{"id":64322,"date":"2026-01-20T12:03:26","date_gmt":"2026-01-20T15:03:26","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=64322"},"modified":"2026-01-20T12:03:26","modified_gmt":"2026-01-20T15:03:26","slug":"vivemos-mais-mas-o-coracao-tambem-sofre-mais-diz-lider-de-laboratorio-que-estuda-hipertensao-ha-40-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=64322","title":{"rendered":"\u2018Vivemos mais, mas o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sofre mais\u2019, diz l\u00edder de laborat\u00f3rio que estuda hipertens\u00e3o h\u00e1 40 anos"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/IIUhjJQPKklZMKarDAWgnE_YHiQ=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/6\/2\/Qhp5QsRBAIkAJ7Dm2ITw\/pesquisador-anti-racista-foto-cassia-cinque.jpg\"><br \/>     Press\u00e3o de 12&#215;8 \u00e9 reclassificada como pr\u00e9-hipertens\u00e3o em nova diretriz<br \/>\nO brasileiro vive mais do que h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, mas n\u00e3o necessariamente com um cora\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel. Enquanto a cardiologia avan\u00e7ou de forma impressionante \u2014com novos exames, medicamentos e estrat\u00e9gias terap\u00eauticas que reduziram mortes e prolongaram a vida\u2014, fatores como obesidade, sedentarismo, estresse cr\u00f4nico e alimenta\u00e7\u00e3o ultraprocessada cresceram no mesmo per\u00edodo e passaram a pressionar o sistema cardiovascular da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPoucos pesquisadores acompanharam essa transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o de perto quanto Robson Santos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e fundador do Laborat\u00f3rio de Hipertens\u00e3o da UFMG, que completa 40 anos como um dos centros mais influentes da fisiologia cardiovascular no Brasil e no mundo.<br \/>\nAo longo dessa trajet\u00f3ria, o de Santos grupo descreveu novos componentes do sistema renina-angiotensina, mudou conceitos centrais da cardiologia e formou gera\u00e7\u00f5es de pesquisadores hoje espalhados por diferentes pa\u00edses.<br \/>\nNesta entrevista, Santos faz um balan\u00e7o direto do que mudou no cora\u00e7\u00e3o do brasileiro, explica por que a ci\u00eancia correu mais r\u00e1pido do que os h\u00e1bitos da popula\u00e7\u00e3o, aponta os gargalos no controle da hipertens\u00e3o e discute os limites e promessas das novas fronteiras da cardiologia.<br \/>\nRobson Santos, l\u00edder do laborat\u00f3rio de hipertens\u00e3o da UFMG<br \/>\nArquivo Pessoal\/C\u00e1ssia Cinque<br \/>\ng1 &#8211; Em 40 anos de pesquisa, o que mais mudou no cora\u00e7\u00e3o do brasileiro?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Mudou menos do que a gente gostaria. Houve um avan\u00e7o enorme no diagn\u00f3stico e no tratamento das doen\u00e7as cardiovasculares. Hoje temos exames muito mais precisos e acess\u00edveis, e uma terap\u00eautica muito mais eficaz. Por outro lado, os fatores de risco aumentaram muito: obesidade, sedentarismo, estresse cr\u00f4nico, piora do padr\u00e3o alimentar. Ent\u00e3o, apesar do progresso da medicina, o grande desafio passou a ser contrabalan\u00e7ar esse avan\u00e7o cient\u00edfico com uma realidade nutricional e ambiental cada vez mais desfavor\u00e1vel.<br \/>\ng1 &#8211; Mesmo com mais fatores de risco, o brasileiro hoje tem menos chance de morrer do cora\u00e7\u00e3o do que no passado?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Sim. Apesar de os fatores de risco terem aumentado progressivamente, a medicina avan\u00e7ou de forma suficiente para reduzir eventos cardiovasculares. Hoje conseguimos diagnosticar mais cedo e tratar melhor. Isso se reflete no aumento da expectativa de vida. \u00c9 um indicativo claro de que o progresso da cardiologia prolongou a vida das pessoas \u2014ainda que esse ganho venha acompanhado de novos riscos.<br \/>\ng1 &#8211; A ci\u00eancia cardiovascular avan\u00e7ou mais r\u00e1pido do que os h\u00e1bitos da popula\u00e7\u00e3o?