{"id":65974,"date":"2026-02-25T06:09:18","date_gmt":"2026-02-25T09:09:18","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=65974"},"modified":"2026-02-25T06:09:18","modified_gmt":"2026-02-25T09:09:18","slug":"tive-que-optar-entre-o-penis-e-a-vida-cancer-genital-tem-alta-incidencia-entre-homens-brasileiros-e-pode-ser-evitado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=65974","title":{"rendered":"&#8216;Tive que optar entre o p\u00eanis e a vida&#8217;: c\u00e2ncer genital tem alta incid\u00eancia entre homens brasileiros e pode ser evitado"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/rPl464TI6Bevk51KIIqtthNoFI0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/H\/n\/FJ97qZTCabwxXZAcPtaw\/adobestock-916844264.jpeg\"><br \/>     c\u00e2ncer de p\u00eanis<br \/>\nFreepik<br \/>\nUma pequena mancha na glande foi o primeiro sinal. N\u00e3o do\u00eda, n\u00e3o incomodava. Jorge*, de 63 anos, comerciante, conta que viu a altera\u00e7\u00e3o surgir em 2022 e decidiu esperar. Ao longo dos meses, a mancha evoluiu lentamente para uma ferida. Ainda sem dor, mas j\u00e1 com desconforto.<br \/>\nComo muitos homens, ele adiou a consulta. Calcula que levou cerca de um ano entre perceber a altera\u00e7\u00e3o e procurar um m\u00e9dico.<br \/>\nQuando finalmente buscou atendimento, o diagn\u00f3stico foi praticamente cl\u00ednico. A les\u00e3o era vis\u00edvel. Uma bi\u00f3psia confirmou: c\u00e2ncer de p\u00eanis.<br \/>\n\u201cFui deixando a consulta para depois, priorizando outras coisas\u201d, diz. Hoje, olhando para tr\u00e1s, afirma que a melhor defesa teria sido o diagn\u00f3stico precoce. Jorge passou por uma amputa\u00e7\u00e3o parcial \u2014perdeu metade do p\u00eanis\u2014 ap\u00f3s a doen\u00e7a avan\u00e7ar. Ele acredita que, se tivesse procurado ajuda ao notar os primeiros sinais, as consequ\u00eancias poderiam ter sido menores.<br \/>\nAl\u00e9m de tomar os linfonos inguinais &#8211;da regi\u00e3o da virilha&#8211;, o tumor tamb\u00e9m se infiltrou na pelve.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nUm c\u00e2ncer preven\u00edvel, mas negligenciado<br \/>\n&#x2139;&#xfe0f; O c\u00e2ncer de p\u00eanis \u00e9 considerado raro no mundo, com incid\u00eancia inferior a 1 caso por 100 mil homens em pa\u00edses como Estados Unidos e na maior parte da Europa. No Brasil, por\u00e9m, a taxa chega a cerca de 6,8 casos por 100 mil habitantes \u2014uma das mais altas registradas globalmente.<br \/>\nPara o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncocl\u00ednicas e da Americas Health Foundation, o cen\u00e1rio brasileiro representa um \u201cdesconforto epidemiol\u00f3gico\u201d, porque exp\u00f5e fragilidades estruturais do sistema de sa\u00fade e falhas na preven\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a amplamente evit\u00e1vel.<br \/>\nDados divulgados pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) indicam que, nos \u00faltimos cinco anos, quase 2.900 homens passaram por amputa\u00e7\u00e3o parcial ou total do p\u00eanis no pa\u00eds.<br \/>\nNa \u00faltima d\u00e9cada, foram mais de 6.500 procedimentos desse tipo. Em m\u00e9dia, cerca de 600 homens por ano perdem parte do \u00f3rg\u00e3o.<br \/>\nVacina e higiene evitam desenvolvimento da doen\u00e7a<br \/>\nPara o urologista Ricardo Vita, doutor em Urologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), cerca de metade dos casos de c\u00e2ncer de p\u00eanis est\u00e1 associada \u00e0 infec\u00e7\u00e3o pelo papilomav\u00edrus humano (HPV), sobretudo pelos subtipos 16 e 18, considerados de alto risco oncog\u00eanico.<br \/>\nEle ressalta, no entanto, que o v\u00edrus n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator envolvido.<br \/>\nA fimose \u2014condi\u00e7\u00e3o em que a pele que recobre a glande impede sua exposi\u00e7\u00e3o adequada\u2014 dificulta a higiene \u00edntima e favorece o ac\u00famulo de secre\u00e7\u00f5es, como o esmegma, criando um ambiente de inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. Esse processo irritativo persistente, ao longo dos anos, pode desencadear altera\u00e7\u00f5es celulares e aumentar o risco de transforma\u00e7\u00e3o maligna.<br \/>\nDoutora em Ci\u00eancias Cir\u00fargicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e diretora de comunica\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira de Urologia, Karin Anzolch afirma que, al\u00e9m das causas citadas acima, fatores socioecon\u00f4micos e culturais pesam.<br \/>\nSegundo ela, homens com menor acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e aos servi\u00e7os de sa\u00fade tendem a chegar aos centros especializados com a doen\u00e7a em est\u00e1gios mais avan\u00e7ados.<br \/>\nSinais que n\u00e3o devem ser ignorados<br \/>\nDiferentemente do c\u00e2ncer do colo do \u00fatero \u2014que pode evoluir de forma silencios\u2014 o c\u00e2ncer de p\u00eanis costuma apresentar les\u00f5es vis\u00edveis. Stefani explica que \u00e9 uma doen\u00e7a de evolu\u00e7\u00e3o lenta. Quando uma ferida n\u00e3o cicatriza, n\u00e3o melhora com tratamento inicial ou persiste por semanas, \u00e9 sinal de alerta.