{"id":68168,"date":"2026-04-14T06:02:32","date_gmt":"2026-04-14T09:02:32","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68168"},"modified":"2026-04-14T06:02:32","modified_gmt":"2026-04-14T09:02:32","slug":"quando-o-pai-esta-ausente-o-que-revelam-as-historias-de-filhas-criadas-por-maes-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68168","title":{"rendered":"Quando o pai est\u00e1 ausente: o que revelam as hist\u00f3rias de filhas criadas por m\u00e3es solo"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/t4yw-0c-VKtQC1ToIGTBD8UvbLM=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/K\/m\/cqinjQQpqagJ8uUl4Obg\/pretty-woman-with-curly-hair-sitting-windowsill-with-adorable-baby-her-lap-giving-him-toy-candy-little-child-looking-with-interest-curiosity-motherhood-childcare-togetherness.jpg\"><br \/>     Freepik<br \/>\n\u201cEnt\u00e3o, isso provocou v\u00e1rias coisas em mim. Eu fa\u00e7o terapia h\u00e1 tr\u00eas anos. Ent\u00e3o, conforme foram acontecendo as coisas, eu fui descobrindo que uma aus\u00eancia paterna traz danos de diversas formas\u201d.<br \/>\nEsse relato, de uma jovem de 28 anos, retrata um pouco das consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas de uma realidade comum no Brasil.<br \/>\nA configura\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias mudou significativamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e o n\u00famero de lares chefiados por m\u00e3es solo cresce no pa\u00eds. Segundo o Dieese, at\u00e9 o terceiro trimestre de 2022, esse tipo de arranjo correspondia a 11,053 milh\u00f5es de fam\u00edlias, sendo 61,7% dos lares chefiados por mulheres negras e 38,3% por mulheres n\u00e3o negras.<br \/>\nMas o que acontece, do ponto de vista psicol\u00f3gico, quando a figura paterna est\u00e1 ausente desde cedo? Como essa aus\u00eancia \u00e9 vivida pelas filhas ao longo da vida?<br \/>\nEssas perguntas motivaram uma pesquisa qualitativa realizada por nossa equipe do Laborat\u00f3rio de Estudos em Fam\u00edlia e Casal, do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. O estudo foi feito com seis mulheres jovens, entre 21 e 29 anos, criadas por m\u00e3es solo na cidade do Rio de Janeiro e com pouco ou nenhum contato com seus pais. O recorte qualitativo da pesquisa permite explorar em profundidade experi\u00eancias individuais. Assim, \u00e9 poss\u00edvel acessar dimens\u00f5es subjetivas que dificilmente aparecem em levantamentos quantitativos.<br \/>\nA partir das narrativas dessas participantes, buscamos compreender n\u00e3o apenas a aus\u00eancia paterna como um fato biogr\u00e1fico, mas seus efeitos subjetivos. Isto \u00e9, como ela \u00e9 sentida, interpretada e elaborada ao longo do tempo.<br \/>\nOs relatos mostram que a aus\u00eancia do pai raramente \u00e9 vivida apenas como dist\u00e2ncia f\u00edsica. Nos relatos, ela ganha o significado de abandono, especialmente quando associada \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter sido escolhida ou desejada.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nEntre aus\u00eancia e abandono<br \/>\nUm dos principais aspectos que emergem das narrativas \u00e9 que aus\u00eancia e abandono n\u00e3o s\u00e3o experi\u00eancias id\u00eanticas, mas podem ser associados. O abandono pode ser entendido como uma recusa \u00e0 parentalidade e a aus\u00eancia como uma condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Assim, a pesquisa aponta que a aus\u00eancia f\u00edsica \u00e9 o momento inaugural e o abandono o seu efeito subjetivo.