{"id":64209,"date":"2026-01-18T06:05:28","date_gmt":"2026-01-18T09:05:28","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=64209"},"modified":"2026-01-18T06:05:28","modified_gmt":"2026-01-18T09:05:28","slug":"por-que-40-dos-casos-de-infarto-ocorrem-em-pessoas-com-baixo-risco-de-problemas-cardiovasculares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=64209","title":{"rendered":"Por que 40% dos casos de infarto ocorrem em pessoas com baixo risco de problemas cardiovasculares"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/hBWZXyX8LV-l2D8A2VW5LcJ4q58=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/d\/X\/A6ZLRXSKSeP5zyuqiKkg\/young-man-feeling-sick-holding-his-chest-pain-while-drinking-tea-living-room.jpg\"><br \/>     &#8216;Fala Sa\u00fade&#8217;: quadro tira d\u00favidas sobre doen\u00e7as cardiovasculares<br \/>\nRecentemente, uma informa\u00e7\u00e3o muito provocativa e preocupante foi revelada por um grande estudo internacional conhecido pela sigla PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology): quatro em cada dez infartos ocorrem em pessoas que t\u00eam baixo risco de sofrer um evento cardiovascular, de acordo com os modelos tradicionais de avalia\u00e7\u00e3o utilizados na pr\u00e1tica cl\u00ednica.<br \/>\nTrata-se de indiv\u00edduos que, em geral, n\u00e3o est\u00e3o no centro das estrat\u00e9gias preventivas, n\u00e3o recebem acompanhamento intensivo e n\u00e3o s\u00e3o considerados prioridade pelas pol\u00edticas de sa\u00fade.<br \/>\nO dado aponta uma lacuna importante: em termos pr\u00e1ticos, isso significa que 40% dos infartos acontecem fora do radar de m\u00e9dicos e pesquisadores, o que refor\u00e7a a necessidade de revisar a avalia\u00e7\u00e3o do risco cardiovascular e evidencia os limites das ferramentas atuais.<br \/>\nO estudo PURE \u00e9 uma coorte prospectiva internacional com cerca de 200 mil pessoas em 21 pa\u00edses, incluindo o Brasil, distribu\u00eddas em cinco continentes. O termo coorte define um tipo de estudo que monitora o mesmo grupo de pessoas, ao longo do tempo, para observar como diferentes fatores se relacionam com o adoecimento e a mortalidade. Seu objetivo \u00e9 investigar os determinantes do adoecimento e da mortalidade, especialmente por doen\u00e7as cardiovasculares, comparando realidades urbanas e rurais e diferentes n\u00edveis de renda ao redor do mundo.<br \/>\nPara compartilhar com a popula\u00e7\u00e3o o conjunto de informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas reveladas por esse estudo, optamos por reuni-las no formato de \u201cli\u00e7\u00f5es\u201d constru\u00eddas a partir do PURE e de estudos que o complementam, como o InterHeart e o InterStroke, desenvolvidos pelo mesmo Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alem\u00e3o Oswaldo Cruz. <\/p>\n<p>Freepik<br \/>\nA sociedade molda o adoecimento<br \/>\nOs diversos estudos mencionados analisaram os fatores associados ao infarto e ao acidente vascular cerebral em diferentes regi\u00f5es do mundo. A ideia central desse conjunto de evid\u00eancias \u00e9 simples e ambiciosa: viver mais e melhor, buscando a chamada LongeVitalidade com base em ci\u00eancia, e n\u00e3o em promessas. As li\u00e7\u00f5es que se seguem ajudam a compreender por que adoecemos e o que pode ser feito a respeito. Entre elas, que o adoecimento cardiovascular acompanha a forma como a sociedade se organiza.<br \/>\nO modelo da transi\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica mostra que, quando saneamento b\u00e1sico e cobertura vacinal melhoram, as doen\u00e7as infecciosas diminuem, mas a vida urbana passa a impor novos riscos. O sedentarismo aumenta, a alimenta\u00e7\u00e3o se torna mais cal\u00f3rica e o estresse emocional se intensifica. Com isso surgem obesidade, hipertens\u00e3o, colesterol alterado e diabetes. Mais adiante, aparecem infarto, AVC e c\u00e2ncer. O adoecimento, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas individual: ele reflete escolhas coletivas de organiza\u00e7\u00e3o da vida em sociedade.