\nO tempo acordado \u00e0 noite normalmente come\u00e7ava perto de 23 horas e ia at\u00e9 cerca de uma hora da manh\u00e3, dependendo do hor\u00e1rio em que as pessoas haviam ido para a cama.<br \/>\nEsse despertar geralmente n\u00e3o era causado por ru\u00eddos, nem por outras perturba\u00e7\u00f5es \u00e0 noite. Tamb\u00e9m n\u00e3o havia alarme para despertar \u2014 os despertadores foram inventados apenas em 1787, por um norte-americano que, ironicamente, precisava acordar no hor\u00e1rio para vender rel\u00f3gios.<br \/>\nAs pessoas acordavam de forma totalmente natural, da mesma forma que faziam pela manh\u00e3.<br \/>\nO per\u00edodo acordado era chamado de &#8220;vig\u00edlia&#8221; e era um intervalo surpreendentemente \u00fatil para realizar tarefas.<br \/>\n&#8220;[Os registros] descrevem que as pessoas faziam quase de tudo depois que acordavam do primeiro sono&#8221;, relata Ekirch.<br \/>\nSob o fraco brilho da lua, das estrelas, l\u00e2mpadas a \u00f3leo ou &#8220;velas de junco&#8221; \u2014 uma esp\u00e9cie de vela para resid\u00eancias simples, feita de caules de junco encerados \u2014 as pessoas se dedicavam a tarefas comuns, como colocar lenha no fogo, tomar rem\u00e9dios ou urinar (muitas vezes, no pr\u00f3prio fogo).<br \/>\nPara os camponeses, acordar significava voltar ao trabalho mais s\u00e9rio \u2014 seja sair para vistoriar os animais de cria\u00e7\u00e3o ou realizar tarefas dom\u00e9sticas, como remendar roupas, pentear l\u00e3 ou descascar os juncos a serem queimados.<br \/>\nO Escrit\u00f3rio de Registros P\u00fablicos abrigava milhares de depoimentos criminais da era medieval, que agora s\u00e3o guardados nos Arquivos Nacionais em Kew, a sudoeste de Londres<br \/>\nGetty Images\/BBC<br \/>\nEkirch encontrou o relato de um servo que certa vez chegou a preparar um lote de cerveja para seu patr\u00e3o entre meia-noite e duas horas da manh\u00e3, em Westmorland, no noroeste da Inglaterra.<br \/>\nNaturalmente, os criminosos aproveitavam a oportunidade para percorrer as redondezas e causar problemas, como o assassino de Yorkshire. Mas a vig\u00edlia era tamb\u00e9m um momento religioso.<br \/>\nPara os crist\u00e3os, havia ora\u00e7\u00f5es elaboradas a serem rezadas, incluindo algumas especificamente recomendadas para esse per\u00edodo.<br \/>\nUm padre chamou a vig\u00edlia de a hora mais &#8220;proveitosa&#8221; do dia \u2014 depois de digerir o seu jantar e encerrar as tarefas mundanas, &#8220;ningu\u00e9m vir\u00e1 procurar voc\u00ea, exceto Deus&#8221;.<br \/>\nJ\u00e1 as pessoas com disposi\u00e7\u00e3o para a filosofia poderiam usar a vig\u00edlia como um momento de reflex\u00e3o para pensar sobre a vida e ponderar sobre novas ideias.<br \/>\nNo final do s\u00e9culo 18, um comerciante londrino chegou a inventar um dispositivo especial para registrar suas percep\u00e7\u00f5es noturnas mais ardentes \u2014 um &#8220;lembrador noturno&#8221;, que consistia de um bloco de pergaminho fechado com uma abertura horizontal que poderia ser usada como guia para escrever.<br \/>\nMas, principalmente, a vig\u00edlia era \u00fatil para a socializa\u00e7\u00e3o \u2014 e para o sexo.<br \/>\nComo explica Ekirch em seu livro, At day&#8217;s close: A history of nighttime (No encerramento do dia: a hist\u00f3ria das horas noturnas, em tradu\u00e7\u00e3o livre), as pessoas muitas vezes sentavam-se na cama e apenas conversavam.<br \/>\nE, durante essas estranhas horas de penumbra, as pessoas que dividiam a cama conseguiam compartilhar um n\u00edvel de informalidade e conversas casuais dificilmente atingido durante o dia.<br \/>\nE, para os casais que conseguissem vencer a log\u00edstica de compartilhar a cama com outras pessoas, era tamb\u00e9m um intervalo conveniente para intimidade f\u00edsica.<br \/>\nDepois de um longo dia de trabalho manual, o primeiro sono eliminava sua exaust\u00e3o e o per\u00edodo seguinte era considerado um excelente momento para conceber sua enorme quantidade de filhos.<br \/>\nDepois que as pessoas ficavam acordadas por duas horas, normalmente elas voltavam para a cama.