<br \/>\nCada trajet\u00f3ria apresenta nuances pr\u00f3prias. Em parte das hist\u00f3rias, as participantes nunca chegaram a conviver com o pai. Elas afirmavam n\u00e3o sentir exatamente \u201cfalta\u201d dele, pois n\u00e3o havia lembran\u00e7as compartilhadas. Ainda assim, a experi\u00eancia podia emergir em momentos sociais espec\u00edficos, como compara\u00e7\u00f5es com outras fam\u00edlias ou situa\u00e7\u00f5es escolares em que a figura paterna era esperada.<br \/>\nEm outras narrativas, o afastamento ocorreu de forma gradual. O pai inicialmente estava presente de forma irregular e, com o tempo, o afastamento passou a ser percebido como abandono emocional. Nesses casos, a dor n\u00e3o vinha apenas da aus\u00eancia, mas da percep\u00e7\u00e3o de desinteresse.<br \/>\nUma participante descreveu que come\u00e7ou a compreender sua hist\u00f3ria como abandono apenas na vida adulta. Em determinado momento, percebeu que nunca houve, de fato, um investimento afetivo cont\u00ednuo na rela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nImpactos na autoestima e nos relacionamentos<br \/>\nOs relatos sugerem que a aus\u00eancia paterna pode atingir diretamente a forma como essas mulheres constroem a pr\u00f3pria imagem e se relacionam com os outros. O abalo narc\u00edsico motivado pela aus\u00eancia paterna pode impactar na forma\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos com seus pares, conforme apontam os estudos de Kim Jones, Maia e Okamoto, bem como de Michael Diamond.<br \/>\nEm diferentes relatos, aparecem associa\u00e7\u00f5es entre dificuldades em lidar com rejei\u00e7\u00e3o amorosa e o hist\u00f3rico de abandono. O medo de ser deixada novamente aparecia como um sentimento recorrente, influenciando v\u00ednculos afetivos posteriores.<br \/>\nTamb\u00e9m emergem d\u00favidas sobre o pr\u00f3prio valor pessoal, expressas em perguntas silenciosas que atravessavam a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia. \u201cSer\u00e1 que n\u00e3o fui suficiente?\u201d ou \u201cpor que ele n\u00e3o quis ficar?\u201d.<br \/>\nDo ponto de vista psicol\u00f3gico, experi\u00eancias desse tipo podem afetar o sentimento de se reconhecer enquanto filha de algu\u00e9m, elemento importante na constru\u00e7\u00e3o da identidade. Quando a crian\u00e7a percebe a aus\u00eancia de interesse ou de cuidado por parte de um dos pais, pode surgir uma tentativa constante de atribuir sentido a essa falta, questionando o motivo do abandono afetivo: \u201ceu sou muito parecida com a minha m\u00e3e?\u201d.<br \/>\nEstrat\u00e9gias para lidar com a dor<br \/>\nA pesquisa tamb\u00e9m identificou diferentes formas de enfrentamento psicol\u00f3gico. Algumas participantes descreviam o pai de maneira distante ou racionalizada, reduzindo-o a uma figura biol\u00f3gica, sem import\u00e2ncia emocional. Outras afirmavam n\u00e3o sentir nada em rela\u00e7\u00e3o a ele, embora, ao longo da narrativa, emo\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias aparecessem.<br \/>\nEssas estrat\u00e9gias n\u00e3o devem ser vistas apenas como nega\u00e7\u00e3o, mas como modos de prote\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, como descreve Roland Chemama no Dicion\u00e1rio de Psican\u00e1lise de 1995. Em muitos casos, funcionam como recursos para preservar o equil\u00edbrio emocional diante de experi\u00eancias dif\u00edceis de elaborar.<br \/>\nAo mesmo tempo, as hist\u00f3rias mostram que o significado da aus\u00eancia paterna n\u00e3o permanece fixo. Ele pode mudar ao longo da vida.<br \/>\nQuando a experi\u00eancia ganha novos sentidos<br \/>\nMomentos de transi\u00e7\u00e3o, como iniciar terapia, entrar em novos relacionamentos ou tornar-se m\u00e3e, frequentemente reativaram reflex\u00f5es sobre a pr\u00f3pria hist\u00f3ria familiar. O mesmo aspecto tamb\u00e9m j\u00e1 foi observado em outros estudos.