{"id":68325,"date":"2026-04-17T06:01:20","date_gmt":"2026-04-17T09:01:20","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68325"},"modified":"2026-04-17T06:01:20","modified_gmt":"2026-04-17T09:01:20","slug":"industria-do-tabaco-usa-mensagens-de-responsabilidade-social-para-que-produtos-parecam-menos-perigosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68325","title":{"rendered":"Ind\u00fastria do tabaco usa mensagens de responsabilidade social para que produtos pare\u00e7am menos perigosos"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/ZqLxrCoaPgTZCLDNugsqSzBLYIQ=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/N\/B\/h2TDV8TzuD06WZLBrGqg\/adobestock-292909903.jpeg\"><br \/>     Lobby do tabaco diz que o vaping est\u00e1 substituindo o fumo entre os jovens; an\u00e1lise detalhada conta outra hist\u00f3ria<br \/>\nAdobe Stock<br \/>\nUm elixir letal \u00e9 menos t\u00f3xico se for feito com ingredientes \u201cnaturais\u201d? Ou se for produzido por um fabricante que prioriza a sustentabilidade e monitora seu impacto ambiental?<br \/>\nPor mais engra\u00e7ado que isso possa parecer \u00e0 primeira vista, n\u00e3o \u00e9 brincadeira. Se voc\u00ea visse e ouvisse declara\u00e7\u00f5es como essas vindas de uma empresa de tabaco, poderia sair com a impress\u00e3o de que os cigarros dela s\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o mais segura \u2014 o que, claro, n\u00e3o seria verdade.<br \/>\nDo marketing de cigarro de palhaao uso de s\u00edmbolos e endossosque passam uma imagem de preocupa\u00e7\u00e3o com o meio ambiente, os fabricantes de cigarros querem que o p\u00fablico acredite que seus produtos fazem menos mal do que d\u00e9cadas de evid\u00eancia cient\u00edfica mostram.<br \/>\nDessa maneira, a ind\u00fastria do tabaco continua tentando influenciar a forma como pensamos, e agora h\u00e1 ainda mais provas disso.<br \/>\nNossa equipe, formada por pesquisadoras da University of Nevada, Reno, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto de Controle Global do Tabaco da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, testou se v\u00eddeos curtos com mensagens sobre valores empresariais e integridade poderiam levar as pessoas a enxergar uma empresa de tabaco de forma mais simp\u00e1tica, ou seus produtos como menos nocivos.<br \/>\nA resposta foi um claro \u201csim\u201d.<br \/>\nIsso \u00e9 preocupante. Pela primeira vez em quase duas d\u00e9cadas, o Brasil registrou aumento do tabagismo entre adultos e as exporta\u00e7\u00f5es de tabaco tamb\u00e9m est\u00e3o em alta. Para piorar, o pa\u00eds tem regulamenta\u00e7\u00f5es r\u00edgidas sobre propaganda, promo\u00e7\u00e3o e patroc\u00ednio de produtos de tabaco, mas essas leis n\u00e3o tratam de forma expl\u00edcita a promo\u00e7\u00e3o p\u00fablica da chamada Responsabilidade Social Corporativa (RSC) da ind\u00fastria do tabaco.<br \/>\nA RSC \u00e9 uma estrat\u00e9gia usada para mostrar que uma empresa n\u00e3o se preocupa apenas com o lucro, mas tamb\u00e9m com seu impacto na sociedade. Na pr\u00e1tica, isso acontece quando a empresa divulga a\u00e7\u00f5es associadas a valores sociais, ambientais, \u00e9ticos e\/ou econ\u00f4micos. Por exemplo, ao adotar medidas para reduzir a polui\u00e7\u00e3o e compensar danos ao meio ambiente, ou ao garantir que suas mat\u00e9rias-primas sejam obtidas de forma \u00e9tica, sem uso de trabalho infantil ou escravo em sua cadeia de produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nPromo\u00e7\u00e3o indireta<br \/>\nO fato de a RSC n\u00e3o estar inclu\u00edda nas proibi\u00e7\u00f5es de propaganda, promo\u00e7\u00e3o e patroc\u00ednio de tabaco abre espa\u00e7o para que as empresas usem essa pol\u00edtica como uma forma de promo\u00e7\u00e3o corporativa indireta. Isso melhora sua imagem e molda a forma como os consumidores pensam sobre seus produtos \u2014 inclusive de maneiras que n\u00e3o refletem os riscos reais.<br \/>\nPara entender essas implica\u00e7\u00f5es, realizamos uma pesquisa on-line no Brasil com mais de 4.000 adultos. Cada participante assistiu a um de dois v\u00eddeos curtos e realistas que produzimos sobre uma empresa fict\u00edcia de tabaco chamada \u201cCruzeiro do Sul\u201d.<br \/>\nUm v\u00eddeo focava nos neg\u00f3cios e nas finan\u00e7as da empresa. O outrofocava na RSC \u2014 ou seja, nas mensagens da Cruzeiro do Sul sobre seus valores, suas pr\u00e1ticas empresariais voltadas para a comunidade e seu compromisso com a responsabilidade ambiental. A apar\u00eancia e o tom dos dois v\u00eddeos foram pensados para se aproximar de an\u00fancios reais da ind\u00fastria do tabaco no Brasil, refletindo a forma como mensagens reais de RSC s\u00e3o apresentadas ao p\u00fablico. Cada participante foi designado aleatoriamente para assistir a apenas um dos v\u00eddeos.<br \/>\nOs participantes responderam a perguntas sobre suas percep\u00e7\u00f5es da empresa e sobre os riscos associados aos seus cigarros, antes e depois de assistir ao v\u00eddeo que lhes foi atribu\u00eddo.<br \/>\nOs resultados foram significativos.