<br \/>\nEsse segundo per\u00edodo era considerado o sono &#8220;da manh\u00e3&#8221; e poderia durar at\u00e9 amanhecer ou mais. Da mesma forma que acontece hoje, a hora em que as pessoas finalmente acordavam para o dia dependia da hora em que elas foram para a cama \u00e0 noite.<br \/>\nAdapta\u00e7\u00e3o antiga<br \/>\nSegundo Ekirch, existem refer\u00eancias ao sistema de sono em dois per\u00edodos espalhadas ao longo de toda a Antiguidade, o que indica que ele j\u00e1 era comum naquela \u00e9poca.<br \/>\nO sistema \u00e9 mencionado casualmente em obras de escritores ilustres, como o bi\u00f3grafo grego Plutarco (s\u00e9culo 1 depois de Cristo), o viajante grego Paus\u00e2nias (s\u00e9culo 2 depois de Cristo), o historiador romano L\u00edvio e o poeta romano Virg\u00edlio.<br \/>\nPosteriormente, a pr\u00e1tica foi adotada pelos crist\u00e3os, que imediatamente perceberam o potencial da vig\u00edlia como uma oportunidade para recitar salmos e fazer confiss\u00f5es.<br \/>\nNo s\u00e9culo 6, S\u00e3o Bento ordenava aos monges que se levantassem \u00e0 meia-noite para essas atividades e essa ideia acabou por espalhar-se por toda a Europa, gradualmente chegando \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral.<br \/>\nMas os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos animais a descobrir os benef\u00edcios de dividir o sono.<br \/>\nEssa pr\u00e1tica \u00e9 amplamente adotada no mundo natural, com muitas esp\u00e9cies repousando em dois ou at\u00e9 mais per\u00edodos de sono separados. Isso os ajuda a permanecer ativos nas horas mais ben\u00e9ficas do dia, quando eles t\u00eam maior possibilidade de encontrar alimento, sem que eles pr\u00f3prios se tornem o lanche de algu\u00e9m.<br \/>\nUm exemplo \u00e9 o l\u00eamure-de-cauda-anelada. Esses ic\u00f4nicos primatas de Madagascar, com seus olhos vermelhos arrepiantes e caudas verticais em preto e branco, mant\u00eam padr\u00f5es de sono surpreendentemente similares aos dos seres humanos da era pr\u00e9-industrial. Eles s\u00e3o &#8220;catemerais&#8221;, ou seja, eles ficam acordados durante a noite e o dia.<br \/>\n&#8220;Existem muitas varia\u00e7\u00f5es entre os primatas, em termos da distribui\u00e7\u00e3o da sua atividade ao longo do per\u00edodo de 24 horas&#8221;, afirma David Samson, diretor do laborat\u00f3rio do sono e evolu\u00e7\u00e3o humana da Universidade de Toronto em Mississauga, no Canad\u00e1.<br \/>\nE, se o sono em dois per\u00edodos \u00e9 natural para os l\u00eamures, ele se pergunta: pode ser esta a forma em que n\u00f3s tamb\u00e9m evolu\u00edmos para dormir?<br \/>\nRoger Ekirch vinha alimentando o mesmo pressentimento havia muito tempo. Mas ele passara d\u00e9cadas sem encontrar nada de concreto que o comprovasse \u2014 nem que esclarecesse por que essa pr\u00e1tica desapareceu.<br \/>\nAt\u00e9 que, em 1995, Ekirch leu uma reportagem no The New York Times sobre um experimento do sono realizado alguns anos antes.<br \/>\nA pesquisa foi conduzida por Thomas Wehr, cientista do sono do Instituto Nacional de Sa\u00fade Mental dos Estados Unidos, e envolveu 15 homens.<br \/>\nDepois de uma semana inicial de observa\u00e7\u00e3o dos seus padr\u00f5es de sono normais, eles foram mantidos sem ilumina\u00e7\u00e3o artificial \u00e0 noite para reduzir suas horas de &#8220;luz do dia&#8221; \u2014 seja ela natural ou el\u00e9trica \u2014 das 16 horas habituais para apenas 10.<br \/>\nNo restante do tempo, eles foram confinados em um quarto sem luz nem janelas e totalmente imersos na escurid\u00e3o envolvente. Eles n\u00e3o podiam ouvir m\u00fasica nem se exercitar \u2014 e foram induzidos ao repouso e ao sono.<br \/>\nO historiador Roger Ekirch se pergunta se hoje as pessoas conseguem se lembrar menos de seus sonhos que os nossos ancestrais porque agora \u00e9 menos comum acordar no meio da noite<br \/>\nAlamy<br \/>\nNo in\u00edcio do experimento, todos os homens tinham h\u00e1bitos noturnos normais \u2014 eles dormiam em um turno cont\u00ednuo que durava do final da noite at\u00e9 a manh\u00e3. Mas algo incr\u00edvel aconteceu em seguida.