<br \/>\nUma participante relatou que s\u00f3 passou a reconhecer a import\u00e2ncia da figura paterna ap\u00f3s o nascimento da filha. Ao ocupar o lugar de quem cuida, come\u00e7ou a pensar sobre aquilo que n\u00e3o havia recebido.<br \/>\nEsses relatos mostram que a experi\u00eancia do abandono n\u00e3o produz efeitos iguais para todas as pessoas nem determina trajet\u00f3rias inevit\u00e1veis. Ao contr\u00e1rio, ela pode ser reinterpretada e simbolizada ao longo do tempo.<br \/>\nUma hist\u00f3ria que atravessa gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nOutro aspecto importante observado foi a repeti\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias familiares. Em alguns casos, os pr\u00f3prios pais haviam vivido experi\u00eancias de abandono ou v\u00ednculos familiares fr\u00e1geis, sugerindo que dificuldades no exerc\u00edcio da parentalidade podem atravessar gera\u00e7\u00f5es quando n\u00e3o encontram espa\u00e7o para elabora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsso n\u00e3o significa justificar o abandono, mas compreender que ele tamb\u00e9m pode estar inserido em hist\u00f3rias anteriores de rupturas afetivas. Esse aspecto tamb\u00e9m j\u00e1 foi relatado em outros estudos. Por exemplo, um trabalho com 132 homens jovens afro-americanos, residentes em zonas rurais no sul dos Estados Unidos, observou que aqueles que tinham melhores relacionamentos com seus pais desenvolveram maior envolvimento com seus filhos, especialmente com as meninas.<br \/>\nO que essa pesquisa nos ajuda a entender<br \/>\nOs resultados mostram que crescer em uma fam\u00edlia monoparental n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, um fator determinante de sofrimento psicol\u00f3gico. O elemento central parece ser menos a estrutura familiar e mais a forma como os v\u00ednculos s\u00e3o vividos.<br \/>\nA aus\u00eancia paterna pode gerar sentimentos de rejei\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a e questionamentos identit\u00e1rios, mas tamb\u00e9m pode abrir caminhos de elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e transforma\u00e7\u00e3o. As narrativas revelam sujeitos que, apesar das feridas, constroem sentidos pr\u00f3prios para suas hist\u00f3rias.<br \/>\nOuvir essas experi\u00eancias ajuda a ampliar o debate p\u00fablico sobre parentalidade, cuidado e responsabilidade afetiva, mostrando que a presen\u00e7a parental n\u00e3o se define apenas por la\u00e7os biol\u00f3gicos, mas sobretudo pelo reconhecimento emocional e pelo desejo de v\u00ednculo.<br \/>\nNaytiara da Silva de Almeida Rodrigues recebe financiamento da CAPES.<br \/>\nProfessora Associada do Departamento de Psicologia da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro. Andrea Seixas Magalh\u00e3es recebe financiamento da FAPERJ e CNPq.<br \/>\nRebeca Nonato Machado n\u00e3o presta consultoria, trabalha, possui a\u00e7\u00f5es ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organiza\u00e7\u00e3o que poderia se beneficiar com a publica\u00e7\u00e3o deste artigo e n\u00e3o revelou nenhum v\u00ednculo relevante al\u00e9m de seu cargo acad\u00eamico.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Freepik \u201cEnt\u00e3o, isso provocou v\u00e1rias coisas em mim. Eu fa\u00e7o terapia h\u00e1 tr\u00eas anos. Ent\u00e3o, conforme foram acontecendo as coisas, eu fui descobrindo que uma aus\u00eancia paterna traz danos de diversas formas\u201d. Esse relato, de uma jovem de 28 anos, retrata um pouco das consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas de uma realidade comum no Brasil. 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