{"id":63701,"date":"2026-01-06T12:04:39","date_gmt":"2026-01-06T15:04:39","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=63701"},"modified":"2026-01-06T12:04:39","modified_gmt":"2026-01-06T15:04:39","slug":"o-mito-da-forca-de-vontade-e-por-que-algumas-pessoas-tem-mais-dificuldade-para-perder-peso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=63701","title":{"rendered":"O mito da for\u00e7a de vontade \u2014 e por que algumas pessoas t\u00eam mais dificuldade para perder peso"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/b4gku7wuJMUWXxOKR6ULIE3lYZI=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/G\/L\/k024NXQsuRutj8SwOI4A\/b72139a0-df49-11f0-b67b-690eb873de1b.jpg.webp\"><br \/>     O que acontece com o paladar de quem usa Ozempic, Wegovy e Mounjaro<br \/>\n&#8220;Pessoas gordas s\u00f3 precisam de mais autocontrole.&#8221; &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de responsabilidade pessoal.&#8221; &#8220;\u00c9 simples, basta comer menos.&#8221;<br \/>\nEsses foram alguns dos 1.946 coment\u00e1rios publicados por leitores, abaixo de um artigo que escrevi em 2025 sobre inje\u00e7\u00f5es para perda de peso.<br \/>\nA ideia de que a obesidade \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de for\u00e7a de vontade \u00e9 defendida por muitas pessoas, inclusive por alguns profissionais de sa\u00fade.<br \/>\nDe acordo com um estudo realizado com pessoas do Reino Unido, Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia e Estados Unidos, publicado na revista m\u00e9dica The Lancet, 8 em cada 10 pessoas afirmaram que a obesidade poderia ser totalmente impedida apenas por meio de escolhas de estilo de vida.<br \/>\nA ideia de que a obesidade \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de for\u00e7a de vontade \u00e9 defendida por muitas pessoas, inclusive por alguns profissionais de sa\u00fade<br \/>\nBBC<br \/>\nMas Bini Suresh, nutricionista com 20 anos de experi\u00eancia com pacientes obesos e com sobrepeso, diz ficar indignada com essa ideia.<br \/>\nIsso, acredita ela, \u00e9 apenas uma fra\u00e7\u00e3o do quadro completo.<br \/>\n&#8220;Vejo com frequ\u00eancia pacientes altamente motivados, bem informados e que se esfor\u00e7am de forma consistente, mas ainda assim enfrentam dificuldades para controlar o peso&#8221;, afirma.<br \/>\n&#8220;Termos como &#8216;for\u00e7a de vontade&#8217; e &#8216;autocontrole&#8217; s\u00e3o inadequados&#8221;, concorda a m\u00e9dica Kim Boyd, diretora m\u00e9dica do Vigilantes do Peso. &#8220;Durante d\u00e9cadas, as pessoas ouviram que bastava comer menos e se exercitar mais para emagrecer\u2026 [Mas] a obesidade \u00e9 muito mais complexa.&#8221;<br \/>\nEla e outros especialistas ouvidos pela reportagem apontam que h\u00e1 in\u00fameras raz\u00f5es pelas quais uma pessoa pode ser obesa; algumas ainda n\u00e3o totalmente compreendidas. O que j\u00e1 est\u00e1 claro, por\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o se trata de um jogo com condi\u00e7\u00f5es iguais para todos.<br \/>\nO governo do Reino Unido recorreu \u00e0 regula\u00e7\u00e3o para tentar enfrentar o problema.<br \/>\nA medida mais recente, a proibi\u00e7\u00e3o de publicidade de alimentos n\u00e3o saud\u00e1veis (com alto teor de a\u00e7\u00facar, sal ou gordura, por exemplo) na televis\u00e3o antes das 21h e, de forma integral, em plataformas online, entrou em vigor nesta semana.<br \/>\nAinda assim, muitos acreditam que isso n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para combater o que hoje \u00e9 um problema de obesidade de grandes propor\u00e7\u00f5es no Reino Unido \u2014 um problema que afeta mais de 1 em cada 4 adultos.