{"id":66149,"date":"2026-03-01T06:01:13","date_gmt":"2026-03-01T09:01:13","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=66149"},"modified":"2026-03-01T06:01:13","modified_gmt":"2026-03-01T09:01:13","slug":"polilaminina-ainda-nao-e-remedio-especialistas-alertam-contra-hype-nas-redes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=66149","title":{"rendered":"Polilaminina ainda n\u00e3o \u00e9 rem\u00e9dio: especialistas alertam contra &#8216;hype&#8217; nas redes"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/G5A7tujJpPKZF-_OR2NQOZFsmwQ=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/O\/B\/YivIMZTRqrdvCQ9RCfNw\/captura-de-tela-2026-02-22-204341.png\"><br \/>     O que a polilaminina pode fazer e o que ainda n\u00e3o se sabe sobre a subst\u00e2ncia<br \/>\nO nome de um composto biotecnol\u00f3gico se popularizou e dominou discuss\u00f5es na \u00faltima semana: a polilaminina. Essa prote\u00edna, produzida em um laborat\u00f3rio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi associada \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es nervosas na medula espinhal, o que pode levar \u00e0 retomada da fun\u00e7\u00e3o motora em pacientes parapl\u00e9gicos ou tetrapl\u00e9gicos.<br \/>\nA descoberta, considerada promissora, alimentou esperan\u00e7as. Nas redes sociais, postagens se referem \u00e0 polilaminina como uma cura de les\u00f5es na medula. Tamb\u00e9m foi chamada de &#8220;mol\u00e9cula de Deus&#8221;, por seu formato de cruz. Outros perfis se declaram f\u00e3s da bi\u00f3loga Tatiana Sampaio, que lidera a pesquisa com a prote\u00edna. Essa como\u00e7\u00e3o fomentou a\u00e7\u00f5es judiciais movidas por pacientes para ter acesso \u00e0s doses desse medicamento em potencial.<br \/>\nNo entanto, como s\u00f3 foram feitos testes preliminares, n\u00e3o h\u00e1 estudos que comprovem a efic\u00e1cia da polilaminina, nem \u00e9 poss\u00edvel atribuir a ela a recupera\u00e7\u00e3o de pacientes. Por isso, especialistas recomendam cautela em rela\u00e7\u00e3o aos resultados divulgados, j\u00e1 que a polilaminina ainda n\u00e3o \u00e9 um rem\u00e9dio ou tratamento.<br \/>\nEm uma nota conjunta, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) e a Academia Brasileira de Ci\u00eancia afirmam que &#8220;em \u00e1reas como a neurodegenera\u00e7\u00e3o, o percurso entre descoberta cient\u00edfica, valida\u00e7\u00e3o pr\u00e9-cl\u00ednica, ensaios cl\u00ednicos e eventual incorpora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u00e9 necessariamente longo, complexo e depende de evid\u00eancias cumulativas&#8221;.<br \/>\nGrupo de pesquisadores da polilaminina em laborat\u00f3rio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)<br \/>\nCapes<br \/>\nProte\u00edna de regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\nA laminina \u00e9 uma prote\u00edna encontrada naturalmente no corpo, em maior abund\u00e2ncia na fase embrion\u00e1ria, e que ajuda a estabelecer conex\u00f5es entre os neur\u00f4nios.<br \/>\nAo longo de anos de estudos, o grupo de pesquisa liderado por Tatiana Sampaio desenvolveu a forma sint\u00e9tica do composto, extra\u00edda da placenta, e verificou que essa forma melhorada facilitou a comunica\u00e7\u00e3o entre os nervos.<br \/>\nDiante desse dado, os pesquisadores resolveram testar se a polilaminina seria capaz de levar \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o de ax\u00f4nios (parte dos neur\u00f4nios que carrega informa\u00e7\u00f5es entre as c\u00e9lulas) e servir de ponte para o tr\u00e1fego de comandos e informa\u00e7\u00f5es via impulsos el\u00e9tricos. Por isso, o passo seguinte foi avaliar a resposta de animais com les\u00f5es medulares ao medicamento experimental.