{"id":66548,"date":"2026-03-10T06:21:58","date_gmt":"2026-03-10T09:21:58","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=66548"},"modified":"2026-03-10T06:21:58","modified_gmt":"2026-03-10T09:21:58","slug":"melanoma-sem-cor-dor-nas-costas-leva-educador-fisico-a-descobrir-cancer-metastatico-agressivo-e-raro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=66548","title":{"rendered":"Melanoma sem cor: dor nas costas leva educador f\u00edsico a descobrir c\u00e2ncer metast\u00e1tico agressivo e raro"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/AHYdhXZ_aiUYXvLRp7MA2T3VLnM=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/n\/h\/fvUIkwQhCMGLGXs8X2UA\/whatsapp-image-2026-03-03-at-09.28.17.jpeg\"><br \/>     Dor nas costas leva educador f\u00edsico a descobrir c\u00e2ncer metast\u00e1tico agressivo e raro<br \/>\nRodrigo Bulso sempre foi o tipo de pessoa que parecia blindada contra doen\u00e7as. Educador f\u00edsico, jogava t\u00eanis desde os 7 anos, deu aulas por mais de uma d\u00e9cada, concluiu mestrado e doutorado e decidiu, no in\u00edcio deste ano, intensificar ainda mais os cuidados com a pr\u00f3pria sa\u00fade. Melhorou a alimenta\u00e7\u00e3o, organizou o sono, ajustou os treinos.<br \/>\nS\u00f3 que algo saiu do roteiro. Em janeiro, come\u00e7ou a sentir uma dor diferente nas costas. N\u00e3o era aquela dor muscular t\u00edpica de treino intenso. Havia um inc\u00f4modo estranho ao fazer certos movimentos. Ele reduziu os exerc\u00edcios, tomou analg\u00e9sicos, esperou melhorar. N\u00e3o melhorou.<br \/>\nA dor aumentou progressivamente, at\u00e9 se tornar incapacitante. No caminho at\u00e9 o hospital, cada irregularidade no asfalto fazia uma descarga el\u00e9trica atravessar sua coluna. Deitar e levantar da maca fazia com que Rodrigo ficasse por dez minutos sob dor intensa.<br \/>\nA tomografia revelou o que ningu\u00e9m imaginava: uma v\u00e9rtebra fraturada \u2014n\u00e3o por trauma, mas porque havia sido enfraquecida por um c\u00e2ncer. E n\u00e3o um c\u00e2ncer \u00f3sseo prim\u00e1rio: uma met\u00e1stase nas v\u00e9rtebras.<br \/>\nO tenista Rodrigo Bulso, de 33 anos<br \/>\nArquivo Pessoal<br \/>\nA partir dali, os exames passaram a buscar a origem da doen\u00e7a. As imagens mostraram m\u00faltiplas les\u00f5es espalhadas pelo corpo. Havia tumores nos pulm\u00f5es, no f\u00edgado, no trato gastrointestinal e em outras \u00e1reas da coluna. Rodrigo foi internado imediatamente para investiga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDias depois, a bi\u00f3psia confirmou o diagn\u00f3stico: melanoma metast\u00e1tico. Mas n\u00e3o o tipo cl\u00e1ssico.<br \/>\nO laudo apontava que as les\u00f5es no est\u00f4mago e no duodeno eram formadas por um melanoma sem pigmenta\u00e7\u00e3o \u2014um subtipo chamado amelan\u00f3tico. Em vez da mancha escura caracter\u00edstica, tratava-se de um tumor que n\u00e3o produz melanina.<br \/>\nUm melanoma sem pigmento<br \/>\nO melanoma tradicionalmente \u00e9 associado a les\u00f5es escuras, irregulares e pigmentadas. No caso de Rodrigo, n\u00e3o havia mancha preta vis\u00edvel. Nem ele nem os m\u00e9dicos haviam identificado qualquer les\u00e3o suspeita na pele.<br \/>\nO oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncocl\u00ednicas e da Americas Health Foundation, explica que o melanoma amelan\u00f3tico \u00e9 biologicamente o mesmo tumor \u2014originado no melan\u00f3cito, a c\u00e9lula respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de melanina\u2014, mas se apresenta de forma diferente.<br \/>\nSegundo ele, a diferen\u00e7a est\u00e1 no fen\u00f3tipo, isto \u00e9, na forma como a doen\u00e7a se manifesta. A c\u00e9lula tumoral, por muta\u00e7\u00f5es acumuladas, perde a capacidade de produzir melanina. Uma das hip\u00f3teses mais aceitas envolve altera\u00e7\u00f5es em uma enzima chamada tirosinase, essencial na cascata bioqu\u00edmica que leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do pigmento. Sem essa produ\u00e7\u00e3o, a les\u00e3o pode surgir avermelhada, rosada ou at\u00e9 passar despercebida.<br \/>\nA origem celular \u00e9 a mesma. O que muda \u00e9 a express\u00e3o. Trata-se de um melanoma que deixou de produzir pigmento porque a c\u00e9lula se tornou t\u00e3o indiferenciada que perdeu caracter\u00edsticas da c\u00e9lula original.<br \/>\nEssa aus\u00eancia de cor dificulta o reconhecimento precoce. Diferentemente da les\u00e3o escura cl\u00e1ssica que chama aten\u00e7\u00e3o, o melanoma amelan\u00f3tico pode ser confundido com outras altera\u00e7\u00f5es benignas ou simplesmente n\u00e3o ser notado, como o que aconteceu com Rodrigo.