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Muito mais r\u00e1pido. A ci\u00eancia correu, mas a conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ficou para tr\u00e1s. Isso \u00e9 cultural e tamb\u00e9m pol\u00edtico. Faltam pol\u00edticas p\u00fablicas mais cont\u00ednuas e agressivas de esclarecimento. Campanhas pontuais n\u00e3o d\u00e3o conta do tamanho do problema. Al\u00e9m disso, existe um lobby muito forte da ind\u00fastria de ultraprocessados, com alimentos riqu\u00edssimos em sal e a\u00e7\u00facar, que tornam o ambiente alimentar extremamente hostil \u00e0 sa\u00fade cardiovascular.<br \/>\ng1 &#8211; Mesmo com tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, por que as pessoas continuam se expondo a esses riscos?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Porque h\u00e1 uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de invulnerabilidade. As pessoas sabem que faz mal, mas acham que \u201ccom elas n\u00e3o vai acontecer\u201d. No caso da hipertens\u00e3o, isso \u00e9 ainda mais grave, porque a doen\u00e7a quase n\u00e3o d\u00e1 sintomas. A pessoa mede a press\u00e3o, v\u00ea que est\u00e1 normal com o rem\u00e9dio e simplesmente abandona o tratamento.<br \/>\ng1 &#8211; Hoje o brasileiro vive mais. Vive melhor do ponto de vista do cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Vive melhor em termos de conforto e condi\u00e7\u00f5es materiais, sim. Mas vive com risco maior. A qualidade de vida melhorou, mas isso veio acompanhado de \u201cvenenos modernos\u201d: mais estresse, mais sedentarismo, mais obesidade. S\u00e3o duas curvas que avan\u00e7am juntas.<br \/>\ng1 &#8211; Qual foi o ponto de virada mais importante da cardiologia nesses 40 anos?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Um divisor de \u00e1guas foi o desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora da angiotensina, como o captopril. Essa descoberta mudou completamente a hist\u00f3ria da hipertens\u00e3o, da insufici\u00eancia card\u00edaca e do tratamento p\u00f3s-infarto, ao reduzir o remodelamento do cora\u00e7\u00e3o e aumentar a sobrevida. \u00c9 um avan\u00e7o com ra\u00edzes na ci\u00eancia brasileira, que come\u00e7ou ainda com os estudos sobre a bradicinina, no Instituto Biol\u00f3gico, em S\u00e3o Paulo, e culminou no desenvolvimento do captopril d\u00e9cadas depois.<br \/>\ng1 &#8211; Como explicar o captopril para quem n\u00e3o \u00e9 da \u00e1rea m\u00e9dica?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Nosso organismo tem um sistema central de controle da press\u00e3o arterial, chamado sistema renina-angiotensina. A angiotensina 2, um dos componentes desse sistema, contrai os vasos, ret\u00e9m s\u00f3dio e \u00e1gua e eleva a press\u00e3o. O captopril bloqueia a forma\u00e7\u00e3o dessa subst\u00e2ncia. Ao impedir a a\u00e7\u00e3o de um vasoconstritor potente, ele faz a press\u00e3o cair quando est\u00e1 elevada. \u00c9 um medicamento que trata a hipertens\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 usado para preven\u00e7\u00e3o em pessoas sem diagn\u00f3stico.<br \/>\ng1 &#8211; Quais foram as principais descobertas do laborat\u00f3rio ao longo desses 40 anos?<br \/>\nRobson Santos &#8211; N\u00f3s estudamos o sistema renina-angiotensina, que funciona como uma esp\u00e9cie de \u201ctermostato\u201d da press\u00e3o arterial. Durante muito tempo, a medicina enxergava esse sistema quase s\u00f3 pelo lado que faz a press\u00e3o subir. O nosso laborat\u00f3rio ajudou a mostrar que ele tamb\u00e9m tem um lado protetor. Identificamos subst\u00e2ncias produzidas pelo pr\u00f3prio organismo \u2014como a angiotensina (1-7), a alamandina e, mais recentemente, a alamandina (1-5)\u2014 que atuam no sentido oposto: ajudam a relaxar os vasos, reduzem inflama\u00e7\u00e3o e protegem o cora\u00e7\u00e3o. Ao revelar esse equil\u00edbrio entre for\u00e7as que aumentam e for\u00e7as que protegem, contribu\u00edmos para mudar o entendimento da hipertens\u00e3o e abrir espa\u00e7o para tratamentos que n\u00e3o se baseiam apenas em \u201cfrear\u201d o sistema, mas tamb\u00e9m em estimular mecanismos naturais de prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\ng1 &#8211; Quando o senhor come\u00e7ou a estudar hipertens\u00e3o, o que a cardiologia ainda n\u00e3o entendia?