{"id":67146,"date":"2026-03-23T06:03:24","date_gmt":"2026-03-23T09:03:24","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=67146"},"modified":"2026-03-23T06:03:24","modified_gmt":"2026-03-23T09:03:24","slug":"ouvi-que-estava-viciada-em-opioides-mulheres-tem-dor-subestimada-em-hospitais-e-recebem-menos-tratamento-que-homens-mostra-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=67146","title":{"rendered":"\u2018Ouvi que estava viciada em opioides\u2019: mulheres t\u00eam dor subestimada em hospitais e recebem menos tratamento que homens, mostra estudo"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/zjAEA4l4FISgxOvlZXr13-prb7s=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/I\/S\/hjxwbWQiA0gzps2ZAYlA\/177393798558588.jpg\"><br \/>     Luciana Dores<br \/>\nArquivo Pessoal<br \/>\nA forma como a medicina escuta \u2014e interpreta\u2014 a dor n\u00e3o \u00e9 igual para homens e mulheres.<br \/>\nUma revis\u00e3o integrativa publicada em 2025 na revista Medicina analisou estudos cl\u00ednicos sobre manejo da dor em diferentes contextos e identificou um padr\u00e3o consistente: mulheres t\u00eam maior probabilidade de ter a dor subestimada, receber menos analgesia e ter seus sintomas atribu\u00eddos a fatores emocionais, mesmo quando relatam intensidade igual ou superior \u00e0 dos homens.<br \/>\nO fen\u00f4meno aparece em m\u00faltiplos cen\u00e1rios \u2014da emerg\u00eancia ao p\u00f3s-operat\u00f3rio e a procedimentos ginecol\u00f3gicos\u2014 e n\u00e3o se explica apenas por diferen\u00e7as biol\u00f3gicas.<br \/>\nSegundo os autores, vieses impl\u00edcitos, lacunas em protocolos cl\u00ednicos e estere\u00f3tipos hist\u00f3ricos ajudam a sustentar decis\u00f5es que, na pr\u00e1tica, resultam em tratamento desigual.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nDor que precisa ser provada<br \/>\nLuciana Dores teve sua dor subestimada por anos.<br \/>\nAos 29 anos, a analista de suporte enfrentou meses de dor intensa antes de chegar ao diagn\u00f3stico correto \u2013osteonecrose na cabe\u00e7a do f\u00eamur. O quadro come\u00e7ou na lombar e evoluiu rapidamente, comprometendo movimentos b\u00e1sicos.<br \/>\nEm sucessivas consultas, recebeu explica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o acompanhavam a gravidade do quadro: dor muscular, hip\u00f3tese psicossom\u00e1tica, aus\u00eancia de indica\u00e7\u00e3o para investiga\u00e7\u00e3o aprofundada.<br \/>\nMesmo com dor progressiva, precisou insistir para ser levada a s\u00e9rio. Em atendimentos de emerg\u00eancia, ouviu questionamentos diretos sobre a veracidade do que sentia, apesar da intensidade e da piora cl\u00ednica.<br \/>\nO diagn\u00f3stico s\u00f3 veio ap\u00f3s uma sequ\u00eancia de exames e agravamento importante da condi\u00e7\u00e3o. At\u00e9 conseguir tratamento adequado, Luciana relata que, em cada ida ao pronto-socorro, precisava comprovar a condi\u00e7\u00e3o por meio de laudos para receber medica\u00e7\u00e3o para dor.<br \/>\n\u201cUm m\u00e9dico insinuou que eu estava viciada em opioides, por isso ia no pronto socorro com frequ\u00eancia. A dor era tanta que nem morfina resolvia\u201d, conta Luciana \u00e0 reportagem.<br \/>\nEvid\u00eancia cient\u00edfica aponta padr\u00e3o persistente<br \/>\nOs dados que emergem da literatura cient\u00edfica ajudam a contextualizar experi\u00eancias como a de Luciana.<br \/>\nA revis\u00e3o publicada na Medicina reuniu estudos observacionais, an\u00e1lises cl\u00ednicas e relatos de pacientes e identificou que:<br \/>\nmulheres recebem menos analg\u00e9sicos em servi\u00e7os de emerg\u00eancia, mesmo com dor equivalente;<br \/>\nt\u00eam maior chance de ter a dor atribu\u00edda a ansiedade ou fatores psicol\u00f3gicos;<br \/>\nenfrentam atraso no diagn\u00f3stico e tratamento em diferentes especialidades.<br \/>\nEm procedimentos ginecol\u00f3gicos, a desigualdade se torna ainda mais evidente. Dados compilados na revis\u00e3o indicam que apenas cerca de 30% dos m\u00e9dicos oferecem anestesia para inser\u00e7\u00e3o de DIU, embora aproximadamente 70% das pacientes relatem dor moderada a intensa. Em histeroscopias diagn\u00f3sticas sem anestesia, a dor pode atingir n\u00edveis entre 7 e 9 em uma escala de 0 a 10.