<br \/>\nEsperar que o controle e a manuten\u00e7\u00e3o do peso dependam exclusivamente de for\u00e7a de vontade \u00e9 irrealista e injusto, afirma Bini Suresh, chefe do departamento de nutri\u00e7\u00e3o da Cleveland Clinic, em Londres<br \/>\nGetty Images\/BBC<br \/>\nUma batalha contra a biologia<br \/>\n&#8220;A quantidade de peso que as pessoas ganham \u00e9 significativamente influenciada pelos genes, e esses genes s\u00e3o relevantes para todos&#8221;, explica a professora Sadaf Farooqi, endocrinologista que trata pacientes com obesidade m\u00f3rbida e dist\u00farbios end\u00f3crinos e lidera o Estudo Gen\u00e9tico da Obesidade, da Universidade de Cambridge (Reino Unido).<br \/>\nEla afirma que determinados genes afetam os circuitos cerebrais que regulam a fome e a saciedade em resposta aos sinais enviados pelo est\u00f4mago ao c\u00e9rebro.<br \/>\n&#8220;Variantes ou altera\u00e7\u00f5es nesses genes s\u00e3o encontradas em pessoas com obesidade, o que faz com que sintam mais fome e tenham menor probabilidade de se sentirem saciadas ap\u00f3s comer.&#8221;<br \/>\nTalvez o mais importante desses genes \u2014 ao menos entre os que s\u00e3o conhecidos at\u00e9 agora \u2014 seja o MC4R. Uma muta\u00e7\u00e3o nesse gene, que estimula a alimenta\u00e7\u00e3o excessiva e reduz a sensa\u00e7\u00e3o de saciedade, est\u00e1 presente em cerca de um quinto (20%) da popula\u00e7\u00e3o mundial.<br \/>\n&#8220;Outros genes afetam o metabolismo \u2014 a velocidade com que queimamos energia&#8221;, acrescenta Farooqi, da Universidade de Cambridge.<br \/>\n&#8220;Isso significa que algumas pessoas ganham mais peso e armazenam mais gordura ao consumir a mesma quantidade de alimento do que outras, ou queimam menos calorias quando se exercitam.&#8221;<br \/>\nA obesidade pode levar a doen\u00e7as card\u00edacas, derrame, diabetes tipo 2 e alguns tipos de c\u00e2ncer<br \/>\nIn Pictures via Getty Images<br \/>\nFarooqi estima que provavelmente existam milhares de genes que influenciam o peso corporal e que apenas cerca de 30 a 40 deles s\u00e3o atualmente conhecidos em detalhe.<br \/>\n&#8220;\u00c9 por isso que os medicamentos para perda de peso que est\u00e3o chegando ao mercado s\u00e3o t\u00e3o eficazes e t\u00e3o importantes: eles ajudam a combater esse mecanismo&#8221;, afirma.<br \/>\nA ci\u00eancia por tr\u00e1s do efeito sanfona<br \/>\nAinda assim, isso \u00e9 apenas parte da hist\u00f3ria.<br \/>\nAndrew Jenkinson, cirurgi\u00e3o bari\u00e1trico e autor de Why We Eat Too Much (Por que Comemos Demais, em tradu\u00e7\u00e3o livre), explica que cada pessoa tem um peso determinado que o c\u00e9rebro reconhece ou considera ideal, independentemente de ser um peso saud\u00e1vel ou n\u00e3o.<br \/>\nEsse conceito \u00e9 conhecido como teoria do set point.<br \/>\n&#8220;Esse [peso corporal determinado] \u00e9 definido pela gen\u00e9tica, mas tamb\u00e9m por outros fatores, como o ambiente alimentar, o n\u00edvel de estresse e o padr\u00e3o de sono&#8221;, afirma.<br \/>\nSegundo a teoria, o peso corporal funciona como um termostato: o organismo tenta manter-se dentro dessa faixa determinada, considerada a ideal. Se o peso cai abaixo desse &#8220;ponto de ajuste&#8221; (set point), a fome aumenta e o metabolismo desacelera, da mesma forma que um termostato eleva a temperatura quando o ambiente esfria.<br \/>\nUma vez estabelecido esse peso determinado, argumenta Jenkinson, \u00e9 muito dif\u00edcil alter\u00e1-lo apenas com for\u00e7a de vontade.