{"id":68479,"date":"2026-04-20T18:04:33","date_gmt":"2026-04-20T21:04:33","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68479"},"modified":"2026-04-20T18:04:33","modified_gmt":"2026-04-20T21:04:33","slug":"minha-avo-mutilou-minha-filha-as-escondidas-com-apenas-6-meses-o-ciclo-da-mutilacao-genital-que-mulheres-colombianas-lutam-para-encerrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68479","title":{"rendered":"&#8216;Minha av\u00f3 mutilou minha filha \u00e0s escondidas com apenas 6 meses&#8217;: o ciclo da mutila\u00e7\u00e3o genital que mulheres colombianas lutam para encerrar"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/E6R0Yow3b2G7GUDZNN9C6kdkWnE=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/g\/m\/YG3Z9FTeA9ILVXP40luw\/7b63b010-0743-11f1-b5e2-dd58fc65f0f6.jpg.webp\"><br \/>     Para vidas como a de Carla Qui\u00f1onez, a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina na comunidade ember\u00e1 \u00e9 um ciclo dif\u00edcil de interromper<br \/>\nEquipe de Jornalismo Visual da BBC Am\u00e9ricas<br \/>\nUma menina n\u00e3o merece a dor da mutila\u00e7\u00e3o do seu corpo.<br \/>\nMinha filha tinha seis meses quando minha av\u00f3 fez nela o procedimento. Fiquei sabendo depois.<br \/>\nEu a recebi com febre, inchada e sangrando.<br \/>\nQuestionei minha av\u00f3 e ela respondeu que era normal e que eu n\u00e3o poderia contar para ningu\u00e9m, mas meu ex-marido ficou sabendo.<br \/>\nQuando viu a menina t\u00e3o mal, ele pensou que eu tivesse dado permiss\u00e3o. E me agrediu.<br \/>\nMinha filha chorava. Quisemos lev\u00e1-la para um centro de sa\u00fade, mas era longe e estava chovendo.<br \/>\nMinha m\u00e3e tentou ajudar com algumas plantas. Ela \u00e9 parteira, mas \u00e9 contra a mutila\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m questionou minha av\u00f3.<br \/>\nEla n\u00e3o fez caso. Disse que os homens zombam das mulheres que t\u00eam clit\u00f3ris.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nA mutila\u00e7\u00e3o genital feminina na Col\u00f4mbia<br \/>\nCarla Qui\u00f1onez* conta que sua filha, hoje com quatro anos, sofre dores e infec\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias com frequ\u00eancia. Estes s\u00e3o sintomas comuns das sobreviventes de mutila\u00e7\u00e3o genital feminina.<br \/>\nQui\u00f1onez tem 30 anos. Ela faz parte da comunidade ind\u00edgena ember\u00e1 e trabalha para erradicar a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina na Col\u00f4mbia, o \u00fanico pa\u00eds que reconhecidamente ainda registra esta pr\u00e1tica na Am\u00e9rica Latina.<br \/>\nEla viaja por territ\u00f3rios remotos, realiza oficinas, questiona autoridades ind\u00edgenas conservadoras e enfrenta amea\u00e7as devido ao seu trabalho.<br \/>\nAo lado de uma equipe de companheiras e congressistas, sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para que uma lei contra a mutila\u00e7\u00e3o possa ser aprovada no pa\u00eds nas pr\u00f3ximas semanas.<br \/>\nMulher protesta contra a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina na G\u00e2mbia, em 2024<br \/>\nMUHAMADOU BITTAYE\/AFP via Getty Images<br \/>\nA mutila\u00e7\u00e3o genital feminina \u00e9 a remo\u00e7\u00e3o total ou parcial dos genitais externos femininos e outras les\u00f5es causadas a estes \u00f3rg\u00e3os, n\u00e3o por motivos m\u00e9dicos.<br \/>\nA Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) calcula que mais de 300 milh\u00f5es de meninas e mulheres vivas atualmente tenham sofrido esta pr\u00e1tica.<br \/>\nA maioria dos pa\u00edses onde ela \u00e9 praticada se encontra no oeste, leste e nordeste da \u00c1frica, al\u00e9m de alguns pa\u00edses da \u00c1sia e do Oriente M\u00e9dio.