<br \/>\nDepois de quatro semanas de dias com 10 horas, os padr\u00f5es de sono dos participantes haviam se transformado. Eles n\u00e3o dormiam mais em um \u00fanico per\u00edodo, mas em duas metades, aproximadamente com a mesma dura\u00e7\u00e3o. As duas partes eram separadas por um per\u00edodo de uma a tr\u00eas horas que eles passavam acordados.<br \/>\nMedi\u00e7\u00f5es do horm\u00f4nio do sono \u2014 a melatonina \u2014 demonstraram que seus ritmos circadianos tamb\u00e9m haviam se ajustado, o que demonstra que seu sono foi alterado em n\u00edvel biol\u00f3gico.<br \/>\nWehr havia reinventado o sono bif\u00e1sico. &#8220;Depois do meu casamento e do nascimento dos meus filhos, [ler sobre o experimento] foi provavelmente o momento mais emocionante da minha vida&#8221;, relembra Ekirch.<br \/>\nQuando ele escreveu para Wehr explicando a extraordin\u00e1ria coincid\u00eancia entre o estudo cient\u00edfico e a sua pesquisa hist\u00f3rica, &#8220;acho que posso afirmar que ele ficou t\u00e3o radiante quanto eu&#8221;, afirma.<br \/>\nMais recentemente, uma pesquisa de David Samson, o diretor do laborat\u00f3rio do sono da Universidade de Toronto, confirmou essas descobertas \u2014 mas com uma fascinante reviravolta.<br \/>\nEm 2015, Samson recrutou volunt\u00e1rios locais da remota comunidade de Manadena, no nordeste de Madagascar, para um estudo em conjunto com colaboradores de diversas outras universidades.<br \/>\nO local \u00e9 um grande vilarejo ao lado de um parque nacional. N\u00e3o h\u00e1 infraestrutura el\u00e9trica, de forma que as noites locais s\u00e3o quase t\u00e3o escuras quanto eram mil\u00eanios atr\u00e1s.<br \/>\nPediu-se aos participantes, em sua maioria, agricultores, que usassem um &#8220;act\u00edmetro&#8221; \u2014 um sofisticado dispositivo sensor de atividade que pode ser usado para rastrear ciclos de sono \u2014 por 10 dias, para verificar seus padr\u00f5es de sono.<br \/>\n&#8220;Descobrimos que nas pessoas havia um per\u00edodo de atividade logo ap\u00f3s a meia-noite at\u00e9 cerca de 1h a 1h30 da manh\u00e3&#8221;, afirma Samson, &#8220;a atividade era reduzida em seguida at\u00e9 dormirem e permanecerem inativos, at\u00e9 acordarem, \u00e0s seis horas, o que normalmente coincide com o nascer do sol&#8221;.<br \/>\nOu seja, o sono bif\u00e1sico nunca desapareceu completamente \u2014 ele sobrevive at\u00e9 hoje nos bols\u00f5es mais distantes do mundo.<br \/>\nNova press\u00e3o social<br \/>\nColetivamente, essa pesquisa tamb\u00e9m forneceu a Ekirch a explica\u00e7\u00e3o que ele desejava sobre o motivo que levou a maior parte da humanidade a abandonar o sistema de dois per\u00edodos de sono a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo 19.<br \/>\nComo ocorreu com outras mudan\u00e7as recentes do nosso comportamento, como a depend\u00eancia do rel\u00f3gio, a resposta estava na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<br \/>\nNo s\u00e9culo 17, as elites ricas normalmente dormiam em camas de madeira com quatro pilares e cortinas, para aquecer as pessoas e afastar os olhares curiosos dos visitantes<br \/>\nAlamy<br \/>\n&#8220;A ilumina\u00e7\u00e3o artificial tornou-se mais presente e sua pot\u00eancia aumentou \u2014 primeiro, foi [a ilumina\u00e7\u00e3o] a g\u00e1s, introduzida pela primeira vez em Londres&#8221;, explica Ekirch, &#8220;e depois, claro, a ilumina\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, mais para o final do s\u00e9culo. Al\u00e9m de alterar o ritmo circadiano das pessoas, a ilumina\u00e7\u00e3o artificial tamb\u00e9m permitiu naturalmente que as pessoas ficassem acordadas at\u00e9 mais tarde.&#8221;<br \/>\nMas, embora as pessoas n\u00e3o fossem mais para a cama \u00e0s 21 horas, elas ainda precisavam acordar no mesmo hor\u00e1rio pela manh\u00e3 \u2014 o que prejudicava o seu repouso. Ekirch acredita que isso tornou seu sono mais profundo, porque era reduzido.<br \/>\nAl\u00e9m de alterar os ritmos circadianos da popula\u00e7\u00e3o, a ilumina\u00e7\u00e3o artificial prolongou o primeiro sono e reduziu o segundo.