<br \/>\n&#x27a1;&#xfe0f; Em um artigo de 2010, os autores descrevem que ap\u00f3s o uso da polilaminina em ratos com les\u00e3o medular, foram observados a melhora da locomo\u00e7\u00e3o e efeitos anti-inflamat\u00f3rios do composto.<br \/>\nEntre 2016 e 2021, em um estudo piloto, oito pacientes receberam a inje\u00e7\u00e3o de polilaminina at\u00e9 tr\u00eas dias depois de machucar a coluna. Dois pacientes morreram depois da aplica\u00e7\u00e3o, mas por causas que n\u00e3o estavam relacionadas ao tratamento. Os demais, recuperaram parte dos movimentos.<br \/>\nDepois, em 2025, o grupo publicou estudo com seis c\u00e3es parapl\u00e9gicos. Apesar de a les\u00e3o ser cr\u00f4nica, quando se forma uma cicatriz que dificulta a regenera\u00e7\u00e3o neuronal, houve melhora na fun\u00e7\u00e3o motora.<br \/>\n&#x27a1;&#xfe0f; Os resultados do estudo em c\u00e3es foram publicados em um peri\u00f3dico veterin\u00e1rio. J\u00e1 os resultados dos testes em humanos foram descritos em um pr\u00e9-print, ou seja, o conte\u00fado n\u00e3o passou pelo crivo de outros cientistas, que \u00e9 uma das etapas para valida\u00e7\u00e3o do estudo. Os pr\u00f3prios autores refor\u00e7am que, por isso, o material n\u00e3o deve orientar tratamentos.<br \/>\nAntes do in\u00edcio dos testes com a polilaminina, pacientes est\u00e3o acionando a Justi\u00e7a em busca do tratamento<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/TV Globo<br \/>\nFragilidades das evid\u00eancias<br \/>\nO pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), Leonardo Costa, especialista em fisioterapia, refor\u00e7a que, embora haja resultados positivos para a a\u00e7\u00e3o da polilaminina em c\u00e9lulas neuronais em animais, no corpo humano a rea\u00e7\u00e3o pode ser diferente por conta da complexidade dos sistemas do nosso organismo. Por isso, os relatos de melhora s\u00e3o controversos.<br \/>\nCosta afirma que o grupo de pacientes avaliados \u00e9 muito pequeno. &#8220;O hype \u00e9 desproporcional ao volume de evid\u00eancia.&#8221; Ele explica que o avan\u00e7o na condi\u00e7\u00e3o motora \u00e9 esperado em 30% dos casos de les\u00e3o na medula e mesmo pacientes graves podem recuperar movimentos ao longo do tempo, se o tratamento considerado como padr\u00e3o-ouro for seguido (cirurgia para reposicionar a coluna, medica\u00e7\u00e3o e fisioterapia).<br \/>\nLogo, sem um grupo de controle, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir se a melhora da les\u00e3o completa aconteceu porque o edema ou o choque espinhal (falta de sensibilidade), por exemplo, retrocedem, e a conex\u00e3o neuronal \u00e9 restabelecida, ou se foi a a\u00e7\u00e3o da polilaminina que permitiu a retomada da comunica\u00e7\u00e3o entre neur\u00f4nios na regi\u00e3o lesionada.<br \/>\nEm ensaios cl\u00ednicos, h\u00e1 pelo menos dois grupos avaliados: o experimental, que recebe o tratamento; e o controle. No caso da polilaminina, isso pode significar que parte dos volunt\u00e1rios sorteados para o primeiro grupo vai receber a inje\u00e7\u00e3o, e os integrantes do segundo v\u00e3o ser tratados segundo o protocolo atual, com cirurgia e reabilita\u00e7\u00e3o. A compara\u00e7\u00e3o entre os resultados indica se a polilaminina teve efeitos ou n\u00e3o.