{"id":65501,"date":"2026-02-14T18:09:51","date_gmt":"2026-02-14T21:09:51","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=65501"},"modified":"2026-02-14T18:09:51","modified_gmt":"2026-02-14T21:09:51","slug":"meus-filhos-foram-recrutados-para-um-esquema-de-trafico-humano-e-me-juntei-a-policia-para-tentar-encontra-los","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=65501","title":{"rendered":"&#8216;Meus filhos foram recrutados para um esquema de tr\u00e1fico humano e me juntei \u00e0 pol\u00edcia para tentar encontr\u00e1-los&#8217;"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/rSECIUfYWAjyeE7DUVSKakCBcPo=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/i\/0\/VgWhK2TpS8DgRhY2rFKA\/bbc-africa1.webp\"><br \/>     Foday Musa n\u00e3o v\u00ea seus filhos h\u00e1 dois anos<br \/>\nBBC<br \/>\nFoday Musa fica arrasado quando ouve a \u00faltima mensagem de voz que recebeu do seu filho.<br \/>\nS\u00e3o 76 segundos de dura\u00e7\u00e3o. O jovem parece desesperado. Ele chora e suplica pela ajuda do pai.<br \/>\n&#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil ouvi-lo. Escutar sua voz d\u00f3i&#8221;, declarou Musa \u00e0 BBC News \u00c1frica.<br \/>\nA equipe do programa investigativo BBC Africa Eye teve acesso exclusivo a uma unidade policial que ajudou Musa na busca de dois dos seus filhos, v\u00edtimas de criminosos.<br \/>\nEm fevereiro de 2024, agentes prometendo trabalho no exterior recrutaram seu filho de 22 anos e sua filha de 18, al\u00e9m de mais cinco pessoas, na remota aldeia da regi\u00e3o de Faranah, na regi\u00e3o central da Guin\u00e9, onde eles moravam.<br \/>\nO trabalho nunca se materializou e os supostos recrutadores, na verdade, eram traficantes de pessoas. O grupo foi levado para o outro lado da fronteira e mantido em cativeiro em Serra Leoa.<br \/>\n&#8220;Meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 destru\u00eddo&#8221;, lamenta Musa. &#8220;N\u00e3o consigo parar de chorar. Se voc\u00ea olhar nos meus olhos, pode ver a dor.&#8221;<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nA opera\u00e7\u00e3o de resgate<br \/>\nSeu caso foi acolhido pela ag\u00eancia policial internacional Interpol na Guin\u00e9, que pediu ajuda \u00e0 sua unidade em Serra Leoa.<br \/>\nEm agosto do ano passado, Musa viajou para Makeni, no centro de Serra Leoa, para tentar encontr\u00e1-los.<br \/>\nMilhares de pessoas em toda a \u00c1frica ocidental s\u00e3o ludibriadas pelo esquema de tr\u00e1fico de pessoas conhecido como QNET.<br \/>\nCriada em Hong Kong, a QNET \u00e9 uma empresa leg\u00edtima, dedicada ao bem-estar e estilo de vida. Ela permite que as pessoas se inscrevam para comprar seus produtos e vend\u00ea-los online.<br \/>\nSeu modelo de neg\u00f3cio enfrentou algumas cr\u00edticas. Mas, na \u00c1frica ocidental, existem gangues criminosas que usam seu nome como cobertura para ocultar suas atividades ilegais.<br \/>\nOs traficantes procuram pessoas com a promessa de oportunidades de trabalho em lugares como os Estados Unidos, Canad\u00e1, Dubai (Emirados \u00c1rabes Unidos) e Europa. Eles pedem o pagamento de grandes somas de dinheiro para cobrir gastos administrativos, antes de come\u00e7ar o trabalho.<br \/>\nAp\u00f3s o pagamento, as pessoas s\u00e3o frequentemente levadas para um pa\u00eds vizinho, sob o pretexto de que s\u00f3 poder\u00e3o viajar depois de recrutarem outras pessoas para o programa.<br \/>\nMas, mesmo quando elas trazem familiares e amigos, o trabalho nunca se torna realidade.<br \/>\nA pr\u00f3pria QNET criou uma campanha em toda a regi\u00e3o, com outdoors e an\u00fancios nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Todos eles trazem o slogan &#8220;QNET contra os golpes&#8221; e a empresa rejeitou as acusa\u00e7\u00f5es de que estaria vinculada ao tr\u00e1fico de pessoas.