<br \/>\nSegundo os especialistas, os sintomas iniciais mais comuns incluem:<br \/>\nferida ou \u00falcera que n\u00e3o cicatriza;<br \/>\nn\u00f3dulo ou espessamento da pele;<br \/>\nsecre\u00e7\u00e3o com odor forte;<br \/>\nsangramento local.<br \/>\nEm geral, o tumor inicial \u00e9 indolor, o que contribui para o atraso na busca por atendimento.<br \/>\nPresidente da Sociedade Brasileira de Urologia e m\u00e9dico respons\u00e1vel pelo tratamento de Jorge, Roni de Carvalho Fernandes explica que qualquer ferida na glande ou no prep\u00facio que n\u00e3o cicatrize em uma ou duas semanas deve ser avaliada por um urologista. A confirma\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica \u00e9 feita por meio de bi\u00f3psia.<br \/>\nEle refor\u00e7a que o tumor tem comportamento loco-regional, podendo infiltrar tecidos vizinhos e se espalhar para linfonodos da regi\u00e3o inguinal. Quando os g\u00e2nglios est\u00e3o comprometidos, o progn\u00f3stico piora significativamente.<br \/>\nDe acordo com Vita, a sobrevida em cinco anos varia de 96% nos est\u00e1gios iniciais para 20% nos est\u00e1gios mais avan\u00e7ados, quando h\u00e1 met\u00e1stases \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Freepik<br \/>\nA batalha de Jorge<br \/>\nAp\u00f3s o diagn\u00f3stico, Jorge iniciou quimioterapia neoadjuvante \u2014tratamento realizado antes da cirurgia\u2013 para reduzir o tamanho da les\u00e3o e tentar preservar o m\u00e1ximo poss\u00edvel do \u00f3rg\u00e3o.<br \/>\nEle conta que o tratamento foi desgastante. A cirurgia, realizada em outubro de 2025, tamb\u00e9m envolveu a retirada dos linfonodos inguinais. A recupera\u00e7\u00e3o foi dolorosa.<br \/>\nNo caso dele, foi poss\u00edvel realizar uma amputa\u00e7\u00e3o parcial. Segundo Fernandes, a quimioterapia reduziu o tumor e permitiu uma abordagem mais conservadora, com retirada apenas da glande e do prep\u00facio, preservando os corpos cavernosos \u2014estruturas respons\u00e1veis pela ere\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJorge afirma que consegue urinar normalmente. Ainda assim, relata impacto psicol\u00f3gico importante. Diz que teve que escolher entre manter o p\u00eanis ou manter a vida.<br \/>\nEm um momento de desabafo, confessou ao m\u00e9dico que pensou em n\u00e3o seguir adiante. Segundo ele, foi confrontado com imagens de casos avan\u00e7ados e percebeu que o atraso poderia ter levado a uma situa\u00e7\u00e3o muito mais mutilante.<br \/>\nEle reconhece que o medo de encarar o problema contribuiu para a demora.<br \/>\n\u201cA gente tem medo de encarar a verdade\u201d, diz.<br \/>\nTratamento e progn\u00f3stico<br \/>\nA incid\u00eancia da doen\u00e7a \u00e9 maior nas regi\u00f5es Norte e Nordeste, onde o acesso a saneamento, informa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os de sa\u00fade \u00e9 mais limitado.<br \/>\nFernandes afirma que o c\u00e2ncer de p\u00eanis \u00e9 mais frequente em popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. Ele ressalta que a circuncis\u00e3o na inf\u00e2ncia reduz significativamente o risco, j\u00e1 que elimina o ac\u00famulo de esmegma e a irrita\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica da pele. Nos homens n\u00e3o circuncidados, acrescenta, a higiene adequada \u2014com a retra\u00e7\u00e3o do prep\u00facio para limpeza da glande\u2014 \u00e9 fundamental para prevenir processos inflamat\u00f3rios persistentes.<br \/>\nAl\u00e9m da cirurgia, casos avan\u00e7ados podem exigir quimioterapia, radioterapia e, em contextos espec\u00edficos, imunoterapia. O uso de novas drogas ainda est\u00e1 em investiga\u00e7\u00e3o, com estudos cl\u00ednicos em andamento no Brasil e em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Freepik<br \/>\nImpacto al\u00e9m da cirurgia<br \/>\nUm artigo de revis\u00e3o publicado em 2025 no peri\u00f3dico cient\u00edfico IJIR: Your Sexual Medicine Journal destaca que o c\u00e2ncer de p\u00eanis e seus tratamentos podem provocar efeitos profundos na qualidade de vida, incluindo disfun\u00e7\u00e3o sexual, altera\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias, ansiedade, depress\u00e3o e isolamento social. Os autores defendem modelos de cuidado multidisciplinar e suporte psicossocial estruturado para esses pacientes.<br \/>\nJorge afirma que ainda enfrenta desafios emocionais, mas diz que segue fazendo exames de acompanhamento e acredita que, at\u00e9 o momento, o quadro est\u00e1 sob controle.<br \/>\n*Nome fict\u00edcio a pedido do entrevistado.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>c\u00e2ncer de p\u00eanis Freepik Uma pequena mancha na glande foi o primeiro sinal. N\u00e3o do\u00eda, n\u00e3o incomodava. Jorge*, de 63 anos, comerciante, conta que viu a altera\u00e7\u00e3o surgir em 2022 e decidiu esperar. Ao longo dos meses, a mancha evoluiu lentamente para uma ferida. Ainda sem dor, mas j\u00e1 com desconforto. 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