<br \/>\nDo laborat\u00f3rio \u00e0 inje\u00e7\u00e3o<br \/>\nA compara\u00e7\u00e3o entre o grupo estudado e o grupo controle s\u00f3 deve acontecer depois que a polilaminina for aprovada nos testes cl\u00ednicos de fase 1, que avaliam se o composto \u00e9 ou n\u00e3o seguro para o uso em humanos. Em janeiro, a Ag\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a Sanit\u00e1ria (Anvisa) autorizou os testes.<br \/>\n&#x27a1;&#xfe0f; Ao todo, cinco volunt\u00e1rios de 18 a 72 anos v\u00e3o receber uma dose da polilaminina quando derem entrada em hospitais para cirurgias na medula espinhal por conta de les\u00f5es. Depois, a a\u00e7\u00e3o da prote\u00edna ser\u00e1 analisada em ensaios cl\u00ednicos de fase 2 e 3.<br \/>\nNa segunda etapa, centenas de indiv\u00edduos com a les\u00e3o recebem as doses para testar a efic\u00e1cia. Uma parcela desses participantes \u00e9 sorteada para o grupo controle. Na terceira, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 ampliada para uma amostra mais representativa.<br \/>\nSe os resultados forem positivos, o Crist\u00e1lia, laborat\u00f3rio que firmou parceria com a UFRJ para a produ\u00e7\u00e3o da polilaminina, pode submet\u00ea-los \u00e0 Anvisa para enfim obter o registro do medicamento. Esse processo costuma levar de cinco a dez anos para ser conclu\u00eddo. At\u00e9 l\u00e1, o produto n\u00e3o pode ser comercializado.<br \/>\nJudicializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nDiante da como\u00e7\u00e3o em torno da polilaminina, e o refor\u00e7o da ideia de que a prote\u00edna promove a melhora dos quadros de les\u00e3o medular, pacientes ingressaram com a\u00e7\u00f5es na justi\u00e7a de v\u00e1rios estados para o acesso compassivo \u00e0s doses. Em casos em que n\u00e3o h\u00e1 alternativas de tratamento, uma norma da Anvisa permite que os pacientes acessem medicamentos em fase experimental ou sem registro.<br \/>\nDe acordo com a ag\u00eancia reguladora, at\u00e9 essa sexta-feira (27\/02), 56 pedidos do tipo foram submetidos ao Judici\u00e1rio e 33 pacientes j\u00e1 foram autorizados a receber as doses. Leonardo Costa afirma que esse cen\u00e1rio pode contribuir para que os pacientes prefiram recorrer \u00e0 Justi\u00e7a a participar de ensaios cl\u00ednicos, pois poderiam ser sorteados para o grupo controle (que n\u00e3o recebe a subst\u00e2ncia). Isso pode atrasar o desenvolvimento do medicamento, j\u00e1 que leva mais tempo para recrutar volunt\u00e1rios.<br \/>\n&#8220;Isso prejudica porque recursos da pesquisa s\u00e3o deslocados para pessoas que n\u00e3o s\u00e3o eleg\u00edveis, s\u00f3 porque tem um juiz mandando&#8221;, diz Costa. &#8220;Enquanto pesquisador, voc\u00ea n\u00e3o tem confian\u00e7a de que a cirurgia foi feita da mesma forma; vai ter casos bons e ruins.&#8221;<br \/>\nA presidente da SBPC, Francilene Proc\u00f3pio diz que h\u00e1 risco de se repetirem erros cometidos em rela\u00e7\u00e3o ao uso de cloroquina para tratar a infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus, por exemplo, ou a da falsa p\u00edlula do c\u00e2ncer, a fosfoetanolamina, quando resultados preliminares positivos levaram ao uso de medicamentos que em testes mais robustos se mostraram ineficazes.<br \/>\n&#8220;\u00c9 importante que a gente n\u00e3o se precipite por uma press\u00e3o da sociedade sobre algo que ainda precisa cumprir com muita transpar\u00eancia metodol\u00f3gica&#8221;, acrescenta Proc\u00f3pio.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que a polilaminina pode fazer e o que ainda n\u00e3o se sabe sobre a subst\u00e2ncia O nome de um composto biotecnol\u00f3gico se popularizou e dominou discuss\u00f5es na \u00faltima semana: a polilaminina. 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