{"id":64583,"date":"2026-01-26T12:08:28","date_gmt":"2026-01-26T15:08:28","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=64583"},"modified":"2026-01-26T12:08:28","modified_gmt":"2026-01-26T15:08:28","slug":"como-foi-inventado-o-feijao-que-esta-no-prato-de-60-dos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=64583","title":{"rendered":"Como foi &#8216;inventado&#8217; o feij\u00e3o que est\u00e1 no prato de 60% dos brasileiros"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/hr-fgfCLs0XzkVSkZQ1u7gTVj-I=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/h\/F\/EOnmBYS3CHvi6aR23TGA\/feijao-adobestock-140398552.jpeg\"><br \/>     Como foi &#8216;inventado&#8217; o feij\u00e3o que est\u00e1 no prato de 60% dos brasileiros<br \/>\nAdobe Stock<br \/>\nO feij\u00e3o sempre esteve na base da alimenta\u00e7\u00e3o do brasileiro \u2014 antes mesmo de o territ\u00f3rio se tornar Brasil.<br \/>\nJ\u00e1 era consumido pelos nativos antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus, lembra a gastr\u00f4noma e historiadora Camila Landi.<br \/>\nOs povos origin\u00e1rios costumavam comer feij\u00e3o combinando-o com farinha de mandioca, aponta ela, que \u00e9 professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.<br \/>\nAt\u00e9 os anos 1960, eram muitas as variedades que coexistiam e dividiam as prefer\u00eancias, tanto dos produtores quanto dos consumidores.<br \/>\nNo Estado de S\u00e3o Paulo, por exemplo, eram comuns os feij\u00f5es bico-de-ouro, rosinha, jalo, chumbinho, manteiga, mulatinho e roxinho.<br \/>\nDesde os anos 1970, contudo, h\u00e1 um tipo que \u00e9 preponderante no prato do brasileiro: o feij\u00e3o-carioca, ou o feij\u00e3o-carioquinha. Trata-se de um gr\u00e3o marrom claro, rajado com manchas mais escuras.<br \/>\nHoje ele \u00e9 consumidor por 60% dos brasileiros, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa).<br \/>\nO sucesso do feij\u00e3o carioquinha \u00e9 produto do trabalho da ci\u00eancia brasileira, desenvolvido a partir de uma muta\u00e7\u00e3o que surgiu espontaneamente em uma planta\u00e7\u00e3o no interior de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nMenos feij\u00e3o, mais doen\u00e7as<br \/>\nMenos feij\u00e3o, mais doen\u00e7as: queda no consumo do alimento coincide com avan\u00e7o de doen\u00e7as cr\u00f4nicas no pa\u00eds<br \/>\nDe uma bem-vinda muta\u00e7\u00e3o ao trabalho da ci\u00eancia<br \/>\nUm dos protagonistas dessa hist\u00f3ria \u00e9 o engenheiro agr\u00f4nomo Luiz D&#8217;Artagnan de Almeida, considerado o &#8220;pai do carioquinha&#8221;, que morreu no \u00faltimo dia 2 de janeiro.<br \/>\nEm um artigo publicado na revista da Sociedade Brasileira de Recursos Gen\u00e9ticos em 2017, em coautoria com a engenheira agr\u00f4noma Elaine Bahia Wutke, pesquisadora no Instituto Agron\u00f4mico, em Campinas, ele contou como o carioca  acabou se tornando &#8220;a mais bem sucedida cultivar na hist\u00f3ria brasileira do feij\u00e3o&#8221;.<br \/>\n&#8220;Cultivar&#8221; \u00e9 o termo que designa as plantas desenvolvidas a partir de t\u00e9cnicas de melhoramento gen\u00e9tico, geralmente com o objetivo de atingir caracter\u00edsticas agron\u00f4micas superiores, como maior produtividade e maior resist\u00eancia a pragas.<br \/>\n\u00c9 diferente, por exemplo, da &#8220;variedade&#8221;, que designa um grupo com diferen\u00e7as que se desenvolveram naturalmente dentro de uma mesma esp\u00e9cie.