{"id":66827,"date":"2026-03-16T12:03:56","date_gmt":"2026-03-16T15:03:56","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=66827"},"modified":"2026-03-16T12:03:56","modified_gmt":"2026-03-16T15:03:56","slug":"brasil-registra-15-estupros-coletivos-por-dia-entre-2022-e-2025-segundo-dados-do-ministerio-da-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=66827","title":{"rendered":"Brasil registra 15 estupros coletivos por dia entre 2022 e 2025, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/y6O-7TZBd3NnfodSqctBgO7JTS0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/z\/m\/WHnmaGRcGiQWc9T8JmbQ\/76287979-1004.jpg\"><br \/>     Casos de estupro coletivo recentes provocaram protestos no Brasil.<br \/>\nIsabella Finholdt\/NurPhoto\/picture alliance<br \/>\nCasos recentes de estupros coletivos contra adolescentes que chocaram o Brasil nos \u00faltimos dias exp\u00f5em uma realidade que especialistas descrevem como persistente, mas, na maioria das vezes, invis\u00edvel.<br \/>\nO estupro coletivo, ou seja, quando duas ou mais pessoas participam da agress\u00e3o sexual, n\u00e3o \u00e9 um evento isolado no pa\u00eds. Dados do Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (Sinan) indicam que, de 2022 a 2025, foram registrados 22.800 casos de estupro coletivo no Brasil, ou seja, mais de 15 casos por dia.<br \/>\nAinda segundo os dados, do total dessas agress\u00f5es, 8,4 mil foram cometidos contra mulheres adultas e 14,4 mil contra crian\u00e7as e adolescentes do sexo feminino. Os n\u00fameros foram fornecidos pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade \u00e0 DW.<br \/>\nApesar de alarmantes, esses n\u00fameros, no entanto, n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade, segundo especialistas, devido \u00e0 subnotifica\u00e7\u00e3o dos casos.<br \/>\n&#8220;A viol\u00eancia sexual, especialmente em sua forma coletiva, permanece cercada por camadas hist\u00f3ricas de sil\u00eancio. Em casos de estupro coletivo, esse sil\u00eancio tende a ser ainda maior. A v\u00edtima n\u00e3o enfrenta apenas um agressor, mas um grupo. O medo de repres\u00e1lias, a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica e o trauma psicol\u00f3gico muitas vezes se tornam barreiras quase intranspon\u00edveis para a den\u00fancia&#8221;, explica Najara Barreto, gestora executiva do Instituto Justi\u00e7a de Saia e projeto Justiceiras, que atuam na defesa dos direitos das mulheres.<br \/>\nSuspeitos de estupro coletivo em Copacabana<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Fant\u00e1stico<br \/>\nSil\u00eancio e impunidade<br \/>\nEssa viol\u00eancia sexual normalmente acontece em contextos em que, pelo menos um dos agressores, conhece a v\u00edtima. Essa proximidade dificulta a den\u00fancia e a coleta de provas. Al\u00e9m disso, a exposi\u00e7\u00e3o e o julgamento social ainda fazem muitas v\u00edtimas desistirem de procurar a pol\u00edcia.<br \/>\nOutro fator, que contribui para o sil\u00eancio \u00e9 a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sexual em determinados ambientes. Quando crimes s\u00e3o cometidos em grupo, pode surgir uma din\u00e2mica de encorajamento coletivo que dilui a percep\u00e7\u00e3o de responsabilidade individual entre os agressores.<br \/>\n&#8220;O estupro coletivo, diferentemente de outras formas de viol\u00eancia sexual, possui um componente simb\u00f3lico adicional: ele funciona como ritual de poder. O crime deixa de ser apenas um ato de viol\u00eancia sexual e passa a operar como uma demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de dom\u00ednio sobre o corpo feminino&#8221;, afirma Barreto.