<br \/>\nAl\u00e9m disso, estudos mostram que mulheres podem receber at\u00e9 25% menos opioides do que homens ap\u00f3s cirurgias semelhantes, refor\u00e7ando um padr\u00e3o consistente de subtratamento.<br \/>\nComo a pr\u00e1tica m\u00e9dica reproduz esse vi\u00e9s<br \/>\nNa rotina cl\u00ednica, especialistas reconhecem que o problema persiste, ainda que com avan\u00e7os recentes.<br \/>\nGinecologista da BP \u2013 A Benefic\u00eancia Portuguesa de S\u00e3o Paulo, Marina Andr\u00e9s afirma que h\u00e1 evid\u00eancias de que mulheres recebem menos medica\u00e7\u00e3o para dor e t\u00eam suas queixas desvalorizadas, inclusive em servi\u00e7os de emerg\u00eancia.<br \/>\nSegundo ela, a interpreta\u00e7\u00e3o dos sintomas frequentemente recorre a explica\u00e7\u00f5es hormonais ou emocionais antes de uma investiga\u00e7\u00e3o completa.<br \/>\nA anestesiologista Cl\u00e1udia Sim\u00f5es, coordenadora da resid\u00eancia de anestesia do Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas e vice-presidente da Sociedade de Anestesiologia do Estado de S\u00e3o Paulo (SAESP), explica que a dor \u00e9 uma experi\u00eancia subjetiva \u2014influenciada por fatores biol\u00f3gicos, psicol\u00f3gicos e sociais\u2014, o que abre espa\u00e7o para interfer\u00eancia de vieses inconscientes na avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<br \/>\nDurante muito tempo, diz, consolidou-se a ideia de que mulheres seriam mais \u201cemocionais\u201d ou tenderiam a exagerar sintomas, percep\u00e7\u00e3o que ainda pode influenciar decis\u00f5es m\u00e9dicas, mesmo de forma n\u00e3o intencional.<br \/>\nNo p\u00f3s-operat\u00f3rio, a tentativa de padronizar a avalia\u00e7\u00e3o por meio de escalas de dor \u2014como a num\u00e9rica de 0 a 10\u2014 busca reduzir esse tipo de distor\u00e7\u00e3o. Ainda assim, a decis\u00e3o sobre analgesia pode ser impactada pela interpreta\u00e7\u00e3o da equipe, sobretudo quando protocolos n\u00e3o s\u00e3o rigidamente seguidos.<br \/>\nEntre biologia, cultura e lacunas da ci\u00eancia<br \/>\nAs diferen\u00e7as entre homens e mulheres na experi\u00eancia da dor existem, mas n\u00e3o explicam, sozinhas, a desigualdade no tratamento.<br \/>\nGinecologista da Federa\u00e7\u00e3o Brasileira das Associa\u00e7\u00f5es de Ginecologia e Obstetr\u00edcia (Febrasgo), Marcelo Steiner destaca que h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es hormonais, imunol\u00f3gicas e neurol\u00f3gicas que influenciam a percep\u00e7\u00e3o da dor. Mulheres, por exemplo, t\u00eam maior preval\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es de dor cr\u00f4nica, como enxaqueca e fibromialgia.<br \/>\nAo mesmo tempo, ele ressalta que estudos j\u00e1 demonstraram que, em cen\u00e1rios cl\u00ednicos equivalentes, a diferen\u00e7a no manejo pode ocorrer apenas pelo g\u00eanero do paciente \u2014evid\u00eancia de que fatores sociais e culturais tamb\u00e9m moldam a pr\u00e1tica m\u00e9dica.<br \/>\nEssa constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 refor\u00e7ada por uma tradi\u00e7\u00e3o que naturalizou o sofrimento feminino.<br \/>\nCoordenadora do Programa de Sa\u00fade do Adolescente da Secretaria Estadual de Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo, a ginecologista Albertina Duarte Takiuti conta que experi\u00eancias como menstrua\u00e7\u00e3o e parto foram, ao longo do tempo, tratadas como dores \u201cesperadas\u201d.<br \/>\nEsse contexto contribui para uma banaliza\u00e7\u00e3o da dor. Segundo ela, quando uma mulher verbaliza sofrimento, isso geralmente indica que o limiar j\u00e1 foi ultrapassado, e a queixa precisa ser levada a s\u00e9rio.<br \/>\nProcedimentos \u2018toler\u00e1veis\u2019 e dor subtratada<br \/>\nA forma como certos procedimentos s\u00e3o classificados tamb\u00e9m influencia o cuidado.