<br \/>\nAssim, o feij\u00e3o-carioca \u00e9 uma cultivar, n\u00e3o uma variedade.<br \/>\nCrise do a\u00e7a\u00ed: o que est\u00e1 roubando o &#8216;arroz com feij\u00e3o&#8217; dos mais pobres em Bel\u00e9m?<br \/>\nO relato do agr\u00f4nomo conta que tudo come\u00e7ou em 1963, no munic\u00edpio paulista de Ibirarema, quando o engenheiro agr\u00f4nomo Waldimir Coronado Antunes percebeu uma novidade em sua lavoura de feij\u00e3o.<br \/>\nAntunes, que depois enveredaria por carreira pol\u00edtica, chegando a ser prefeito da cidade, era ent\u00e3o chefe da Casa da Agricultura local.<br \/>\nNa fazenda Bom Retiro, de sua propriedade, ele havia semeado um feijoeiro do cultivar chumbinho \u2014 que apresenta casca marrom-escura.<br \/>\n&#8220;Passado um tempo, ele e um tio constataram algumas plantas cujos gr\u00e3os possu\u00edam textura listrada, manchados de preto e marrom, nessa mesma lavoura&#8221;, escreveu Almeida.<br \/>\nSegundo o agr\u00f4nomo relata em seu artigo, Antunes era dado a uma &#8220;curiosidade profissional&#8221; pelas &#8220;coisas do campo&#8221; e ent\u00e3o decidiu, por si s\u00f3, fazer &#8220;uma experi\u00eancia pr\u00e1tica&#8221;.<br \/>\n&#8220;Percebendo que essas novas plantas eram mais robustas, cresciam com muita facilidade, eram menos suscet\u00edveis \u00e0s doen\u00e7as e mais produtivas, fez sele\u00e7\u00e3o massal, acreditando se tratar de uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica natural&#8221;, aponta.<br \/>\nO engenheiro qu\u00edmico Luiz Gustavo Lacerda, professor de engenharia de alimentos na Universidade Estadual de Ponta Grossa, ressalta que esse \u00e9 um cap\u00edtulo importante da hist\u00f3ria, o fato de que ela come\u00e7a a partir de  &#8220;uma muta\u00e7\u00e3o natural&#8221;.<br \/>\nDeixar o feij\u00e3o de molho ajuda na digest\u00e3o? Entenda como tornar o preparo mais saud\u00e1vel<br \/>\n&#8220;Muitas pessoas acreditam que surgiu por meio de modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, em laborat\u00f3rio. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade&#8221;, pontua ele \u00e0 BBC News Brasil.<br \/>\nA sele\u00e7\u00e3o massal realizada por Antunes \u00e9 um m\u00e9todo de melhoramento gen\u00e9tico mais simples, feito a partir da colheita e mistura das sementes de plantas diferentes.<br \/>\nEm sua casa, o feij\u00e3o foi preparado e a fam\u00edlia aprovou. O caldo parecia consistente e o aroma, atrativo.<br \/>\nTr\u00eas anos depois, Antunes resolveu separar um saco de 30 quilos desse feij\u00e3o para an\u00e1lise. O material foi encaminhado ao Instituto Agron\u00f4mico, em Campinas, \u00f3rg\u00e3o de pesquisa e desenvolvimento do governo estadual paulista.<br \/>\nFoi quando, como pontua o artigo, a amostra foi &#8220;oficialmente catalogada&#8221; sob a denomina\u00e7\u00e3o carioca \u2014 e o n\u00famero I-38700.<br \/>\nLuiz D&#8217;Artagnan de Almeida foi ent\u00e3o designado como &#8220;respons\u00e1vel direto pelas avalia\u00e7\u00f5es&#8221;, &#8220;pela multiplica\u00e7\u00e3o dessa cultivar&#8221; e para &#8220;seu futuro lan\u00e7amento&#8221;.<br \/>\nHavia, por\u00e9m, um receio: o preconceito dos consumidores. Naquela \u00e9poca, era estranho um feij\u00e3o que n\u00e3o tivesse colora\u00e7\u00e3o homog\u00eanea. Poderia parecer algo ruim, estragado.<br \/>\nEra preciso ressaltar os pr\u00f3s, para que os contras \u2014 de fundo meramente est\u00e9tico ou mesmo de h\u00e1bito \u2014 fossem abafados.