<br \/>\nEm alguns casos, a les\u00e3o prim\u00e1ria pode regredir espontaneamente, fen\u00f4meno descrito na literatura, restando apenas as met\u00e1stases como primeira manifesta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<br \/>\nRodrigo Bulso, 33, descobriu um melanoma amelan\u00f3tico com m\u00faltiplas met\u00e1stases<br \/>\nArquivo Pessoal<br \/>\nFratura vertebral, o primeiro sinal<br \/>\nNo caso de Rodrigo, o primeiro sinal foi a fratura na v\u00e9rtebra tor\u00e1cica. O tumor havia corro\u00eddo o osso por dentro. Outras \u00e1reas da coluna tamb\u00e9m estavam comprometidas.<br \/>\nOs exames de imagem mostraram que o c\u00e2ncer j\u00e1 havia se espalhado para pulm\u00f5es, f\u00edgado, rins, linfonodos e ossos. Era uma doen\u00e7a sist\u00eamica \u2014isto \u00e9, n\u00e3o localizada, mas disseminada pelo organismo.<br \/>\nO melanoma \u00e9 conhecido justamente por esse comportamento imprevis\u00edvel e agressivo. Pode atingir praticamente qualquer \u00f3rg\u00e3o e, quando chega aos ossos, aumenta o risco de fraturas mesmo sem trauma importante.<br \/>\n\u201cDe repente, eu estava com dor nas costas e, no minuto seguinte, com c\u00e2ncer e a coluna fraturada\u201d, conta Rodrigo.<br \/>\nEle diz que, nos primeiros momentos, a sensa\u00e7\u00e3o foi de incredulidade. \u201cParecia um pesadelo. N\u00e3o parecia real.\u201d<br \/>\nO momento da hist\u00f3ria em que ele foi diagnosticado<br \/>\nApesar da extens\u00e3o da doen\u00e7a, o diagn\u00f3stico trouxe uma informa\u00e7\u00e3o que, paradoxalmente, lhe deu esperan\u00e7a.<br \/>\nEntre os tumores poss\u00edveis, o melanoma hoje \u00e9 uma das doen\u00e7as que mais se beneficiam da imunoterapia \u2014tratamento que estimula o pr\u00f3prio sistema imunol\u00f3gico a reconhecer e atacar as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas.<br \/>\nRodrigo iniciou rapidamente a combina\u00e7\u00e3o de dois medicamentos imunoter\u00e1picos. As infus\u00f5es s\u00e3o feitas a cada tr\u00eas semanas.<br \/>\nStefani explica que o melanoma \u00e9 um dos tumores com maior n\u00famero de muta\u00e7\u00f5es acumuladas no DNA das c\u00e9lulas. Quanto mais muta\u00e7\u00f5es, maior a chance de surgirem prote\u00ednas alteradas na superf\u00edcie dessas c\u00e9lulas \u2014estruturas que funcionam como \u201cmarcas\u201d diferentes do tecido saud\u00e1vel.<br \/>\nEm condi\u00e7\u00f5es normais, o sistema imunol\u00f3gico \u00e9 capaz de reconhecer o que \u00e9 estranho e atacar. O problema \u00e9 que muitos tumores desenvolvem mecanismos de defesa para se esconder dessa vigil\u00e2ncia. Eles ativam verdadeiros \u201cfreios\u201d do sistema imune, impedindo que as c\u00e9lulas de defesa reajam.<br \/>\n\u00c9 justamente nesses freios que atuam medicamentos como os inibidores de PD-1 e CTLA-4. Eles retiram o bloqueio que o tumor imp\u00f5e ao organismo. Ao fazer isso, permitem que as c\u00e9lulas de defesa voltem a identificar o c\u00e2ncer como algo anormal e passem a combat\u00ea-lo.<br \/>\nComo o melanoma costuma ter muitas muta\u00e7\u00f5es \u2014e, portanto, mais \u201cmarcas\u201d que o diferenciam do tecido normal\u2014 ele tende a responder melhor a esse tipo de estrat\u00e9gia imunol\u00f3gica do que v\u00e1rios outros tumores.<br \/>\nSegundo o oncologista, h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada era praticamente impens\u00e1vel falar em controle prolongado de um melanoma metast\u00e1tico. Hoje, h\u00e1 casos de remiss\u00e3o completa com imunoterapia.<br \/>\nA meta do tratamento \u00e9 justamente essa: alcan\u00e7ar resposta profunda e duradoura.<br \/>\nRodrigo Bulso faz imunoterapia a cada tr\u00eas semanas<br \/>\nArquivo Pessoal<br \/>\nCirurgia, reconstru\u00e7\u00e3o e recome\u00e7o<br \/>\nA maior urg\u00eancia foi a coluna. Ele passou por cirurgia para estabilizar a v\u00e9rtebra fraturada, com coloca\u00e7\u00e3o de placa e parafusos de tit\u00e2nio.<br \/>\nOs primeiros dias foram dif\u00edceis. A dor intensa e o medo de se movimentar tornavam cada passo um desafio. Com fisioterapia di\u00e1ria, no entanto, a recupera\u00e7\u00e3o evolui bem. Hoje, ele diz n\u00e3o sentir dor relacionada ao c\u00e2ncer. \u201cSe n\u00e3o fosse a fratura, talvez a gente n\u00e3o tivesse descoberto.\u201d<br \/>\nE encara o tratamento com serenidade.<br \/>\n \u201cEu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance. E o que n\u00e3o estiver, eu aceito.\u201d<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dor nas costas leva educador f\u00edsico a descobrir c\u00e2ncer metast\u00e1tico agressivo e raro Rodrigo Bulso sempre foi o tipo de pessoa que parecia blindada contra doen\u00e7as. 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