<br \/>\nIsso tamb\u00e9m ajuda a explicar o chamado efeito sanfona das dietas. &#8220;Por exemplo, se voc\u00ea pesa cerca de 127 kg e o seu c\u00e9rebro entende que esse \u00e9 seu peso ideal, ao iniciar uma dieta de baixas calorias e perder cerca de 12 kg, a rea\u00e7\u00e3o do seu corpo \u00e9 exatamente a mesma de quando voc\u00ea passa fome&#8221;, diz.<br \/>\nAlgumas pessoas ganham mais peso e armazenam mais gordura ao consumir a mesma quantidade de alimento do que outras, disse Farooqi, que lidera o &#8220;Genetics of Obesity Study&#8221;, sediado na University of Cambridge. Segundo ela, \u00e9 prov\u00e1vel que existam milhares de genes que influenciam o peso<br \/>\nGetty Images\/BBC<br \/>\n&#8220;Ela vai provocar uma rea\u00e7\u00e3o de apetite voraz, comportamento de busca por comida e metabolismo lento&#8221;, acrescenta. &#8220;Esses sinais de fome s\u00e3o extremamente fortes. S\u00e3o t\u00e3o fortes quanto o sinal de sede, existem para nos ajudar a sobreviver. Um apetite voraz \u00e9 algo realmente muito dif\u00edcil de ignorar.&#8221;<br \/>\nQuanto \u00e0 base cient\u00edfica desse processo, Jenkinson aponta para o papel da leptina, um horm\u00f4nio produzido pelas c\u00e9lulas de gordura. &#8220;Ela funciona como um sinal para o hipot\u00e1lamo, a parte do c\u00e9rebro que basicamente controla o ponto de ajuste do seu peso, para dizer quanta energia o corpo tem armazenada.<br \/>\n&#8220;O hipot\u00e1lamo analisa o n\u00edvel de leptina e, se parecer que estamos armazenando energia ou gordura em excesso, ele altera automaticamente nosso comportamento, reduzindo o apetite e aumentando o metabolismo.&#8221;<br \/>\nAo menos, \u00e9 assim que a leptina deveria funcionar. Muitas vezes, ela falha, sobretudo no ambiente alimentar ocidental, explica ele.<br \/>\nIsso ocorre porque o sinal da leptina compartilha uma via de sinaliza\u00e7\u00e3o com a insulina. &#8220;Portanto, se os n\u00edveis de insulina est\u00e3o altos demais, isso acaba diluindo o sinal da leptina, e o c\u00e9rebro deixa de perceber quanta gordura est\u00e1 armazenada.&#8221;<br \/>\nA boa not\u00edcia \u00e9 que esse ponto de ajuste n\u00e3o \u00e9 fixo, ele pode se deslocar gradualmente por meio de mudan\u00e7as sustentadas no estilo de vida, melhora do sono, redu\u00e7\u00e3o do estresse e ado\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos saud\u00e1veis de longo prazo.<br \/>\nAssim como ao reajustar um termostato, ajustes lentos e consistentes, ao longo do tempo, podem ajudar o corpo a aceitar uma nova faixa mais saud\u00e1vel.<br \/>\nUm relat\u00f3rio publicado no ano passado pela The Food Foundation tamb\u00e9m apontou que alimentos mais saud\u00e1veis custam mais do que o dobro por caloria em compara\u00e7\u00e3o aos menos saud\u00e1veis<br \/>\nGetty Images<br \/>\nObesidade no Reino Unido: a tempestade perfeita<br \/>\nNada disso explica sozinho o aumento da obesidade em pa\u00edses como o Reino Unido. Afinal, nossos genes e a constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do corpo humano n\u00e3o mudaram.<br \/>\nA propor\u00e7\u00e3o de adultos classificados como com sobrepeso ou obesidade aumentou de forma constante na \u00faltima d\u00e9cada. A an\u00e1lise de 2025 da Health Foundation, entidade filantr\u00f3pica de servi\u00e7os de sa\u00fade do Reino Unido, indica que mais de 60% dos adultos do Reino Unido agora se enquadram nessa categoria (incluindo cerca de 28% considerados obesos).