{"id":67435,"date":"2026-03-29T06:09:15","date_gmt":"2026-03-29T09:09:15","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=67435"},"modified":"2026-03-29T06:09:15","modified_gmt":"2026-03-29T09:09:15","slug":"falar-sobre-a-morte-nao-poupa-sofrimento-organiza-o-sofrimento-a-entrevista-da-medica-paliativista-e-escritora-ana-claudia-quintana-arantes-ao-g1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=67435","title":{"rendered":"&#8216;Falar sobre a morte n\u00e3o poupa sofrimento, organiza o sofrimento&#8217;: a entrevista da m\u00e9dica paliativista e escritora Ana Cl\u00e1udia Quintana Arantes ao g1"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/3Ye11II3zw4kk93r1Dwif-3N5_0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/C\/g\/5gzHHkT8yezBDuQKXzZQ\/eudig-voa-4.jpg.jpeg\"><br \/>     A m\u00e9dica paliativista e escritora Ana Cl\u00e1udia Quintana Arantes<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nEla fala da morte sem baixar o tom, mas tamb\u00e9m sem endurecer a voz. M\u00e9dica paliativista, escritora do livro &#8220;A morte \u00e9 um dia que vale a pena viver&#8221; e embaixadora da Voa Health, Ana Claudia Quintana Arantes n\u00e3o v\u00ea o tema como um desvio da vida, mas como uma das suas dimens\u00f5es mais negligenciadas.<br \/>\nAo longo de mais de duas d\u00e9cadas acompanhando pacientes com doen\u00e7as graves, ela se acostumou a ver o que acontece quando esse assunto \u00e9 evitado: decis\u00f5es tomadas \u00e0s pressas, sofrimento prolongado e despedidas atravessadas por d\u00favidas. N\u00e3o por falta de tecnologia ou de recursos m\u00e9dicos, mas por aus\u00eancia de conversa.<br \/>\nNo Brasil, essa lacuna tamb\u00e9m \u00e9 estrutural. Embora o pa\u00eds tenha avan\u00e7ado na formaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica, o n\u00famero de equipes habilitadas em cuidados paliativos ainda \u00e9 reduzido frente \u00e0 demanda de uma popula\u00e7\u00e3o que envelhece rapidamente. A dist\u00e2ncia entre a norma e o acesso concreto ao cuidado segue evidente.<br \/>\nA realidade, ela diz, \u00e9 que a maioria das pessoas n\u00e3o morre de forma s\u00fabita. Morre doente \u2014e, nesse percurso, precisa de cuidado. \u00c9 nesse ponto que entram os cuidados paliativos, ainda frequentemente associados, de forma equivocada, \u00e0 desist\u00eancia ou ao fim iminente.<br \/>\nNesta entrevista, a m\u00e9dica fala sobre o que define uma \u201cboa morte\u201d, critica a forma como a medicina lida com a finitude e defende que reconhecer o limite da vida pode ser, paradoxalmente, uma forma de viv\u00ea-la melhor.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\ng1: A senhora costuma dizer que a morte \u00e9 um dia que vale a pena viver. O que est\u00e1 sendo vivido nesse momento que ainda n\u00e3o entendemos?<br \/>\nAna Cl\u00e1udia Quintana Arantes: As pessoas n\u00e3o entendem que, para viver uma experi\u00eancia que valha a pena, \u00e9 preciso cuidado. A maioria de n\u00f3s vai morrer doente e, quando isso acontece, a gente precisa saber receber cuidado e ter quem saiba oferecer. A morte vale a pena quando h\u00e1 esse encontro.<br \/>\nO que mais te incomoda na forma como a sociedade evita falar sobre a morte?