<br \/>\n&#8220;E consegui rastrear [essas altera\u00e7\u00f5es], quase a cada d\u00e9cada, ao longo do s\u00e9culo 19&#8221;, afirma Ekirch.<br \/>\nCuriosamente, o estudo de Samson em Madagascar envolveu uma segunda parte \u2014 na qual a metade dos participantes recebeu luzes artificiais por uma semana, para ver se elas causavam alguma diferen\u00e7a.<br \/>\nE, neste caso, os pesquisadores conclu\u00edram que n\u00e3o havia impacto sobre os seus padr\u00f5es de sono segmentados.<br \/>\nMas eles indicam que uma semana pode n\u00e3o oferecer tempo suficiente para que as luzes artificiais causem mudan\u00e7as importantes \u2014 de forma que o mist\u00e9rio continua.<br \/>\nMesmo que a ilumina\u00e7\u00e3o artificial n\u00e3o seja a \u00fanica causa, no final do s\u00e9culo 20, a divis\u00e3o entre dois per\u00edodos de sono havia desaparecido por completo. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial n\u00e3o havia mudado apenas a nossa tecnologia, mas tamb\u00e9m a nossa biologia.<br \/>\nNova ansiedade<br \/>\nUm efeito colateral importante da mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos de sono de grande parte da humanidade foi uma mudan\u00e7a de comportamento. Por um lado, come\u00e7amos rapidamente a ridicularizar as pessoas que dormem demais e desenvolvemos preocupa\u00e7\u00e3o com a rela\u00e7\u00e3o entre acordar cedo e a produtividade.<br \/>\nMas, para Ekirch, &#8220;o aspecto mais gratificante de tudo isso s\u00e3o as pessoas que sofrem de ins\u00f4nia no meio da noite&#8221;.<br \/>\nEle explica que nossos padr\u00f5es de sono agora est\u00e3o t\u00e3o alterados que ficar acordado no meio da noite pode nos causar p\u00e2nico.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o quero diminuir a import\u00e2ncia disso \u2014 eu mesmo, na verdade, sofro de dist\u00farbios do sono e tomo medicamentos para isso.&#8221;<br \/>\nMas, quando as pessoas aprendem que esse padr\u00e3o pode ter sido totalmente normal por mil\u00eanios, ele percebe que isso reduz um pouco a ansiedade.<br \/>\nMas, antes que a pesquisa de Ekirch gere uma deriva\u00e7\u00e3o da dieta paleol\u00edtica e as pessoas comecem a jogar suas l\u00e2mpadas fora \u2014 ou, pior, dividam artificialmente seu sono em dois com despertadores \u2014, ele se empenha em ressaltar que o abandono do sistema de sono em dois per\u00edodos n\u00e3o significa que a qualidade do nosso sono hoje em dia seja inferior.<br \/>\nApesar das not\u00edcias quase constantes sobre a grande incid\u00eancia de dist\u00farbios do sono, Ekirch j\u00e1 argumentou que, em alguns aspectos, o s\u00e9culo 21 \u00e9 a era de ouro do sono \u2014 um per\u00edodo em que a maioria de n\u00f3s n\u00e3o precisa mais se preocupar em ser assassinado na cama, congelar at\u00e9 a morte ou remover piolhos, podendo dormir sem dores, sem a amea\u00e7a de inc\u00eandios e sem estranhos deitados ao nosso lado.<br \/>\nEm resumo, o sono em um \u00fanico per\u00edodo pode n\u00e3o ser &#8220;natural&#8221;, da mesma forma que belos colch\u00f5es ergon\u00f4micos e a higiene moderna tamb\u00e9m n\u00e3o o s\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Ou seja, n\u00e3o existe retorno porque as condi\u00e7\u00f5es mudaram&#8221;, afirma Ekirch.<br \/>\nN\u00f3s podemos estar perdendo a oportunidade de ter conversas confidenciais na cama no meio da noite, sonhos psicod\u00e9licos e revela\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas noturnas \u2014 mas, pelo menos, n\u00e3o acordamos cobertos de picadas irritantes.<br \/>\nEsta reportagem foi publicada originalmente em 29 de janeiro de 2022.<br \/>\n** A imagem do Sonho dos Magos foi usada com permiss\u00e3o da Biblioteca Brit\u00e2nica. Ela faz parte do seu Cat\u00e1logo de Manuscritos Iluminados.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falta de sono \u00e9 o que mais reduz a expectativa de vida depois do cigarro Eram cerca de 11 horas da noite de 13 de abril de 1699, em uma pequena aldeia no norte da Inglaterra. Jane Rowth, com nove anos de idade, piscava os olhos, observando as sombras da noite escura. 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