<br \/>\nA especialista acrescenta ainda que esse tipo de viol\u00eancia prospera em contextos sociais onde se observa a banaliza\u00e7\u00e3o do sofrimento da mulher, a erotiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e, sobretudo, uma percep\u00e7\u00e3o difusa de que a responsabiliza\u00e7\u00e3o penal pode n\u00e3o ocorrer ou n\u00e3o ocorrer\u00e1 de forma proporcional \u00e0 gravidade do crime.<br \/>\nCasos de estupro coletivo que envolvem jovens de fam\u00edlias com maior poder aquisitivo costumam gerar grande repercuss\u00e3o, como ocorreu com o registrado em Copacabana. No entanto, isso n\u00e3o significa que sejam mais comuns nesses grupos e, para cada caso que ganha repercuss\u00e3o nacional, muitos outros permanecem invis\u00edveis.<br \/>\n&#8220;Casos semelhantes est\u00e3o acontecendo tamb\u00e9m todos os dias nas comunidades perif\u00e9ricas, nas comunidades tradicionais, sobretudo atingindo de forma mais incisivas as mulheres negras, transexuais, crian\u00e7as e outros grupos vulner\u00e1veis e n\u00e3o vemos esses casos terem as mesmas visibilidades e resolutividades num curto espa\u00e7o de tempo&#8221;, enfatiza Roseli de Oliveira Barbosa, assistente social e presidenta da Tamo Juntas, ONG que atua na prote\u00e7\u00e3o de mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia.<br \/>\n&#8216;Ela se sentia muito culpada e dizia que queria desistir da vida&#8217;, conta m\u00e3e de adolescente de 17 anos v\u00edtima de estupro coletivo no Rio<br \/>\nJornal Nacional\/ Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nCrime persistente<br \/>\nA repeti\u00e7\u00e3o de casos de estupro coletivo mostra que o problema vai al\u00e9m de epis\u00f3dios isolados de brutalidade. Trata-se, segundo especialistas, de um fen\u00f4meno que reflete desigualdades de g\u00eanero, falhas institucionais e uma cultura de viol\u00eancia que ainda persiste.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, o Brasil aprovou uma s\u00e9rie de medidas para enfrentar a viol\u00eancia sexual. Entre elas est\u00e3o leis que ampliaram a defini\u00e7\u00e3o de estupro e penas mais duras para crimes cometidos em grupo.<br \/>\nPrevisto no artigo 213 do C\u00f3digo Penal, o crime de estupro foi alterado em 2009. Ele define estupro como o ato de &#8220;constranger algu\u00e9m, mediante viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a, a ter conjun\u00e7\u00e3o carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso&#8221;. A pena prevista \u00e9 de seis a dez anos de pris\u00e3o.<br \/>\nSe a v\u00edtima sofrer les\u00e3o corporal grave ou se for menor de 18 anos, o acusado pode pegar de oito a doze anos de pris\u00e3o. J\u00e1 se o crime resultar na morte da v\u00edtima, a pena prevista \u00e9 de 12 a 30 anos de pris\u00e3o.<br \/>\nA lei n\u00ba 13.718, de 2018, aumentou as penas para os casos em que h\u00e1 estupro coletivo. Para ser considerado &#8220;coletivo&#8221;, basta ter duas ou mais pessoas respons\u00e1veis pelo crime. Nesses casos, a pena pode ser aumentada entre um ter\u00e7o e dois ter\u00e7os, assim o tempo m\u00e1ximo de pris\u00e3o passa de dez anos para 16 anos e oito meses.<br \/>\nAl\u00e9m da pol\u00edcia, o sistema de sa\u00fade passou a registrar casos de viol\u00eancia sexual em bancos de dados nacionais, permitindo acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o do problema e servir de base para pol\u00edticas p\u00fablicas.<br \/>\nEssas modifica\u00e7\u00f5es ocorreram ap\u00f3s um dos epis\u00f3dios mais chocantes de estupro coletivo registrado no Brasil. Em 2016, no Rio de Janeiro, uma adolescente foi violentada por dezenas de homens em uma comunidade da zona oeste da cidade, ap\u00f3s ter sido dopada. Imagens da jovem nua e inconsciente circularam nas redes sociais.