<br \/>\nQuando voc\u00ea n\u00e3o fala sobre a morte, perde a chance de entender melhor o que fazer com o seu tempo. Quando algu\u00e9m sabe que tem pouco tempo de vida, aprende a priorizar. E a prioridade n\u00e3o pode ser \u201cestar vivo daqui a seis meses\u201d, porque isso n\u00e3o \u00e9 garantido. Quem tem essa consci\u00eancia costuma viver melhor. N\u00e3o porque a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas porque passa a escolher com mais clareza o que viver.<br \/>\nMas e quando o sofrimento emocional fala mais alto?<br \/>\nO sofrimento existe. \u00c9 triste, d\u00e1 raiva, d\u00e1 medo. Mas, se voc\u00ea n\u00e3o consegue colocar isso a favor da sua hist\u00f3ria, vai perder tempo. A vida n\u00e3o espera voc\u00ea entender. Viver boas mem\u00f3rias \u00e9 importante para quem est\u00e1 morrendo e para quem vai ficar. E passar dois dos tr\u00eas meses chorando n\u00e3o constr\u00f3i essa mem\u00f3ria.<br \/>\nA medicina foi treinada para salvar vidas. Como ela lida com o limite de n\u00e3o conseguir evitar a morte?A gente foi treinado com uma ilus\u00e3o de poder, de que salva vidas. Mas a gente s\u00f3 adia a morte. N\u00e3o \u00e9 exatamente arrog\u00e2ncia, \u00e9 uma ingenuidade. \u00c9 como uma crian\u00e7a que acha que tem superpoder. A morte n\u00e3o obedece ao m\u00e9dico. O problema \u00e9 que muitos profissionais ainda encaram a morte como fracasso. E n\u00e3o \u00e9. A hist\u00f3ria da vida termina. O que importa \u00e9 como se cuida desse final.<br \/>\nPor que os cuidados paliativos ainda chegam t\u00e3o pouco e t\u00e3o tarde aos pacientes?<br \/>\nPorque essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o circula principalmente entre os m\u00e9dicos. Ela chega por outras vias \u2014mat\u00e9rias, novelas, experi\u00eancias pessoais. As pessoas reconhecem quando uma morte foi bem cuidada e quando n\u00e3o foi. Mesmo sem saber o nome disso. Mas mudar essa cultura leva tempo. E, quando o cuidado paliativo entra s\u00f3 no final, n\u00e3o h\u00e1 tempo para construir v\u00ednculo nem organizar decis\u00f5es.<br \/>\nO ensino m\u00e9dico j\u00e1 mudou nesse ponto?<br \/>\nDesde 2022, o ensino de cuidados paliativos \u00e9 obrigat\u00f3rio nas faculdades de medicina. Mas ainda \u00e9 muito insuficiente. Voc\u00ea tem, \u00e0s vezes, dois per\u00edodos para ensinar algo que exige experi\u00eancia, sensibilidade e pr\u00e1tica. Isso n\u00e3o forma um profissional preparado, no m\u00e1ximo, sensibiliza.<br \/>\nA m\u00e9dica paliativista e escritora Ana Cl\u00e1udia Quintana Arantes<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nO que define uma &#8216;boa morte&#8217;?<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 uma morte bonita nem f\u00e1cil. \u00c9 uma experi\u00eancia de cuidado que respeita o que a pessoa considera digno. Isso pode significar estar em casa, estar no hospital, ter ou n\u00e3o determinados procedimentos. O importante \u00e9 que isso tenha sido conversado antes. Todo mundo vai viver e todo mundo vai morrer. A diferen\u00e7a est\u00e1 em quanto voc\u00ea consegue reconhecer o que quer e o que n\u00e3o quer.<br \/>\nPor que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil falar disso dentro das fam\u00edlias?<br \/>\nPorque as pessoas dizem \u201cn\u00e3o vamos pensar nisso\u201d, \u201cvai dar tudo certo\u201d. Mas, no fim, tudo d\u00e1 certo e voc\u00ea morre. Quando a fam\u00edlia evita essa conversa, ela est\u00e1 escolhendo sofrer mais depois. Porque vai ter que decidir sem saber o que a pessoa queria. Falar sobre a morte n\u00e3o poupa sofrimento, organiza o sofrimento.