<br \/>\nNa pr\u00e1tica m\u00e9dica, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que a dor feminina ainda \u00e9 tratada como parte esperada do processo \u2014e, por isso, menos priorizada no manejo cl\u00ednico.<br \/>\nA anestesiologista Gabriela Queiroz do Amaral, da Cl\u00ednica Sartor e coordenadora da Expedi\u00e7\u00e3o Cir\u00fargica da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), chama aten\u00e7\u00e3o para um dos exemplos mais evidentes: o acesso \u00e0 analgesia no parto.<br \/>\nSegundo ela, menos de 5% das mulheres no sistema p\u00fablico t\u00eam acesso \u00e0 analgesia farmacol\u00f3gica durante o trabalho de parto, cen\u00e1rio associado a limita\u00e7\u00f5es estruturais, falta de profissionais e decis\u00f5es de gest\u00e3o. Em alguns contextos, a dor ainda \u00e9 tratada como parte inevit\u00e1vel do processo.<br \/>\nUm problema que ultrapassa a dor f\u00edsica<br \/>\nA subestima\u00e7\u00e3o da dor n\u00e3o se limita ao desconforto imediato; ela pode ter consequ\u00eancias cl\u00ednicas e comportamentais importantes.<br \/>\nA revis\u00e3o da Medicina aponta que o subtratamento est\u00e1 associado a atraso diagn\u00f3stico, pior evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e aumento do sofrimento psicol\u00f3gico.<br \/>\nAl\u00e9m disso, experi\u00eancias negativas podem afetar a rela\u00e7\u00e3o das mulheres com o sistema de sa\u00fade. Parte das pacientes passa a evitar ou adiar atendimentos por receio de n\u00e3o ser levada a s\u00e9rio \u2014um padr\u00e3o j\u00e1 documentado em estudos populacionais analisados na revis\u00e3o.<br \/>\nNo Brasil, o problema se insere em um contexto mais amplo. Editorial publicado na revista Femina, da Febrasgo, destaca que a invisibilidade de viol\u00eancias e sofrimentos femininos ainda atravessa a pr\u00e1tica cl\u00ednica e compromete oportunidades de cuidado, preven\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO que pode mudar<br \/>\nEspecialistas apontam que reduzir a desigualdade no manejo da dor exige mudan\u00e7as em m\u00faltiplos n\u00edveis.<br \/>\nEntre as medidas discutidas est\u00e3o:<br \/>\ndesenvolvimento de protocolos cl\u00ednicos sens\u00edveis a diferen\u00e7as de g\u00eanero;<br \/>\ntreinamento de profissionais para reconhecimento de vieses impl\u00edcitos;<br \/>\namplia\u00e7\u00e3o do acesso a analgesia, especialmente em contextos como o parto;<br \/>\nvaloriza\u00e7\u00e3o da escuta do paciente como elemento central da decis\u00e3o cl\u00ednica.<br \/>\nPara Gabriela Amaral, a combina\u00e7\u00e3o entre crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e compreens\u00e3o individual da experi\u00eancia de dor \u00e9 essencial para um cuidado mais adequado. A dor, afirma, n\u00e3o pode ser tratada apenas como um dado fisiol\u00f3gico, mas como uma experi\u00eancia que precisa ser reconhecida em sua singularidade.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciana Dores Arquivo Pessoal A forma como a medicina escuta \u2014e interpreta\u2014 a dor n\u00e3o \u00e9 igual para homens e mulheres. Uma revis\u00e3o integrativa publicada em 2025 na revista Medicina analisou estudos cl\u00ednicos sobre manejo da dor em diferentes contextos e identificou um padr\u00e3o consistente: mulheres t\u00eam maior probabilidade de ter a dor subestimada, receber [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":261,"featured_media":67147,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[156],"class_list":{"0":"post-67146","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-saude"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/177393798558588.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/67146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/261"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=67146"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/67146\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/67147"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=67146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=67146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=67146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}