<br \/>\nA mutila\u00e7\u00e3o genital feminina pode causar hemorragia, problemas urin\u00e1rios, menstruais e no parto, al\u00e9m de cistos, infec\u00e7\u00f5es, aumento do risco da mortalidade neonatal e dificuldades para vivenciar o prazer sexual.<br \/>\nA origem da pr\u00e1tica na Col\u00f4mbia, verificada entre comunidades ind\u00edgenas ember\u00e1s e afrocolombianas, \u00e9 motivo de diversas teorias n\u00e3o confirmadas.<br \/>\nO que se sabe \u00e9 que ela ocorre em comunidades marginalizadas e isoladas. Muitas ficam a horas a p\u00e9 de hospitais, escolas e rodovias.<br \/>\nDados fornecidos pelo Congresso colombiano indicam que, em 2025, foram registrados 26 casos at\u00e9 o m\u00eas de outubro. Em 2024, foram relatados 54 e, em 2023, 91 casos.<br \/>\nA maior incid\u00eancia ocorre no departamento de Risaralda, no noroeste do pa\u00eds. Ali vive a comunidade de Qui\u00f1onez.<br \/>\nAutoridades, m\u00e9dicos e ember\u00e1s contr\u00e1rios \u00e0 pr\u00e1tica afirmam que o n\u00famero de casos \u00e9 maior que o registrado.<br \/>\n&#8216;As meninas morrem mais do que os meninos&#8217;<br \/>\nPraticamente todas as meninas que nascem em certos territ\u00f3rios passam por isso.<br \/>\n\u00c0s vezes, n\u00e3o se consegue levar uma pessoa doente ao hospital porque os assentamentos s\u00e3o isolados. Uma menina com mutila\u00e7\u00e3o, se perder muito sangue, n\u00e3o chega.<br \/>\nSempre me chamou a aten\u00e7\u00e3o que morrem mais meninas ao nascer do que meninos. S\u00f3 fui entender muitos anos depois, quando comecei a me sensibilizar com o assunto e compreender que estava errado.<br \/>\nVi seis meninas morrerem sem motivo aparente. Lembro-me de uma priminha minha, cujo parto foi feito pela minha m\u00e3e. Ela nasceu bem, mas morreu com tr\u00eas dias.<br \/>\nPerguntei para minha m\u00e3e, que me respondeu que ela havia morrido de &#8220;jai&#8221;, um mal ancestral. N\u00e3o me deu mais explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAgora, acredito que todas essas meninas que morreram assim, de &#8220;jai&#8221;, na verdade morreram por complica\u00e7\u00f5es da mutila\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora, elas queimam o clit\u00f3ris. Antes, cortavam com uma faca. Minha av\u00f3 tamb\u00e9m praticou isso com a minha irm\u00e3. Ela quase morreu.<br \/>\nSeu corpo continua afetado, mas ela \u00e9 muito calada. N\u00e3o conta.<br \/>\nSeja para normalizar, por vergonha ou por medo, \u00e9 dif\u00edcil nos abrirmos.<br \/>\nPediatra na linha de frente da mutila\u00e7\u00e3o<br \/>\nA OMS identifica quatro tipos de mutila\u00e7\u00e3o genital feminina.<br \/>\nNo primeiro, a glande do clit\u00f3ris \u00e9 total ou parcialmente removida. Trata-se da sua faixa externa e sens\u00edvel. Tamb\u00e9m \u00e9 removido o prep\u00facio ou capuz, uma dobra que rodeia a glande.<br \/>\nO segundo tipo inclui a remo\u00e7\u00e3o dos pequenos l\u00e1bios, com ou sem a remo\u00e7\u00e3o dos grandes.<br \/>\nO terceiro tamb\u00e9m \u00e9 chamado de infibula\u00e7\u00e3o. Ele apresenta estreitamento da abertura vaginal.<br \/>\nO quarto tipo inclui qualquer outra les\u00e3o dos genitais femininos sem finalidades m\u00e9dicas.<br \/>\nNo Hospital San Jorge de Pereira, em Risaralda, a pediatra Diana Ramos Mosquera lida diariamente com muito mais casos al\u00e9m dos detectados.<br \/>\nEla trabalha no epicentro do registro de casos oficiais, mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos outros casos exclu\u00eddos dos registros, que ela define como &#8220;a ponta do iceberg&#8221;.