<br \/>\nA senhora j\u00e1 viu momentos que traduzem essa transforma\u00e7\u00e3o no fim da vida?<br \/>\nSim. Um paciente com tumor cerebral me disse que parecia que tinham tirado do c\u00e9rebro dele a parte que o fazia infeliz. Ele passou a demonstrar afeto, a se relacionar melhor com a fam\u00edlia, a n\u00e3o querer controlar tudo. E dizia que estava adorando ser quem se tornou. Isso \u00e9 muito marcante.<br \/>\nH\u00e1 algo de libertador em reconhecer que vamos morrer?<br \/>\nSem d\u00favida. Voc\u00ea entende que n\u00e3o precisa resolver tudo. Os problemas continuam, com ou sem voc\u00ea. Isso ajuda a dar menos peso para coisas que n\u00e3o merecem tanto sofrimento.<br \/>\nQuem deve decidir at\u00e9 onde vai um tratamento: m\u00e9dico, paciente ou fam\u00edlia?<br \/>\nOs tr\u00eas, e juntos. O m\u00e9dico traz o conhecimento t\u00e9cnico, a fam\u00edlia participa do cuidado e o paciente define o que \u00e9 limite para ele. Mas \u00e9 o paciente quem vive as consequ\u00eancias, ent\u00e3o a decis\u00e3o precisa ser centrada nele.<br \/>\nO Brasil est\u00e1 preparado para discutir diretivas antecipadas de vontade?<br \/>\nN\u00e3o. E n\u00e3o est\u00e1 preparado nem para o que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo. \u00c9 um pa\u00eds que envelhece r\u00e1pido e n\u00e3o tem estrutura suficiente para cuidar disso. Falar de diretivas \u00e9 se preparar para algo melhor, e ainda estamos lidando mal com o b\u00e1sico.<br \/>\nO que mais te incomoda na forma como o sistema de sa\u00fade lida com o fim da vida?<br \/>\nA gente discute muito o excesso de interven\u00e7\u00f5es, mas esquece que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o vive o abandono. Muitos morrem sem diagn\u00f3stico, sem tratamento, sem cuidado. Isso \u00e9 a realidade predominante.<br \/>\nA desigualdade social interfere na forma como as pessoas morrem?<br \/>\nTotalmente. Dependendo de onde voc\u00ea est\u00e1, n\u00e3o h\u00e1 acesso a nada. E a experi\u00eancia de morte passa a ser de abandono. Isso pode acontecer com qualquer um, dependendo das circunst\u00e2ncias.<br \/>\nO que, afinal, s\u00e3o cuidados paliativos \u2014e por que ainda s\u00e3o confundidos com desist\u00eancia?<br \/>\nCuidado paliativo \u00e9 prote\u00e7\u00e3o contra o sofrimento causado por uma doen\u00e7a grave e pelo tratamento dela. Ele n\u00e3o antecipa nem prolonga a morte. Ele cuida da dor, do emocional, da fam\u00edlia, do contexto social e espiritual. Ainda h\u00e1 confus\u00e3o porque muitos m\u00e9dicos acreditam que podem evitar a morte a qualquer custo, e isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<br \/>\nO que muda quando esse cuidado come\u00e7a cedo?<br \/>\nA pessoa vive melhor. Sem controle de sintomas, ela n\u00e3o recebe visitas, n\u00e3o sai, n\u00e3o aproveita. Quando o cuidado come\u00e7a antes, ela ganha tempo com qualidade.<br \/>\nDepois de tantos anos acompanhando o fim da vida, o que mudou na senhora?<br \/>\nEu entendi que n\u00e3o existe sentido em buscar um grande prop\u00f3sito. O sentido da vida \u00e9 viver. E viver com coer\u00eancia \u2014entre o que voc\u00ea diz e o que voc\u00ea faz. Isso, para mim, foi um aprendizado importante.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00e9dica paliativista e escritora Ana Cl\u00e1udia Quintana Arantes Divulga\u00e7\u00e3o Ela fala da morte sem baixar o tom, mas tamb\u00e9m sem endurecer a voz. 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