<br \/>\nNa ocasi\u00e3o, investigadores apontaram que 33 homens teriam participado da agress\u00e3o, mas apenas quatro deles foram identificados e investigados pelo crime. O caso gerou protestos e debates, fazendo com que medidas mais duras contra crimes sexuais fossem criadas.<br \/>\nAlunos protestam no Col\u00e9gio Pedro II ap\u00f3s caso de estupro coletivo<br \/>\nEspecialistas apontam lacunas<br \/>\nApesar desses avan\u00e7os, especialistas afirmam que ainda h\u00e1 grandes lacunas. Entre elas est\u00e3o a falta de investiga\u00e7\u00e3o eficaz, a demora nos processos judiciais e a aus\u00eancia de pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o mais amplas.<br \/>\nOutro desafio \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o. Organiza\u00e7\u00f5es que trabalham com o tema defendem campanhas permanentes de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre consentimento e viol\u00eancia sexual, principalmente entre os jovens.<br \/>\n&#8220;O estupro coletivo, muitas vezes, envolve din\u00e2micas de poder e de afirma\u00e7\u00e3o de masculinidade dentro de grupos. Por isso, o enfrentamento a este tipo de crime exige n\u00e3o apenas puni\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, mudan\u00e7as culturais profundas, que reduzam a toler\u00e2ncia social \u00e0 viol\u00eancia sexual&#8221;, diz Celeste Leite dos Santos, promotora de Justi\u00e7a em \u00daltimo Grau do Col\u00e9gio Recursal do Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP) de S\u00e3o Paulo e presidente do Instituto Brasileiro de Aten\u00e7\u00e3o Integral \u00e0 V\u00edtima (Pr\u00f3-V\u00edtima).<br \/>\n&#8216;Regret nothing&#8217;: frase de r\u00e9u por estupro coletivo exp\u00f5e cultura mis\u00f3gina<br \/>\nReflexos nas v\u00edtimas<br \/>\nAl\u00e9m dos danos f\u00edsicos, v\u00edtimas de estupro coletivo geralmente sofrem impacto emocional ap\u00f3s o crime. No caso de Copacabana, a adolescente de 17 anos, relatou \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0s autoridades sentimento de culpa logo ap\u00f3s a viol\u00eancia. Essa rea\u00e7\u00e3o comum entre quem sofre esse tipo de trauma, segundo a psicanalista Ana Lisboa.<br \/>\n&#8220;A autoestima vai sendo corro\u00edda aos poucos. A mulher aprende a minimizar o que est\u00e1 acontecendo, a justificar o comportamento do agressor&#8221;, explica.<br \/>\nA profissional ainda enfatiza que, quando se trata de crian\u00e7as e adolescentes, o impacto causado \u00e9 ainda mais devastador, uma vez que atinge de maneira profunda o desenvolvimento psicol\u00f3gico e emocional dessas v\u00edtimas.<br \/>\n&#8220;Quando um abuso acontece nessa fase e essa v\u00edtima n\u00e3o \u00e9 acolhida, quando as pessoas n\u00e3o a compreendem, o impacto emocional \u00e9 muito forte. Primeiro pelo trauma do pr\u00f3prio abuso. Depois porque ela ainda precisa lidar com todas as consequ\u00eancias disso sozinha. Isso gera uma sensa\u00e7\u00e3o muito intensa de humilha\u00e7\u00e3o, inferioridade, culpa e medo, como se de alguma forma ela fosse respons\u00e1vel por aquilo que aconteceu&#8221;, diz.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Casos de estupro coletivo recentes provocaram protestos no Brasil. Isabella Finholdt\/NurPhoto\/picture alliance Casos recentes de estupros coletivos contra adolescentes que chocaram o Brasil nos \u00faltimos dias exp\u00f5em uma realidade que especialistas descrevem como persistente, mas, na maioria das vezes, invis\u00edvel. 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