<br \/>\nRamos Mosquera n\u00e3o acredita que o volume de mutila\u00e7\u00f5es hoje tenha crescido, mas sim que tenha aumentado o n\u00famero de especialistas que examinam as meninas quando h\u00e1 outras doen\u00e7as.<br \/>\n&#8220;Quando elas chegam mutiladas, observamos uma cicatriz&#8221;, explica ela. &#8220;\u00c0s vezes, \u00e9 dif\u00edcil avaliar qual mutila\u00e7\u00e3o elas sofreram.&#8221;<br \/>\n&#8220;Pelos relatos dos ember\u00e1s, sabemos que \u00e9 costume que ocorra ap\u00f3s o nascimento, com uma faca quente. Observamos queimaduras e mutila\u00e7\u00f5es do tipo 1 e 2&#8221;, descreve a pediatra.<br \/>\nEla recorda uma menina que chegou com a abertura vaginal fechada. Provavelmente, ela n\u00e3o teria por onde menstruar, nem poderia ter rela\u00e7\u00f5es sexuais na idade adulta.<br \/>\n&#8220;Foi preciso reconstruir&#8221;, conta Ramos.<br \/>\nA pediatra Diana Ramos pesquisa mais sobre o fen\u00f4meno para melhorar a prepara\u00e7\u00e3o das suas colegas para lidar com casos de mutila\u00e7\u00e3o genital feminina<br \/>\nDiana Ramos\/Foto de David Jim\u00e9nez<br \/>\nDesde que a pediatra descobriu um caso quatro anos atr\u00e1s, ela divulga o fen\u00f4meno e conscientiza suas colegas.<br \/>\nEla denuncia que sua comunidade n\u00e3o fornece informa\u00e7\u00f5es suficientes para identificar a mutila\u00e7\u00e3o e quais a\u00e7\u00f5es tomar em seguida.<br \/>\nRamos considera a pr\u00e1tica uma forma de viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero, com consequ\u00eancias para toda a vida e que deve ser eliminada com a educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Existem m\u00e3es que nem mesmo sabem que suas filhas foram mutiladas. N\u00e3o \u00e9 justific\u00e1vel, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode esquecer o lado cultural do tema, pois alguns membros da comunidade acreditam que n\u00e3o est\u00e3o fazendo mal&#8221;, explica ela.<br \/>\n&#8216;A cultura n\u00e3o mata&#8217;<br \/>\nCom cerca de 300 mil membros, a Grande Na\u00e7\u00e3o Ember\u00e1 \u00e9 uma das comunidades ind\u00edgenas mais numerosas da Col\u00f4mbia. Tamb\u00e9m est\u00e1 presente no Equador e no Panam\u00e1.<br \/>\nEntre os grupos que praticam a mutila\u00e7\u00e3o, detectada entre ember\u00e1s chami, katio e dobid\u00e1, muitos membros acreditam que ela seja parte da sua cultura ancestral. Eles a chamam de &#8220;cura&#8221;.<br \/>\nAv\u00f3s e parteiras, por exemplo, receiam, se o clit\u00f3ris n\u00e3o for cortado, que dele nas\u00e7a um p\u00eanis.<br \/>\nE, em uma sociedade patriarcal, outros acham que uma mulher com um \u00f3rg\u00e3o que lhe d\u00e1 prazer tende a ser prom\u00edscua e uma m\u00e1 esposa. \u00c9 um ciclo geracional sem fim, que muitas mulheres desejam encerrar.<br \/>\nJuliana Domico \u00e9 consultora da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos da Grande Na\u00e7\u00e3o Ember\u00e1 da Col\u00f4mbia. Ela acredita que a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina \u00e9 fruto do desconhecimento da anatomia e do machismo, n\u00e3o da cultura.<br \/>\nJuliana Domico nega que a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina fa\u00e7a parte da cultura ancestral ember\u00e1<br \/>\nJos\u00e9 Carlos Cueto\/BBC News Mundo<br \/>\nUma das teorias sobre a chegada da mutila\u00e7\u00e3o genital feminina \u00e0 Col\u00f4mbia indica que ela teria vindo na \u00e9poca colonial, com pessoas escravizadas de pa\u00edses africanos onde ela era praticada.<br \/>\nIsso talvez explique sua preval\u00eancia nos departamentos de Risaralda, Choc\u00f3 e Valle del Cauca, que coincidem ou se delimitam com regi\u00f5es afrocolombianas.<br \/>\nDomico acrescenta uma teoria proveniente da heran\u00e7a oral ember\u00e1.