<br \/>\nD&#8217;Artagnan de Almeida e sua equipe n\u00e3o s\u00f3 fizeram pesquisas. Dedicaram-se a divulgar os resultados. Viraram embaixadores do novo feij\u00e3o.<br \/>\nA primeira apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica da variedade ocorreu em agosto de 1968, em encontro t\u00e9cnico realizado em Serra Negra.<br \/>\n&#8220;Os pesquisadores divulgaram os animadores resultados que comprovavam a produtividade superior, a resist\u00eancia \u00e0s doen\u00e7as prevalentes na \u00e9poca e as qualidades culin\u00e1rias desse feij\u00e3o&#8221;, pontua o texto de Almeida.<br \/>\nEm estudo publicado em 1971, foi constatado que o carioquinha rendia muito mais do que as outras variedades. Em m\u00e9dia, produzia 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha ficavam na casa dos 1.280 quilos.<br \/>\nMas se as vantagens para o produto pareciam inquestion\u00e1veis, ainda havia a barreira da prefer\u00eancia do consumidor.<br \/>\nEm ata de reuni\u00e3o ocorrida na Secretaria de Agricultura do Estado de S\u00e3o Paulo em outubro daquele ano, ficou registrado que era preciso implementar um plano de multiplica\u00e7\u00e3o das novas sementes \u2014 mas havia o problema: &#8220;a premissa de sua n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\nNo artigo, o agr\u00f4nomo conta que &#8220;era bastante dif\u00edcil a introdu\u00e7\u00e3o e oferta de cultivares com sementes cujo tegumento fosse de colora\u00e7\u00e3o pintada ou rajada, como no caso do carioca&#8221;.<br \/>\nD&#8217;Artagnan de Almeida era um dos que advogavam para o fato de que era preciso tamb\u00e9m ressaltar as qualidades aliment\u00edcias do produto \u2014 e n\u00e3o s\u00f3 suas vantagens produtivas.<br \/>\nNo caso, suas refer\u00eancias vieram de casa. Afinal, se ainda quando a sele\u00e7\u00e3o da cultivar estava sendo feita, ele levou amostras para que sua mulher cozinhasse e o resultado havia sido aprovado pela fam\u00edlia, ele tamb\u00e9m podia contar com o veredito profissional materno.<br \/>\nA m\u00e3e do agr\u00f4nomo talvez tenha sido a primeira a fazer o carioquinha de forma n\u00e3o caseira. Ent\u00e3o propriet\u00e1ria de um restaurante em Monte Mor, no interior paulista, ela passou a usar o carioca em vez do feij\u00e3o-preto em sua receita de feijoada.<br \/>\nO engenheiro agr\u00f4nomo S\u00e9rgio Aguusto Morais Carbonell, pesquisador do Instituto Agron\u00f4mico, ressalta \u00e0 BBC News Brasil este ponto. Al\u00e9m de a nova variedade produzir mais e ser mais resistente a pragas, &#8220;o feij\u00e3o fazia um bom caldo e era muito saboroso&#8221;.<br \/>\nDe forma massiva, a investida popular veio por campanha de marketing do governo paulista, que chegou a distribuir para as pessoas pacotinhos de meio quilo do novo feij\u00e3o, acompanhados de encartes com receitas.<br \/>\nEm parceria com a Associa\u00e7\u00e3o dos Supermercados de S\u00e3o Paulo, o governo tamb\u00e9m montou barracas de degusta\u00e7\u00e3o do novo feij\u00e3o nos pontos de venda.<br \/>\nLan\u00e7amento<br \/>\nA cultivar foi oficialmente lan\u00e7ada em 1969, sob a responsabilidade de D&#8217;Artagnan de Almeida. Cinco sacas do feij\u00e3o foram destinadas \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o e amostras de semestres passaram a ser distribu\u00eddas a produtores, sobretudo na regi\u00e3o sudoeste do estado, que concentrava a maior produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm folheto de quatro p\u00e1ginas acompanhava as amostras. Ali, al\u00e9m das vantagens produtivas, havia tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o em apresentar as qualidades culin\u00e1rias da nova vers\u00e3o \u2014 inclusive com receitas destinadas, \u00e0quela \u00e9poca, \u00e0s donas de casa.