<br \/>\nCartazes como este, com a inscri\u00e7\u00e3o &#8216;QNET contra os golpes&#8217;, tentam alertar a popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica ocidental sobre os criminosos que se fazem passar por recrutadores da empresa<br \/>\nBBC<br \/>\nMusa e sua fam\u00edlia entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil). O valor incluiu as quotas de inscri\u00e7\u00e3o e o dinheiro extra pago para tentar fazer com que seus filhos voltassem para casa.<br \/>\nViajar pessoalmente para Serra Leoa era sua \u00faltima esperan\u00e7a.<br \/>\nMahmou Conteh \u00e9 chefe de investiga\u00e7\u00f5es da unidade contra o tr\u00e1fico de pessoas da Interpol, dentro da pol\u00edcia de Serra Leoa. Ele afirmou que o caso \u00e9 priorit\u00e1rio para sua unidade.<br \/>\n&#8220;\u00c9 muito f\u00e1cil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais&#8221;, declarou ele \u00e0 BBC.<br \/>\nConteh recebeu um aviso de que um grande n\u00famero de jovens estava retido em um local em Makeni. Musa participou da batida do im\u00f3vel junto com a pol\u00edcia, na esperan\u00e7a de encontrar seus filhos.<br \/>\nBolsas e roupas estavam espalhadas pelo ch\u00e3o. Calcula-se que havia 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto.<br \/>\nA equipe da Interpol reuniu todos os que se encontravam no im\u00f3vel e descobriu que alguns deles tinham apenas 14 anos.<br \/>\n&#8220;A maioria \u00e9 da Guin\u00e9&#8221;, afirma Conteh. &#8220;H\u00e1 s\u00f3 um serra-leon\u00eas entre eles. Todos os demais s\u00e3o guineanos.&#8221;<br \/>\nA maioria dos jovens encontrados na casa de Makeni durante a batida policial era da Guin\u00e9<br \/>\nBBC<br \/>\nOs filhos de Musa n\u00e3o se encontravam no local. Mas um jovem declarou que eles haviam estado ali na semana anterior, o que seria o primeiro poss\u00edvel avistamento dos seus filhos em um ano.<br \/>\nO grupo foi levado para a delegacia para triagem. Posteriormente, 19 deles foram levados de volta para a Guin\u00e9.<br \/>\nA pol\u00edcia informou ter realizado mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de v\u00edtimas de tr\u00e1fico de pessoas.<br \/>\n&#8216;Voc\u00ea precisa vender seu corpo&#8217;<br \/>\nOs traficantes frequentemente transportam suas v\u00edtimas atrav\u00e9s das fronteiras. Mas outras s\u00e3o v\u00edtimas do tr\u00e1fico dentro dos seus pr\u00f3prios pa\u00edses.<br \/>\nFoi o caso de Aminata, uma jovem de 23 anos de Serra Leoa. Seu nome \u00e9 fict\u00edcio, para proteger sua identidade.<br \/>\nSentada em uma cadeira de pl\u00e1stico, tendo ao fundo as colinas de Wusum, em Makeni, ela conta \u00e0 BBC como uma amiga apresentou a ela certas pessoas que afirmavam ser representantes da QNET, em meados de 2024.<br \/>\nAminata foi aprovada em uma entrevista e disseram a ela que haveria um curso, antes do voo para os Estados Unidos, para que ela continuasse estudando e trabalhando.<br \/>\nO \u00fanico inconveniente era que ela precisaria pagar US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) para participar do programa. Mas, certa de que o processo era leg\u00edtimo, sua fam\u00edlia deu a ela o dinheiro que estava guardado para sua faculdade.<br \/>\n&#8220;Quando eles recrutam, eles d\u00e3o comida e cuidam de voc\u00ea. Mas, com o passar do tempo, eles deixam de fazer isso&#8221;, contou ela \u00e0 BBC.<br \/>\nAminata explica que foi ali que precisou fazer um &#8220;esfor\u00e7o adicional&#8221; para sobreviver.<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter&#8221;, segundo ela.<br \/>\nAminata conta que os recrutadores informaram que, se ela quisesse viajar, precisaria recrutar outras pessoas para o programa.<br \/>\nPara isso, os traficantes deram a ela um n\u00famero de telefone internacional, para parecer que ela j\u00e1 estava no exterior, quando entrasse em contato com eles.