<br \/>\n&#8220;Acredita-se que, centenas de anos atr\u00e1s, tenha nascido uma menina intersexual (uma condi\u00e7\u00e3o que pode se manifestar com a presen\u00e7a de genitais masculinos e femininos em um indiv\u00edduo). E, desde ent\u00e3o, surgiu a fobia do clit\u00f3ris.&#8221;<br \/>\nDomico viaja para detectar casos em outros departamentos e esclarecer a magnitude e as ra\u00edzes desta pr\u00e1tica. Ela defende que isso n\u00e3o faz parte da sua cultura.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s somos as nossas roupas, artesanato, dan\u00e7as e idioma, n\u00e3o uma pr\u00e1tica que mata. A cultura n\u00e3o mata.&#8221;<br \/>\nAmea\u00e7as e rep\u00fadios<br \/>\nV\u00edtimas de mutila\u00e7\u00e3o genital feminina relatam revitimiza\u00e7\u00e3o por parte das autoridades e dos m\u00e9dicos nas regi\u00f5es urbanas da Col\u00f4mbia<br \/>\nEquipe de Jornalismo Visual da BBC Am\u00e9ricas<br \/>\nMeu ex-marido e eu nos separamos depois que ele me agrediu ao saber da mutila\u00e7\u00e3o genital da minha filha.<br \/>\nEspera-se que esta quest\u00e3o fique entre as mulheres e que os homens n\u00e3o fiquem sabendo, mas existem autoridades ind\u00edgenas masculinas que colocam obst\u00e1culos para se conversar sobre o assunto.<br \/>\nFui amea\u00e7ada por divulgar e conscientizar as pessoas de que isso deve acabar.<br \/>\nCom algumas mulheres, as parteiras e mais idosas, tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil. T\u00eam surgido discuss\u00f5es, mas n\u00e3o podemos renunciar ao di\u00e1logo.<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil porque muitos ember\u00e1s n\u00e3o falam espanhol e, \u00e0s vezes, as conversas s\u00f3 ocorrem com os homens. Isso nos limita na comunidade e no contato com os m\u00e9dicos.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, centenas de ember\u00e1s deslocados pela viol\u00eancia passaram a viver em ref\u00fagios de Bogot\u00e1. Nestes, tamb\u00e9m j\u00e1 foram relatados casos de mutila\u00e7\u00e3o, o que vem aumentando a estigmatiza\u00e7\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o contra n\u00f3s.<br \/>\nTive m\u00e1s experi\u00eancias nos hospitais da capital.<br \/>\nQuando chego com minha filha com complica\u00e7\u00f5es da mutila\u00e7\u00e3o, sinto que, \u00e0s vezes, eles nem sabem o que \u00e9. J\u00e1 aconteceu com outras mulheres.<br \/>\nDevido \u00e0 viol\u00eancia nos seus territ\u00f3rios, centenas de ind\u00edgenas ember\u00e1s se refugiaram em Bogot\u00e1 nos \u00faltimos anos<br \/>\nJuancho Torres\/Anadolu via Getty Images<br \/>\nCerta vez, levei minha filha com febre causada por infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria. Quando a diagnosticaram, a enfermeira me disse que eu merecia por ser selvagem. Ela nem mesmo conhecia a minha hist\u00f3ria.<br \/>\nExistem pessoas que acreditam que n\u00e3o falamos espanhol e que desconhecemos o que \u00e9 um direito. Fui amea\u00e7ada at\u00e9 de me tirarem a menina, de a levarem para o acolhimento familiar.<br \/>\nDesde ent\u00e3o, prefiro n\u00e3o levar minha filha ao hospital. Eu a trato com plantas e medicamentos. N\u00e3o me separo dela.<br \/>\nLei contra a mutila\u00e7\u00e3o<br \/>\nA mutila\u00e7\u00e3o genital feminina na Col\u00f4mbia s\u00f3 chegou \u00e0 imprensa em 2007, quando ocorreu a morte de uma beb\u00ea ap\u00f3s ser mutilada.<br \/>\nEsta trag\u00e9dia gerou um movimento incipiente por parte da comunidade ember\u00e1 e das autoridades colombianas, ao lado de outras ag\u00eancias internacionais, que defendem o abandono da pr\u00e1tica.