<br \/>\nParte disso se deve ao enorme volume e acessibilidade de alimentos de baixa qualidade e alto teor cal\u00f3rico, em especial os ultraprocessados. Somam-se a isso o marketing e a publicidade agressivos de fast food e bebidas a\u00e7ucaradas, o aumento do tamanho das por\u00e7\u00f5es e as oportunidades limitadas para a pr\u00e1tica de atividades f\u00edsicas (muitas vezes em raz\u00e3o do planejamento urbano ou da falta de tempo), e temos uma tempestade perfeita.<br \/>\n&#8220;[Como resultado] nos tornamos uma popula\u00e7\u00e3o mais obesa e, claro, aqueles com maior propens\u00e3o gen\u00e9tica a ganhar peso acabaram ganhando&#8221;, disse Farooqi, da Universidade de Cambridge.<br \/>\nEspecialistas em sa\u00fade p\u00fablica se referem a esse quadro como ambiente obesog\u00eanico, termo usado pela primeira vez nos anos 1990, quando pesquisadores passaram a relacionar o aumento das taxas de obesidade a fatores externos, como disponibilidade de alimentos, marketing e planejamento urbano.<br \/>\nEm conjunto, argumentam muitos especialistas, esses fatores criam est\u00edmulos e press\u00f5es constantes que levam a alimenta\u00e7\u00e3o excessiva e ao sedentarismo, significando que at\u00e9 pessoas altamente motivadas t\u00eam dificuldade para manter um peso saud\u00e1vel.<br \/>\nTudo isso tamb\u00e9m ajuda a explicar por que a for\u00e7a de vontade se tornou um termo cada vez mais carregado de significado.<br \/>\nO governo introduziu uma proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 publicidade de determinados alimentos n\u00e3o saud\u00e1veis na televis\u00e3o antes das 21h, al\u00e9m de um banimento total das promo\u00e7\u00f5es online<br \/>\nGetty Images<br \/>\nO debate sobre responsabilidade individual<br \/>\nSentada em seu escrit\u00f3rio na Administra\u00e7\u00e3o Municipal de Newcastle (Reino Unido), a diretora de sa\u00fade p\u00fablica Alice Wiseman v\u00ea comida por todo lado. &#8220;H\u00e1 cafeterias, padarias e restaurantes de comida para viagem. Voc\u00ea n\u00e3o consegue ir \u00e0 escola ou ao trabalho sem passar por um lugar que venda comida.&#8221;<br \/>\n&#8220;A visibilidade importa. Se voc\u00ea passa por muitos pontos de comida para viagem no caminho para o trabalho, \u00e9 mais prov\u00e1vel que compre algo. O corpo quase reage \u00e0 comida ao seu redor&#8221;, diz Wiseman.<br \/>\nEm Gateshead, onde ela tamb\u00e9m \u00e9 diretora no sistema p\u00fablico de sa\u00fade, nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o de planejamento urbano foi concedida para novos estabelecimentos de venda de comida para viagem desde 2015.<br \/>\nMas no restante do pa\u00eds, o setor de fast food e de refei\u00e7\u00f5es para viagem continuou a crescer, movimenta mais de \u00a3 23 bilh\u00f5es por ano (cerca de R$ 145 bilh\u00f5es).<br \/>\nE os gastos com publicidade de alimentos no Reino Unido s\u00e3o dominados por produtos ricos em gordura, sal e a\u00e7\u00facar, como doces, bebidas a\u00e7ucaradas, fast food e lanchinhos, segundo o mais recente Ofcom Communications Market Report.<br \/>\nMas Wiseman, que \u00e9 vice-presidente da Association of Directors of Public Health (Associa\u00e7\u00e3o de Diretores do Sistema de Sa\u00fade P\u00fablica, em tradu\u00e7\u00e3o livre), avalia que as novas medidas anunciadas para restringir a publicidade de junk food \u2014 ou, oficialmente, &#8220;less healthy food&#8221; (alimentos menos saud\u00e1veis, em tradu\u00e7\u00e3o livre) \u2014 ter\u00e3o alcance limitado.<br \/>\nUm relat\u00f3rio publicado no ano passado pela The Food Foundation tamb\u00e9m apontou que alimentos mais saud\u00e1veis custam mais do que o dobro por caloria em compara\u00e7\u00e3o aos menos saud\u00e1veis.