<br \/>\nPessoas que assistiram ao v\u00eddeo com foco em RSC tiveram mais chance de ver a empresa de forma positiva. Tamb\u00e9m tiveram mais chance de acreditar que os cigarros da empresa eram menos nocivos do que os de marcas concorrentes. Esses efeitos foram especialmente percept\u00edveis entre mulheres e pessoas que n\u00e3o fumam.<br \/>\nOs riscos do tabaco e os benef\u00edcios para quem decide parar de fumar<br \/>\nArte\/g1<br \/>\n\u201cHalo de sa\u00fade\u201d<br \/>\nEsse tipo de percep\u00e7\u00e3o positiva sem fundamento \u00e0s vezes \u00e9 descrito como um \u201chalo de sa\u00fade\u201d \u2014 um termo usado quando associa\u00e7\u00f5es positivas s\u00e3o ligadas, de forma inconsciente, a um produto, servi\u00e7o ou marca, possivelmente com base em informa\u00e7\u00f5es incompletas ou imprecisas (como confundir \u201corg\u00e2nico\u201d com \u201csaud\u00e1vel\u201d, mesmo que um alimento ultraprocessado possa, tecnicamente, ainda ser org\u00e2nico).<br \/>\nSe fosse avaliada pelo departamento de publicidade de uma empresa de tabaco, essa campanha poderia ser considerada um sucesso na gera\u00e7\u00e3o de sentimentos positivos. Mas, do ponto de vista da sa\u00fade p\u00fablica e da efic\u00e1cia das pol\u00edticas, essa percep\u00e7\u00e3o equivocada \u00e9 preocupante.<br \/>\nAs alega\u00e7\u00f5es de RSC podem influenciar a forma como as pessoas percebem os riscos do cigarro para a sa\u00fade e lev\u00e1-las a tomar decis\u00f5es com base em uma ideia errada desses riscos. Pesquisas mostram que mensagens com apelo social,\u201cnatural\u201d e ambientalpodem fazer os cigarros parecerem menos nocivos do que realmente s\u00e3o. Isso \u00e9 grave porque, embora essas mensagens pare\u00e7am positivas \u00e0 primeira vista, podem levar a consequ\u00eancias s\u00e9rias e at\u00e9 fatais.<br \/>\nNesse caso, um dos efeitos \u00e9 enfraquecer justamente o prop\u00f3sito das restri\u00e7\u00f5es existentes sobre propaganda de tabaco no Brasil: reduzir o apelo dos produtos de tabaco e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, prevenir e reduzir o uso de tabaco.<br \/>\n174 mil mortes<br \/>\nA Conven\u00e7\u00e3o-Quadro para o Controle do Tabaco da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, da qual o Brasil \u00e9 parte, rotula a RSC da ind\u00fastria do tabaco como \u201cuma contradi\u00e7\u00e3o inerente\u201d, porque uma empresa cujos produtos prejudicam a sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o pode afirmar com credibilidade que a protege.<br \/>\nNo Brasil, o uso de tabaco est\u00e1 ligado a cerca de 174.000 mortes por ano.<br \/>\nSe as pessoas passam a acreditar que os cigarros de uma empresa s\u00e3o menos nocivos do que os de outra, podem ficar mais dispostas a experimentar esses produtos ou continuar fumando sob uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de risco reduzido. Esse \u00e9 o problema inerente de permitir que mensagens de RSC escapem pelas lacunas regulat\u00f3rias.<br \/>\nHoje, as empresas de tabaco podem usar mensagens de RSC como uma forma indireta de promover seus produtos aos consumidores e influenciar a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Brasil. Isso molda percep\u00e7\u00f5es, constr\u00f3i confian\u00e7a e, no fim, faz com que produtos prejudiciais pare\u00e7am menos perigosos do que realmente s\u00e3o.<br \/>\nTodas essas evid\u00eancias apontam para a necessidade de regras mais r\u00edgidas no Brasil sobre como as empresas de tabaco se comunicam com o p\u00fablico e influenciam a percep\u00e7\u00e3o dos consumidores. Isso inclui proibir explicitamente as atividades e mensagens de RSC como parte das pol\u00edticas abrangentes de proibi\u00e7\u00e3o de propaganda, promo\u00e7\u00e3o e patroc\u00ednio de tabaco. Fazer isso n\u00e3o s\u00f3 estaria alinhado \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro, como tamb\u00e9m interromperia uma poderosa ferramenta de marketing que causa danos.<br \/>\nPara que as proibi\u00e7\u00f5es de publicidade funcionem como previsto, fechar a brecha da RSC \u00e9 uma forma de reduzir a desinforma\u00e7\u00e3o, desencorajar o fumo e ajudar a evitar que pessoas \u2014 principalmente jovens brasileiros \u2014 comecem a fumar. Caso contr\u00e1rio, as empresas de tabaco continuar\u00e3o usando esse m\u00e9todo para encobrir a verdade sobre seus produtos letais.<br \/>\nGraziele Grilo recebe financiamento da Bloomberg Philanthropies como parte da Iniciativa Bloomberg para Redu\u00e7\u00e3o do Uso de Tabaco.<br \/>\nLuciana Correia Borges recebe financiamento da Fulbright.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lobby do tabaco diz que o vaping est\u00e1 substituindo o fumo entre os jovens; an\u00e1lise detalhada conta outra hist\u00f3ria Adobe Stock Um elixir letal \u00e9 menos t\u00f3xico se for feito com ingredientes \u201cnaturais\u201d? Ou se for produzido por um fabricante que prioriza a sustentabilidade e monitora seu impacto ambiental? 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