<br \/>\nOs agr\u00f4nomos do Instituto de Campinas passaram a rodar o Estado dando palestras para agricultores e divulgando o novo feij\u00e3o. Nessa campanha, eles acabaram ganhando um cabo eleitoral de peso: o agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Norival Augusti (1940-2017).<br \/>\nAgr\u00f4nomo da Casa da Agricultura de Taquarituba, ele sempre foi um sujeito obcecado por fazer com que os produtores rurais implementassem t\u00e9cnicas modernas, sustent\u00e1veis e de vanguarda, n\u00e3o se resignando a manter o conforto do que parecia \u00f3bvio. Ele era entusiasmado, afeito \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de novidades.<br \/>\nD&#8217;Artagnan de Almeida reconhece que os esfor\u00e7os de Augusti foram fundamentais para a dissemina\u00e7\u00e3o das novas sementes. N\u00e3o \u00e0 toa, Taquarituba se autodenominaria a &#8220;capital do feij\u00e3o&#8221; nos anos 1970.<br \/>\nDe acordo com o artigo de Almeida, Augusti &#8220;colaborou destacadamente para a difus\u00e3o dessa cultivar, distribuindo amostras de sementes e realizando as primeiras vendas de sementes para a regi\u00e3o&#8221;.<br \/>\n&#8220;Ele curiosamente relatou que, em conversas com o agricultor, incentivava aquele interessado na aquisi\u00e7\u00e3o de 20 sacos de feij\u00e3o bico-de-ouro que acabasse adquirindo pelo menos um do carioca&#8221;, conta.<br \/>\nEm livro sobre o tema publicado em 1992, Cultura do Feij\u00e3o em Taquarituba, Augusti admite que havia uma desconfian\u00e7a inicial dos agricultores porque o feij\u00e3o era &#8220;manchadinho&#8221;. Mas isso foi superado safra ap\u00f3s safra \u2014 tanto pela maior produtividade e maior resist\u00eancia a pragas como pela aceita\u00e7\u00e3o popular ao produto em si.<br \/>\nNo blog Fios da Mem\u00f3ria, que Augusti manteve at\u00e9 seus \u00faltimos dias de vida, ele afirma que foi em Taquarituba ocorreram &#8220;as primeiras vendas comerciais&#8221; da nova variedade. &#8220;[Em 1972\/1973] foi tamb\u00e9m iniciado o plantio do feij\u00e3o-carioquinha e o munic\u00edpio foi o primeiro a plantar comercialmente a variedade que depois foi adotada no pa\u00eds [\u2026]&#8221;, crava.<br \/>\nO agr\u00f4nomo de Taquarituba tamb\u00e9m relata que fez experi\u00eancias pr\u00e1ticas, em cultivos de campo, comprovando que o feij\u00e3o-carioquinha era mais resistente \u00e0s pragas do que outras variedades.<br \/>\nComo ressalta o professor Lacerda, eram plantas que &#8220;produziam mais e eram mais resistentes do que as demais&#8221;.<br \/>\n&#8220;O sucesso foi r\u00e1pido. O feij\u00e3o carioca se destacou por produzir mais do que as variedades tradicionais, al\u00e9m de apresentar maior resist\u00eancia a doen\u00e7as comuns da \u00e9poca&#8221;, diz Lacerda. &#8220;Tamb\u00e9m conquistou os consumidores por formar um caldo mais claro e encorpado e por cozinhar mais r\u00e1pido, o que facilitava o preparo no dia a dia.