<br \/>\nSomente depois de 19 anos e de v\u00e1rias campanhas pedag\u00f3gicas entre as comunidades, a C\u00e2mara dos Deputados da Col\u00f4mbia aprovou, em 2025, um projeto de lei para prevenir, atender e erradicar o fen\u00f4meno, que ainda aguarda a aprova\u00e7\u00e3o do Senado para ser transformado em lei.<br \/>\n\u00c9 um caminho repleto de desafios.<br \/>\n&#8220;Como os casos se concentram em certas comunidades, especialmente em Risaralda, foi dif\u00edcil unificar uma rea\u00e7\u00e3o institucional&#8221;, explica \u00e0 BBC News Mundo (o servi\u00e7o em espanhol da BBC) a parlamentar Carolina Giraldo, de Risaralda, defensora da aprova\u00e7\u00e3o da lei.<br \/>\n&#8220;Mas as discuss\u00f5es se aceleraram depois que foram noticiadas mutila\u00e7\u00f5es no Parque Nacional de Bogot\u00e1&#8221;, prossegue Giraldo, &#8220;quando centenas de ember\u00e1s deslocados pela viol\u00eancia passaram meses ali acampados.&#8221;<br \/>\nA parlamentar tamb\u00e9m responsabiliza o complexo fen\u00f4meno da falta de registros das mutila\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;Devido ao isolamento, nem sequer sabemos quantas meninas nascem, quantas morrem e quantas destas morrem por mutila\u00e7\u00e3o. S\u00f3 s\u00e3o registrados os casos que chegam aos hospitais ou institui\u00e7\u00f5es&#8221;, explica ela.<br \/>\nPor fim, legisladores e pol\u00edticos discutem se a lei deve castigar ou prevenir. Giraldo aposta na segunda op\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;O principal \u00e9 salvar vidas. Se penalizarmos as av\u00f3s e as parteiras, \u00e9 menos prov\u00e1vel que elas levem as crian\u00e7as ao hospital. Mais meninas ir\u00e3o morrer.&#8221;<br \/>\n&#8216;N\u00e3o posso fugir dessa conversa&#8217;<br \/>\nCada vez mais mulheres est\u00e3o dispostas a mudar as coisas. Elas reconhecem que a mutila\u00e7\u00e3o \u00e9 algo ruim.<br \/>\nAlgumas delas n\u00e3o receberam educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o falam ou n\u00e3o escrevem em espanhol. Mas elas entendem como \u00e9 importante.<br \/>\nElas falam umas \u00e0s outras que a mutila\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria existir.<br \/>\nTamb\u00e9m foi bonito ver, certa vez, uma av\u00f3 refletir sobre a &#8216;cura&#8217; depois que a praticou com suas netas. Ela disse que fazia sem maldade, que s\u00f3 tentava fazer com que os homens n\u00e3o criticassem suas netas.<br \/>\nConversar sobre uma vida diferente \u00e9 dif\u00edcil. As mulheres sem clit\u00f3ris n\u00e3o imaginam outro corpo. N\u00e3o se recordam de nada diferente.<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil perguntar a elas como seriam suas vidas se n\u00e3o tivessem sido mutiladas. Elas respondem quase com indiferen\u00e7a, dizendo que suas vidas continuariam sendo &#8220;normais&#8221;.<br \/>\nTamb\u00e9m ser\u00e1 dif\u00edcil o dia em que eu precisar falar com minha filha, mas n\u00e3o posso fugir dessa conversa.<br \/>\nTodas n\u00f3s merecemos conhecer e falar sem vergonha dos nossos corpos.<br \/>\n* Carla Qui\u00f1onez \u00e9 um pseud\u00f4nimo criado para proteger a identidade da testemunha e evitar que ela sofra amea\u00e7as e revitimiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n* Com ilustra\u00e7\u00f5es de Daniel Arce, da Equipe de Jornalismo Visual da BBC Am\u00e9ricas.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para vidas como a de Carla Qui\u00f1onez, a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina na comunidade ember\u00e1 \u00e9 um ciclo dif\u00edcil de interromper Equipe de Jornalismo Visual da BBC Am\u00e9ricas Uma menina n\u00e3o merece a dor da mutila\u00e7\u00e3o do seu corpo. Minha filha tinha seis meses quando minha av\u00f3 fez nela o procedimento. 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