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Durante muito tempo, esse sistema foi visto de forma muito simplificada. A ideia dominante era que ele servia basicamente para contrair os vasos sangu\u00edneos e elevar a press\u00e3o. Com o avan\u00e7o das pesquisas, ficou claro que ele \u00e9 bem mais complexo e inclui tamb\u00e9m componentes com efeitos protetores para o cora\u00e7\u00e3o e os vasos. Essa mudan\u00e7a de entendimento transformou a forma como a cardiologia enxerga a hipertens\u00e3o.<br \/>\ng1 &#8211;  H\u00e1 pesquisas sobre vacinas para controlar a press\u00e3o arterial. O senhor v\u00ea esse caminho com cautela?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Vejo com bastante cautela. N\u00e3o sou contra a pesquisa, mas a hipertens\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a cr\u00f4nica que exige capacidade de ajuste fino do tratamento. Quando um paciente usa um medicamento, o m\u00e9dico pode suspender ou ajustar a dose diante de situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como desidrata\u00e7\u00e3o ou ondas de calor. No caso de uma vacina, o efeito n\u00e3o \u00e9 facilmente revers\u00edvel. Uma vez que o organismo passa a produzir anticorpos, n\u00e3o h\u00e1 como \u201cdesligar\u201d essa a\u00e7\u00e3o rapidamente. Isso traz riscos que precisam ser muito bem avaliados.<br \/>\ng1 &#8211;  O tratamento da hipertens\u00e3o hoje \u00e9 suficiente?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Para a maioria dos casos, sim. As ferramentas atuais permitem controlar mais de 80% dos quadros de hipertens\u00e3o. O problema maior est\u00e1 na hipertens\u00e3o resistente e, principalmente, na ades\u00e3o ao tratamento e no diagn\u00f3stico. Ainda h\u00e1 muita gente hipertensa que n\u00e3o sabe que \u00e9, e muita gente que abandona o rem\u00e9dio quando se sente bem.<br \/>\ng1 &#8211;  Por que isso \u00e9 t\u00e3o perigoso?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Porque a hipertens\u00e3o lesa silenciosamente os \u00f3rg\u00e3os. Ela leva \u00e0 hipertrofia do cora\u00e7\u00e3o, favorece infartos, acidentes vasculares cerebrais, insufici\u00eancia renal e est\u00e1 por tr\u00e1s de muitos casos que acabam em hemodi\u00e1lise. Tratar a hipertens\u00e3o como algo menor \u00e9 um erro grave, com consequ\u00eancias enormes ao longo dos anos.<br \/>\ng1 &#8211;  As descobertas do seu laborat\u00f3rio mudaram o tratamento dos pacientes?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Mudaram principalmente o entendimento do sistema cardiovascular. Nosso trabalho ajudou a preparar o terreno para novas ferramentas terap\u00eauticas, ao mostrar que n\u00e3o basta bloquear apenas o \u201clado ruim\u201d do sistema; \u00e9 poss\u00edvel estimular vias protetoras. Esse conceito ainda enfrenta resist\u00eancia da ind\u00fastria, mas acreditamos que tende a ganhar espa\u00e7o no futuro.<br \/>\ng1 &#8211;  Depois de 40 anos, qual \u00e9 o seu maior legado?<br \/>\nRobson Santos &#8211; Do ponto de vista cient\u00edfico, foi contribuir para ampliar o conhecimento do principal sistema de controle da press\u00e3o arterial. Mas talvez o maior legado seja a forma\u00e7\u00e3o de pessoas. Ver ex-alunos hoje liderando pesquisas no Brasil e no exterior \u00e9 a maior recompensa dessa trajet\u00f3ria.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Press\u00e3o de 12&#215;8 \u00e9 reclassificada como pr\u00e9-hipertens\u00e3o em nova diretriz O brasileiro vive mais do que h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, mas n\u00e3o necessariamente com um cora\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel. 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