<br \/>\nOutra li\u00e7\u00e3o importante vem do estudo InterHeart, que mostrou que nove fatores explicam 90% do risco de infarto: tabagismo, press\u00e3o alta, dislipidemia, obesidade abdominal, diabetes, alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o saud\u00e1vel, sedentarismo, consumo de \u00e1lcool, estresse e depress\u00e3o.<br \/>\nNo Brasil, ganham destaque a dislipidemia, a obesidade abdominal, o tabagismo, a hipertens\u00e3o e o estresse emocional. Esses dados ajudam a entender por que o infarto raramente \u00e9 imprevis\u00edvel e por que modelos baseados apenas na soma desses fatores podem deixar escapar pessoas com baixo risco cardiovascular que acabam sofrendo um evento.<br \/>\nO estudo InterStroke acrescenta outra pe\u00e7a ao encontrar um padr\u00e3o semelhante para o AVC. Dez fatores explicam 90% dos casos, tanto por isquemia quanto por sangramento, incluindo fatores comportamentais e metab\u00f3licos associados ao infarto do mioc\u00e1rdio, al\u00e9m de condi\u00e7\u00f5es card\u00edacas como a fibrila\u00e7\u00e3o atrial. Assim como no infarto, a maior parte dos AVCs poderia ser evitada, refor\u00e7ando a for\u00e7a da preven\u00e7\u00e3o populacional.<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o entre acesso e sobreviv\u00eancia<br \/>\nO estudo PURE ampliou o debate sobre a rela\u00e7\u00e3o entre acesso e sobreviv\u00eancia ao introduzir o chamado paradoxo do risco cardiovascular. Pa\u00edses com maior renda apresentam risco cardiovascular mais elevado, mas registram menos eventos card\u00edacos graves e menos mortes. Nas regi\u00f5es de menor renda, ocorrem mais infartos, mais AVCs e maior mortalidade. A diferen\u00e7a mais prov\u00e1vel est\u00e1 no acesso a diagn\u00f3stico, tratamento cont\u00ednuo, medicamentos e servi\u00e7os de sa\u00fade.<br \/>\nOnde h\u00e1 estrutura, h\u00e1 mais sobreviv\u00eancia. Onde ela falta, os eventos se tornam mais fatais, inclusive entre pessoas que, em teoria, n\u00e3o seriam classificadas como de alto risco.<\/p>\n<p>Freepik<br \/>\nA alimenta\u00e7\u00e3o, avaliada de forma ampla, oferece evid\u00eancias importantes sobre o que faz diferen\u00e7a no prato. Os dados mostraram que dietas ricas em carboidratos se associaram a maior mortalidade, enquanto o consumo de frutas, legumes e verduras se associou de forma consistente \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da mortalidade. Prote\u00ednas tamb\u00e9m se associaram a menor risco de morte.<br \/>\nDe maneira surpreendente para muitos, a gordura animal se associou a menor mortalidade, enquanto a gordura trans mostrou efeito claramente prejudicial.<br \/>\nO consumo de sal e pot\u00e1ssio tamb\u00e9m tem grande influ\u00eancia no equil\u00edbrio do organismo. Tanto o excesso quanto a ingest\u00e3o muito baixa de sal se associaram a maior risco cardiovascular. O menor risco apareceu em uma faixa intermedi\u00e1ria. J\u00e1 o pot\u00e1ssio, presente nos alimentos in natura, demonstrou efeito protetor evidente.<br \/>\nA atividade f\u00edsica surge como um dos pilares universais de prote\u00e7\u00e3o. Atividade aer\u00f3bica foi associada a menos infartos, menos AVCs e menor mortalidade total e cardiovascular. Al\u00e9m disso, a for\u00e7a muscular se mostrou um marcador poderoso de prote\u00e7\u00e3o: mais for\u00e7a, menos mortes, inclusive por causas cardiovasculares. Manter o corpo em movimento e preservar a massa muscular s\u00e3o componentes centrais da LongeVitalidade.<br \/>\nA hipertens\u00e3o arterial permanece como o principal fator de risco no Brasil e no mundo. No pa\u00eds, cerca de 45% dos adultos s\u00e3o hipertensos. Embora o tratamento seja eficaz, o controle ainda \u00e9 baixo: apenas cerca de 10% no mundo e 18% no Brasil mant\u00eam a press\u00e3o adequadamente controlada. Um agravante \u00e9 que aproximadamente metade dos hipertensos sequer sabe que tem a condi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nConhecimento existe, mas precisamos aproveit\u00e1-lo<br \/>\nMesmo ap\u00f3s um evento cardiovascular, a preven\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria enfrenta falhas graves. O estudo PURE mostrou que embora existam terapias eficazes ap\u00f3s o infarto para prevenir novos eventos, elas ainda s\u00e3o pouco utilizadas. No Brasil, cerca de 20% dos pacientes p\u00f3s-infarto e 30% dos que sofreram AVC n\u00e3o utilizavam nenhuma medica\u00e7\u00e3o preventiva. Trata-se de um retrato preocupante da dificuldade de transformar evid\u00eancia cient\u00edfica em pr\u00e1tica cl\u00ednica consistente.