&#8221;<br \/>\n&#8220;Outro ponto importante foi sua capacidade de se adaptar bem a diferentes solos e climas em v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil&#8221;, acrescenta o engenheiro. &#8220;Esse desenvolvimento teve grande impacto na alimenta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Antes da d\u00e9cada de 1970, o feij\u00e3o preto era o mais consumido em muitas regi\u00f5es. Com o aumento da produ\u00e7\u00e3o do feij\u00e3o carioca, o pre\u00e7o caiu e ele passou a fazer parte da mesa da maioria dos brasileiros.&#8221;<br \/>\nA cultivar acabou se espalhando por outras regi\u00f5es do Brasil nos anos 1980, com boa aceita\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;A descoberta de uma muta\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o-chumbinho em uma lavoura [\u2026] foi origem de um novo tipo de feij\u00e3o [\u2026]. O tipo carioca apresentava potencial altamente produtivo, resist\u00eancia \u00e0s doen\u00e7as que acometiam a cultura, sabor agrad\u00e1vel e r\u00e1pido cozimento&#8221;, pontua a publica\u00e7\u00e3o Arroz e Feij\u00e3o: Tradi\u00e7\u00e3o e Seguran\u00e7a Alimentar, da Embrapa.<br \/>\nEst\u00e1 no prato da maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 hegem\u00f4nico considerando os paladares regionais, vale ressaltar.<br \/>\n&#8220;O feij\u00e3o-comum possui v\u00e1rios tipos comerciais, e os preferidos, dependendo da regi\u00e3o, s\u00e3o o preto, o mulatinho, o carioca, o roxo-rosinha e o jalinho. O consumo do feij\u00e3o-preto prevalece nos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, sul e leste do Paran\u00e1, sudeste de Minas Gerais e sul do Esp\u00edrito Santo, j\u00e1 o mulatinho \u00e9 bastante consumido no Nordeste e o carioca em todo o Brasil, representando cerca de 60% da produ\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds&#8221;, esclarece a publica\u00e7\u00e3o da Embrapa.<br \/>\n&#8220;O tipo roxo-rosinha \u00e9 o preferido em Minas Gerais e Goi\u00e1s. A pluralidade de tipos d\u00e1 ao povo brasileiro, tamb\u00e9m diverso, mais uma experi\u00eancia gratificante&#8221;, conclui.<br \/>\n&#8220;Por mais que seja produzido em outras regi\u00f5es, o feij\u00e3o carioquinha \u00e9 mais consumido em S\u00e3o Paulo devido \u00e0 pr\u00f3pria divulga\u00e7\u00e3o na \u00e9poca  aos agricultores paulistas da regi\u00e3o e tamb\u00e9m, por resist\u00eancias culturais diversas&#8221;, analisa Landi.<br \/>\nCarbonell lembra que houve um intenso empenho de D&#8217;Artagnan de Almeida e sua equipe em divulgar a novidade para os paulistas &#8212; e isto impactou na ado\u00e7\u00e3o maci\u00e7a.<br \/>\n&#8220;O consumo do feij\u00e3o carioca foi maior em S\u00e3o Paulo porque ele surgiu no pr\u00f3prio Estado, onde a produ\u00e7\u00e3o se expandiu rapidamente, tornando o gr\u00e3o mais dispon\u00edvel e mais barato para a popula\u00e7\u00e3o local&#8221;, analisa Lacerda.<br \/>\n&#8220;Al\u00e9m disso, S\u00e3o Paulo j\u00e1 contava com forte estrutura agr\u00edcola, mercados consumidores urbanos e apoio da pesquisa, o que facilitou sua difus\u00e3o.&#8221;<br \/>\n&#8220;Em outras regi\u00f5es do pa\u00eds, o feij\u00e3o carioca precisou competir com h\u00e1bitos alimentares j\u00e1 consolidados e variedades tradicionais, como o feij\u00e3o comum  no Sul e Sudeste e o feij\u00e3o-de-corda no Nordeste. Assim, a ado\u00e7\u00e3o fora de S\u00e3o Paulo foi mais lenta, n\u00e3o por falta de qualidade, mas pela for\u00e7a da cultura alimentar regional, embora com o tempo o feij\u00e3o carioca tenha se espalhado e se tornado o mais consumido no Brasil&#8221;, comenta Lacerda.