<br \/>\n&#8220;Eles levam voc\u00ea para o aeroporto com boas roupas, como se estivesse a ponto de viajar. D\u00e3o um passaporte e documentos de viagem falsos&#8221;, explicou ela. &#8220;Depois, tiram uma foto para que voc\u00ea envie aos seus amigos e familiares.&#8221;<br \/>\nAminata conseguiu convencer seis familiares e amigos a se inscrever no programa, ainda com a esperan\u00e7a de que o trabalho nos Estados Unidos se tornasse realidade, o que nunca aconteceu.<br \/>\n&#8220;Eu me senti mal porque eles perderam seu dinheiro e sofreram por minha culpa&#8221;, lamenta ela.<br \/>\nAminata ficou retida por cerca de um ano em algum lugar na periferia da capital de Serra Leoa, Freetown, at\u00e9 se dar conta de que o trabalho nunca viria.<br \/>\nQuando ela n\u00e3o conseguiu recrutar ningu\u00e9m, os traficantes aparentemente conclu\u00edram que ela n\u00e3o era mais \u00fatil. E, quando ela decidiu fugir, eles n\u00e3o a detiveram.<br \/>\nVoltar para casa depois de tudo o que ela havia enfrentado foi dif\u00edcil, principalmente porque todos pensavam que ela estivesse morando no exterior.<br \/>\n&#8220;Tive medo de voltar para casa&#8221;, relembra ela.<br \/>\n&#8220;Eu havia dito aos meus amigos que havia viajado para o exterior. Havia dito o mesmo para minha fam\u00edlia. Pensava em todo o dinheiro que eles haviam me dado para chegar at\u00e9 ali.&#8221;<br \/>\nContexto de impunidade<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas sobre o n\u00famero de vitimas deste tipo de golpe. Mas a imprensa da \u00c1frica ocidental publica constantemente not\u00edcias sobre gangues que levam pessoas desesperadas a acreditar que esses programas de emprego no exterior s\u00e3o verdadeiros.<br \/>\nA BBC acompanhou a pol\u00edcia em uma dezena de batidas realizadas durante tr\u00eas dias em Makeni e conheceu centenas de jovens que haviam sido v\u00edtimas de tr\u00e1fico em toda a regi\u00e3o. Eles s\u00e3o provenientes de pa\u00edses como Burkina Faso, Guin\u00e9, M\u00e1li e Costa do Marfim.<br \/>\nAo todo, a pol\u00edcia afirmou ter detido 12 supostos traficantes. Mas a realidade \u00e9 que apenas alguns poucos casos resultaram em condena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs autoridades da regi\u00e3o contam com poucos recursos e costumam enfrentar \u00e1rduas batalhas para combater este tipo de golpe.<br \/>\nEstat\u00edsticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tr\u00e1fico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.<br \/>\nMusa n\u00e3o encontrou seus filhos e n\u00e3o teve outro rem\u00e9dio sen\u00e3o voltar para a Guin\u00e9 sem eles, no final de setembro do ano passado.<br \/>\nConteh declarou \u00e0 BBC que os traficantes liberaram os filhos de Musa pouco tempo depois.<br \/>\nA BBC confirmou que a filha de Musa voltou para outro local da Guin\u00e9 e n\u00e3o quis dar entrevista. Ela n\u00e3o entrou em contato com o pai, o que evidencia a vergonha sentida por muitas das v\u00edtimas deste golpe.<br \/>\nO paradeiro do filho de Musa \u00e9 desconhecido. E a situa\u00e7\u00e3o continua sendo desesperadora para o pai.<br \/>\n&#8220;Depois de tudo o que enfrentei, s\u00f3 quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos&#8221;, lamenta Musa. &#8220;Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo.&#8221;<br \/>\nCom colabora\u00e7\u00e3o de Paul Myles, Chris Walter, Olivia Acland e Tamasin Ford.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foday Musa n\u00e3o v\u00ea seus filhos h\u00e1 dois anos BBC Foday Musa fica arrasado quando ouve a \u00faltima mensagem de voz que recebeu do seu filho. S\u00e3o 76 segundos de dura\u00e7\u00e3o. O jovem parece desesperado. Ele chora e suplica pela ajuda do pai. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil ouvi-lo. 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