{"id":63821,"date":"2026-01-09T06:02:04","date_gmt":"2026-01-09T09:02:04","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=63821"},"modified":"2026-01-09T06:02:04","modified_gmt":"2026-01-09T09:02:04","slug":"a-relacao-estreita-entre-estados-mais-atingidos-pela-dengue-e-a-confianca-em-cientistas-na-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=63821","title":{"rendered":"A rela\u00e7\u00e3o estreita entre estados mais atingidos pela dengue e a confian\u00e7a em cientistas na Covid-19"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/HkH2s8FNPeY5G4j7StKZDc6WEFc=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/d\/I\/mKBJVSQrSj9cbxFNBD9w\/adobestock-334601687.jpeg\"><br \/>     Vacina contra a dengue produzida no Brasil<br \/>\nAo longo da pandemia de Covid-19, os estados brasileiros adotaram respostas muito diferentes \u00e0 crise sanit\u00e1ria. Enquanto S\u00e3o Paulo e Cear\u00e1 adotaram estrat\u00e9gias mais estruturadas e est\u00e1veis ao longo da crise, outros, como Acre e Amap\u00e1, reagiram de modo fragmentado e vari\u00e1vel.<br \/>\nO que ajuda a explicar essas diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o somente as decis\u00f5es tomadas durante a emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, mas a capacidade estatal acumulada antes da pandemia. Por capacidade estatal, entenda-se o conjunto de recursos, estruturas e habilidades necess\u00e1rias para lidar com crises de sa\u00fade p\u00fablica. \u00c9 algo que definitivamente n\u00e3o se improvisa em momentos de urg\u00eancia.<br \/>\nEssa \u00e9 a principal conclus\u00e3o de um estudo que eu e o professor de ci\u00eancia pol\u00edtica \u00c9ric Montpetit realizamos na Universidade de Montreal, no Canad\u00e1.<br \/>\nA pesquisa analisou e comparou o modo como os governos estaduais brasileiros reagiram \u00e0 pandemia e mostrou que a varia\u00e7\u00e3o das respostas refletiu tanto as desigualdades na capacidade estatal, quanto as diferen\u00e7as na forma como os governos deram prioridade a setores e definiram quais fontes de informa\u00e7\u00e3o orientariam suas decis\u00f5es.<br \/>\nEstados que historicamente investiram mais em sa\u00fade p\u00fablica tenderam a interpretar as crises sanit\u00e1rias a partir de uma l\u00f3gica distinta daquela adotada por governos com menor ac\u00famulo institucional nessa \u00e1rea.<br \/>\nEstados que investiram de forma consistente em epidemias anteriores entraram na pandemia de Covid-19 com estruturas institucionais no campo da sa\u00fade j\u00e1 em funcionamento. N\u00e3o se trata apenas de maior volume de recursos, mas da exist\u00eancia de rotinas consolidadas de vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica, equipes t\u00e9cnicas com experi\u00eancia e canais est\u00e1veis e confi\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o e uso de informa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, esse ac\u00famulo permitiu fortalecer as pol\u00edticas existentes e oferecer respostas mais coordenadas, orientadas por evid\u00eancias cient\u00edficas e pela atua\u00e7\u00e3o de especialistas em sa\u00fade p\u00fablica e cientistas.<br \/>\nEm contraste, estados com menor capacidade institucional adotaram respostas mais irregulares ao longo do tempo. Na aus\u00eancia de uma base de dados mais robusta em sa\u00fade p\u00fablica, esses governos deram maior peso a informa\u00e7\u00f5es vindas do setor produtivo e a comit\u00eas voltados sobretudo aos impactos econ\u00f4micos da crise, o que resultou em estrat\u00e9gias menos centradas na l\u00f3gica sanit\u00e1ria.<br \/>\n\u00c1rea reservada para v\u00edtimas da Covid-19 no cemit\u00e9rio Nossa Senhora Aparecida em Manaus<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nComo se formam as bolhas pol\u00edticas na sa\u00fade<br \/>\nDe forma inovadora, nosso estudo sugere que as diferen\u00e7as observadas na capacidade epidemiol\u00f3gica podem ser compreendidas a partir do conceito de bolhas pol\u00edticas (policy bubbles).<br \/>\nEssas bolhas se formam no campo das pol\u00edticas p\u00fablicas quando governos concentram recursos de maneira intensa e recorrente em \u00e1reas espec\u00edficas, especialmente em contextos de urg\u00eancia. Diferentemente das bolhas financeiras, elas n\u00e3o se dissipam quando a crise termina.<br \/>\nPelo contr\u00e1rio, deixam legados institucionais duradouros, que passam a estruturar capacidades administrativas, circuitos decis\u00f3rios e as fontes de informa\u00e7\u00e3o mobilizadas em crises futuras.<br \/>\nO impacto dessas bolhas pol\u00edticas afeta n\u00e3o apenas a distribui\u00e7\u00e3o de recursos, mas tamb\u00e9m a diversidade das informa\u00e7\u00f5es e evid\u00eancias cient\u00edficas que orientam os processos de decis\u00e3o, condicionando a forma como os governos respondem a crises sanit\u00e1rias complexas.<br \/>\nA forma\u00e7\u00e3o dessas \u201cbolhas\u201d n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo no Brasil. Experi\u00eancias anteriores com epidemias, como Zika e dengue, levaram alguns estados a investir recursos de forma cont\u00ednua no fortalecimento de sua infraestrutura sanit\u00e1ria e a dar prioridade a informa\u00e7\u00f5es produzidas por especialistas em sa\u00fade p\u00fablica.