<br \/>\nRevolu\u00e7\u00e3o carioca<br \/>\n&#8220;Os resultados obtidos da pesquisa com melhoramento gen\u00e9tico de feij\u00e3o, a partir desse ponto, promoveram uma revolu\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio de feij\u00e3o no Brasil, marcando uma mudan\u00e7a na prefer\u00eancia dos consumidores para o tipo carioca&#8221;, salienta o texto da Embrapa.<br \/>\nEm artigo publicado pelo Instituto Agron\u00f4mico no ano 2000, Almeida colocou o lan\u00e7amento do carioquinha como &#8220;um divisor de \u00e1guas na evolu\u00e7\u00e3o dessa lavoura&#8221;.<br \/>\n&#8220;Esse fato promoveu uma revers\u00e3o da tend\u00eancia declinante da produtividade da terra, ao mesmo tempo em que formou o alicerce da moderniza\u00e7\u00e3o dessa atividade&#8221;, escreveu o agr\u00f4nomo.<br \/>\n&#8220;Com isso, contrariando a perspectiva de que teria havido prioridade absoluta para produtos de exporta\u00e7\u00e3o, a pesquisa publica paulista sustentou o desenvolvimento de uma cadeia de produ\u00e7\u00e3o tipicamente de mercado interno.&#8221;<br \/>\nO Instituto Agron\u00f4mico divulgou nota de pesar pela morte do agr\u00f4nomo D&#8217;Artagnan de Almeida, ressaltando que sua pesquisa &#8220;revolucionou a mesa dos brasileiros&#8221;.<br \/>\n&#8220;Por sua contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o pesquisador ficou carinhosamente conhecido como o &#8216;pai do carioquinha&#8217; e recebeu diversas homenagens&#8221;, pontua o texto.<br \/>\nO engenheiro agr\u00f4nomo Carbonell ressalta ainda que o feij\u00e3o \u00e9 um ingrediente indispens\u00e1vel \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o do brasileiro.<br \/>\n&#8220;\u00c9 um dos produtos do agro mais importantes para a seguran\u00e7a alimentar porque tem uma excelente quantidade de prote\u00edna e fibra em seus gr\u00e3os, podendo ser consumido seco ou em subprodutos de outros alimentos como enriquecimento&#8221;, pontua.<br \/>\n&#8220;\u00c9 um alimento com grande diversidade de tipos, portanto pode oferecer a lima popula\u00e7\u00e3o crescente de vegetarianos e veganos, op\u00e7\u00f5es de sabores e odores para novas culin\u00e1rias e alimenta\u00e7\u00e3o&#8221;, acrescenta ele.<br \/>\nSegundo o artigo coassinado por Almeida, o nome do novo feij\u00e3o acabou ficando carioca por ideia de um dos empregados de Waldimir Antunes, que &#8220;percebeu a semelhan\u00e7a entre a apar\u00eancia dos gr\u00e3os e a dos porcos criados na fazenda, conhecidos por tal nome&#8221;.<br \/>\n&#8220;O curioso \u00e9 que o nome carioquinha foi atribu\u00eddo por sua similaridade com um porco caipira da regi\u00e3o que possui a pelagem rajada, da ra\u00e7a carioca&#8221;, comenta a historiadora Landi. &#8220;Portanto, foi uma associa\u00e7\u00e3o pela similaridade da pelagem, n\u00e3o tendo rela\u00e7\u00e3o com o Rio de Janeiro, como muitos pensam.&#8221;<br \/>\nAlmeida ressalta que n\u00e3o passa de lenda urbana a vers\u00e3o de que o nome feij\u00e3o-carioca seria em alus\u00e3o ao padr\u00e3o gr\u00e1fico das famosas cal\u00e7adas de Copacabana, no Rio.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como foi &#8216;inventado&#8217; o feij\u00e3o que est\u00e1 no prato de 60% dos brasileiros Adobe Stock O feij\u00e3o sempre esteve na base da alimenta\u00e7\u00e3o do brasileiro \u2014 antes mesmo de o territ\u00f3rio se tornar Brasil. J\u00e1 era consumido pelos nativos antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus, lembra a gastr\u00f4noma e historiadora Camila Landi. 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