<br \/>\nAo reunir todos esses dados, o estudo mostra que 12 fatores respondem por cerca de 70% dos eventos cardiovasculares no mundo. Na Am\u00e9rica do Sul, dez fatores explicam propor\u00e7\u00e3o semelhante. Algo parecido ocorre com a mortalidade: aproximadamente 70% das mortes precoces est\u00e3o associadas a um conjunto limitado de fatores modific\u00e1veis, como tabagismo, hipertens\u00e3o, baixa escolaridade, obesidade abdominal, alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o saud\u00e1vel, for\u00e7a muscular reduzida, sedentarismo, depress\u00e3o, \u00e1lcool e polui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA mensagem final \u00e9 direta: o estilo de vida importa, e mudan\u00e7as poss\u00edveis, sustentadas e baseadas em evid\u00eancia aumentam a expectativa e a qualidade de vida. A preven\u00e7\u00e3o precisa ser praticada desde a gesta\u00e7\u00e3o, atravessando inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia, vida adulta e envelhecimento.<br \/>\nHoje, o maior desafio da sa\u00fade cardiovascular n\u00e3o \u00e9 a descoberta de novos fatores, mas a implementa\u00e7\u00e3o do conhecimento que j\u00e1 existe. Sabemos o que reduz infarto e AVC. Sabemos o que aumenta o risco. Falta transformar esse saber em rotina cl\u00ednica, pol\u00edticas p\u00fablicas e escolhas sustent\u00e1veis.<br \/>\nA LongeVitalidade buscada n\u00e3o \u00e9 um conceito abstrato. Inclui aumento na expectativa de vida livre de eventos cardiovasculares e c\u00e2ncer, menor decl\u00ednio cognitivo, maior autonomia e benef\u00edcios comprovados associados \u00e0 espiritualidade, como prop\u00f3sito e satisfa\u00e7\u00e3o com a vida, gratid\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o ao perd\u00e3o, entre outros. \u00c9 a soma de preven\u00e7\u00e3o, acesso ao cuidado, ades\u00e3o ao tratamento e escolhas repetidas ao longo do tempo. Quando conseguimos integrar esses elementos, ganhamos n\u00e3o apenas mais anos de vida, mas mais vida ao longo dos anos.<br \/>\n\u00c1lvaro Avezum n\u00e3o presta consultoria, trabalha, possui a\u00e7\u00f5es ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organiza\u00e7\u00e3o que poderia se beneficiar com a publica\u00e7\u00e3o deste artigo e n\u00e3o revelou nenhum v\u00ednculo relevante al\u00e9m de seu cargo acad\u00eamico.<br \/>\nCasos de AVC e infarto aumentam entre jovens<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Fala Sa\u00fade&#8217;: quadro tira d\u00favidas sobre doen\u00e7as cardiovasculares Recentemente, uma informa\u00e7\u00e3o muito provocativa e preocupante foi revelada por um grande estudo internacional conhecido pela sigla PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology): quatro em cada dez infartos ocorrem em pessoas que t\u00eam baixo risco de sofrer um evento cardiovascular, de acordo com os modelos tradicionais de avalia\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":261,"featured_media":64210,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[156],"class_list":{"0":"post-64209","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-saude"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/young-man-feeling-sick-holding-his-chest-pain-while-drinking-tea-living-room-scaled.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/64209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/261"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=64209"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/64209\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/64210"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=64209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=64209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=64209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}