<br \/>\n&#8220;Em fam\u00edlias onde o dinheiro \u00e9 curto, \u00e9 dif\u00edcil arcar com uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel&#8221;, diz Wiseman.<br \/>\nO setor de fast food e de refei\u00e7\u00f5es para viagem continuou a crescer, movimenta mais de \u00a3 23 bilh\u00f5es por ano (cerca de R$ 145 bilh\u00f5es)<br \/>\nGetty Images\/BBC<br \/>\n&#8220;N\u00e3o estou dizendo que a responsabilidade individual n\u00e3o tenha um papel. Mas, quando se pensa bem, \u00e9 preciso perguntar: o que mudou? N\u00f3s n\u00e3o perdemos for\u00e7a de vontade de repente.&#8221;<br \/>\nA nutricionista Bini Suresh concorda. &#8220;Vivemos em um ambiente projetado para o consumo excessivo.&#8221;<br \/>\n&#8220;A obesidade n\u00e3o \u00e9 uma falha de car\u00e1ter. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o complexa e cr\u00f4nica, moldada pela biologia e por um ambiente altamente obesog\u00eanico. For\u00e7a de vontade, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 suficiente, e enquadrar a perda de peso apenas como uma quest\u00e3o de disciplina causa danos.&#8221;<br \/>\nNo entanto, outros t\u00eam uma leitura diferente do termo &#8220;for\u00e7a de vontade&#8221;.<br \/>\nO professor Keith Frayn, autor de A Calorie is a Calorie (Uma Caloria \u00e9 uma Caloria, em tradu\u00e7\u00e3o livre) concorda que muitas pessoas hoje com sobrepeso provavelmente n\u00e3o estariam nessa condi\u00e7\u00e3o h\u00e1 40 anos. &#8220;Foi o ambiente que mudou, n\u00e3o a for\u00e7a de vontade delas nem qualquer outra coisa&#8221;, afirma.<br \/>\nEle acrescenta: &#8220;Tenho receio de que descartar a &#8216;for\u00e7a de vontade&#8217; torne f\u00e1cil demais se resignar a um peso que talvez n\u00e3o seja o desejado ou o melhor para a sa\u00fade&#8221;.<br \/>\nFrayn cita grandes bases de dados de pessoas que conseguiram perder peso e manter a redu\u00e7\u00e3o, como o National Weight Control Registry, nos EUA, que re\u00fane mais de 10 mil participantes. &#8220;Essas pessoas descrevem tanto a perda de peso quanto a manuten\u00e7\u00e3o do peso como &#8216;dif\u00edceis&#8217;, sendo o segundo ainda mais dif\u00edcil do que o primeiro\u2026&#8221;.<br \/>\n&#8220;Eu diria que, se voc\u00ea dissesse a essas pessoas que for\u00e7a de vontade n\u00e3o tem nada a ver com isso, elas ficariam bastante ofendidas&#8221;, diz Frayn.<br \/>\n&#8216;N\u00e3o se legisla pessoas para a boa forma&#8217;<br \/>\nO debate mais amplo, naturalmente, \u00e9 at\u00e9 que ponto o Estado deve assumir responsabilidade.<br \/>\nWiseman avalia que a regula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ferramenta importante no enfrentamento da obesidade argumentando que promo\u00e7\u00f5es como leve um, pague dois estimulam compras por impulso. J\u00e1 Gareth Lyon, chefe da \u00e1rea de sa\u00fade e assist\u00eancia social do think tank de direita (centro de estudos e debates) Policy Exchange, argumenta que mais legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o caminho.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o se legisla pessoas para a boa forma&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;As proibi\u00e7\u00f5es e impostos sobre alimentos que as pessoas gostam de comer s\u00f3 tornam a vida mais dif\u00edcil, menos prazerosa e mais cara, em um momento em que o Reino Unido j\u00e1 enfrenta dificuldades com o custo de vida.&#8221;<br \/>\nChristopher Snowdon, diretor de economia do estilo de vida no Institute of Economic Affairs, outro think tank de direita, tamb\u00e9m considera que a obesidade \u00e9 um &#8220;problema individual&#8221;, e n\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica.<br \/>\n&#8220;[A obesidade] decorre das escolhas feitas por esse indiv\u00edduo&#8221;, argumenta. &#8220;Em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o d\u00e1 para ir muito al\u00e9m do indiv\u00edduo. Acho bastante bizarra a ideia de que seja responsabilidade do governo fazer as pessoas emagrecerem&#8221;.<br \/>\n&#8220;Eu gostaria de ver uma avalia\u00e7\u00e3o independente e rigorosa dessas pol\u00edticas e, se elas n\u00e3o est\u00e3o funcionando, que sejam revogadas.&#8221;<br \/>\nQuanto \u00e0 for\u00e7a de vontade, ela sempre desempenhar\u00e1 algum papel \u2014 o que varia \u00e9 o tamanho desse papel na avalia\u00e7\u00e3o de especialistas.<br \/>\nSuresh avalia que a for\u00e7a de vontade \u00e9 apenas uma parte de um quadro mais amplo. E que o primeiro passo \u00e9 informar as pessoas sobre quais outros fatores est\u00e3o em jogo.<br \/>\n&#8220;Essa perspectiva muda o foco de um julgamento moral sobre for\u00e7a de vontade para um sistema de apoio compassivo, baseado na ci\u00eancia, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, oferece melhores chances de sucesso no longo prazo.&#8221;<br \/>\nExistem tamb\u00e9m maneiras de fortalecer a for\u00e7a de vontade, argumenta a psic\u00f3loga Eleanor Bryant, da Universidade de Bradford (Reino Unido). &#8220;Ela n\u00e3o \u00e9 constante o tempo todo. \u00c9 influenciada pelo seu humor, pelo n\u00edvel de cansa\u00e7o e, no caso da alimenta\u00e7\u00e3o, pelo n\u00edvel de fome que sente.&#8221;<br \/>\nO que tamb\u00e9m importa \u00e9 a forma como se pensa sobre isso. Existem dois tipos de for\u00e7a de vontade: flex\u00edvel e r\u00edgida. Quem tem for\u00e7a de vontade r\u00edgida v\u00ea as coisas como preto no branco. &#8220;Se voc\u00ea cede \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, basicamente se entrega. Voc\u00ea come aquele biscoito e continua comendo.&#8221;<br \/>\nEm termos psicol\u00f3gicos, isso \u00e9 conhecido como alimenta\u00e7\u00e3o desinibida. &#8220;J\u00e1 a pessoa flex\u00edvel diz: &#8216;Ok, comi um biscoito\u2026 mas vou parar por aqui'&#8221;, explica Bryant. &#8220;N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que a flexibilidade \u00e9 muito mais bem-sucedida.&#8221;<br \/>\nEla acrescenta: &#8220;Exercer for\u00e7a de vontade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comida provavelmente \u00e9 mais dif\u00edcil do que em outras \u00e1reas [da vida].&#8221;<br \/>\nSuresh concorda, mas afirma que, quando as pessoas compreendem os limites da for\u00e7a de vontade, a capacidade de exerc\u00ea-la tende, na pr\u00e1tica, a se fortalecer.<br \/>\n&#8220;Quando esses pacientes entendem que sua dificuldade tem ra\u00edzes biol\u00f3gicas, e n\u00e3o na falta de disciplina, e passam a contar com apoio baseado em nutri\u00e7\u00e3o estruturada, padr\u00f5es regulares de alimenta\u00e7\u00e3o, estrat\u00e9gias psicol\u00f3gicas e metas realistas, a rela\u00e7\u00e3o deles com a comida melhora de forma significativa.&#8221;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que acontece com o paladar de quem usa Ozempic, Wegovy e Mounjaro &#8220;Pessoas gordas s\u00f3 precisam de mais autocontrole.&#8221; &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de responsabilidade pessoal.&#8221; &#8220;\u00c9 simples, basta comer menos.&#8221; Esses foram alguns dos 1.946 coment\u00e1rios publicados por leitores, abaixo de um artigo que escrevi em 2025 sobre inje\u00e7\u00f5es para perda de peso. 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