<br \/>\nNos locais onde ocorreu essa concentra\u00e7\u00e3o de investimentos, consolidaram-se estruturas que passaram a produzir as informa\u00e7\u00f5es que ganharam centralidade durante a pandemia de Covid-19. Ao priorizar repetidamente o setor sanit\u00e1rio, esses estados refor\u00e7aram um ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o: a expans\u00e3o da capacidade t\u00e9cnica favoreceu respostas mais organizadas e consistentes, o que, por sua vez, sustentou novos investimentos na \u00e1rea da sa\u00fade.<br \/>\nAo mesmo tempo, esse processo reduziu o peso relativo de outras fontes de informa\u00e7\u00e3o no processo decis\u00f3rio.<br \/>\nV\u00edrus da Covid-19 altera atividade cerebral a longo prazo ap\u00f3s infec\u00e7\u00e3o, mostra estudo<br \/>\nAdobe Stock<br \/>\nImpacto na qualidade das informa\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es<br \/>\nAs diferen\u00e7as nos investimentos em sa\u00fade tamb\u00e9m se refletiram na composi\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas criados para orientar a resposta governamental. Em estados com maior capacidade epidemiol\u00f3gica, como S\u00e3o Paulo e Cear\u00e1, esses \u00f3rg\u00e3os foram compostos majoritariamente por especialistas em sa\u00fade p\u00fablica. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, o Comit\u00ea de Conting\u00eancia para a Covid-19 reuniu epidemiologistas e t\u00e9cnicos da \u00e1rea da sa\u00fade que exerceram influ\u00eancia direta sobre a agenda pol\u00edtica estadual.<br \/>\nEm contraste, estados com menor capacidade epidemiol\u00f3gica, como Acre, Amap\u00e1 e Goi\u00e1s, recorreram a arranjos mais diversificados. Esses governos incorporaram representantes de outros setores aos seus comit\u00eas, incluindo atores da agricultura e do com\u00e9rcio. O Comit\u00ea Socioecon\u00f4mico para o Enfrentamento do Coronav\u00edrus, em Goi\u00e1s, ilustra como preocupa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ganharam centralidade na gest\u00e3o da pandemia. De forma semelhante, no Acre, os grupos de trabalho buscaram articular quest\u00f5es sanit\u00e1rias com impactos econ\u00f4micos e sociais, refletindo uma abordagem menos centrada exclusivamente na sa\u00fade.<br \/>\nEnquanto bolhas financeiras tendem a ser ef\u00eameras, as bolhas pol\u00edticas s\u00e3o mais dif\u00edceis de se formar e, uma vez consolidadas, tendem a persistir. No Brasil, como mostra o estudo, a concentra\u00e7\u00e3o recorrente de recursos em sa\u00fade \u2014 especialmente em vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica \u2014 produziu legados institucionais duradouros, materializados em or\u00e7amentos mais robustos, quadros t\u00e9cnicos especializados e comit\u00eas decis\u00f3rios nos quais a expertise sanit\u00e1ria ganhou centralidade.<br \/>\nEsses arranjos influenciam trajet\u00f3rias  e criam marcos institucionais e regulat\u00f3rios que passam a definir quais informa\u00e7\u00f5es entram na agenda governamental e quem tem autoridade para interpret\u00e1-las. Ao longo do tempo, isso refor\u00e7a a posi\u00e7\u00e3o de determinados setores na pol\u00edtica estadual. O efeito n\u00e3o \u00e9 neutro: manter essas bolhas tende a ampliar a capacidade de resposta a emerg\u00eancias sanit\u00e1rias, enquanto seu enfraquecimento pode significar perda de capacidade institucional e retorno \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs legados das crises sanit\u00e1rias<br \/>\nA crise da Covid-19 evidenciou como a forma\u00e7\u00e3o de bolhas pol\u00edticas e a distribui\u00e7\u00e3o desigual de recursos entre \u00e1reas governamentais afetam tanto a capacidade de resposta dos estados quanto o tipo de informa\u00e7\u00e3o mobilizada em contextos de emerg\u00eancia. Mais do que um problema de efici\u00eancia, esse fen\u00f4meno revela como decis\u00f5es tomadas em crises passadas moldam as op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis no presente.<br \/>\nNesse sentido, a contribui\u00e7\u00e3o central desta abordagem n\u00e3o est\u00e1 em indicar solu\u00e7\u00f5es imediatas, mas em revelar como as diferentes trajet\u00f3rias institucionais condicionam a forma como governos lidam com crises sanit\u00e1rias recorrentes.<br \/>\nAs bolhas pol\u00edticas formadas ao longo do tempo ajudam a entender por que respostas a emerg\u00eancias \u2014 como a Covid-19, mas tamb\u00e9m novas ondas de dengue ou futuras crises sanit\u00e1rias \u2014 continuam sendo profundamente desiguais entre os estados brasileiros. As crises passam, mas suas heran\u00e7as permanecem. Entender como essas bolhas se formam \u2014 e por que alguns estados se fortalecem enquanto outros ficam para tr\u00e1s \u2014 \u00e9 fundamental para analisar a pol\u00edtica p\u00fablica no Brasil e compreender quem ter\u00e1 voz quando a pr\u00f3xima emerg\u00eancia chegar.<br \/>\nMaria Alejandra Costa recebe financiamento da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP).<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vacina contra a dengue produzida no Brasil Ao longo da pandemia de Covid-19, os estados brasileiros adotaram respostas muito diferentes \u00e0 crise sanit\u00e1ria. Enquanto S\u00e3o Paulo e Cear\u00e1 adotaram estrat\u00e9gias mais estruturadas e est\u00e1veis ao longo da crise, outros, como Acre e Amap\u00e1, reagiram de modo fragmentado e vari\u00e1vel. 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