{"id":68828,"date":"2026-04-28T06:01:44","date_gmt":"2026-04-28T09:01:44","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68828"},"modified":"2026-04-28T06:01:44","modified_gmt":"2026-04-28T09:01:44","slug":"o-massacre-dos-idosos-como-doenca-do-filho-de-chefe-de-faccao-no-haiti-levou-a-maior-chacina-do-seculo-nas-americas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=68828","title":{"rendered":"&#8216;O massacre dos idosos&#8217;: como doen\u00e7a do filho de chefe de fac\u00e7\u00e3o no Haiti levou \u00e0 maior chacina do s\u00e9culo nas Am\u00e9ricas"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/F5dtsSxCrfliXir6RYykJ5CUGXM=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/U\/0\/agBxsSRoyATPwyBc4qWw\/017c7f50-3f17-11f1-80a9-03674e4a073c.png.webp\"><br \/>     Esta reportagem faz parte do projeto &#8220;A Queda de Porto Pr\u00edncipe&#8221;, da produtora Drom\u00f3manos e da organiza\u00e7\u00e3o Global Initiative.<br \/>\n&#x26a0;&#xfe0f; Importante: esta reportagem traz descri\u00e7\u00f5es de sequestros e assassinatos que podem ser perturbadoras para alguns leitores.<br \/>\nMulheres choram no enterro coletivo de oito v\u00edtimas de um ataque com drone. O alvo era um suposto chefe de quadrilha de Porto Pr\u00edncipe, no Haiti, mas o ataque tirou a vida de 11 civis no dia 20 de setembro de 2025<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nO pequeno pr\u00edncipe Benson est\u00e1 doente.<br \/>\nSeu pai \u00e9 o rei Micanor, autoproclamado \u00faltimo monarca do Caribe. Ele \u00e9 o senhor dos cais de Porto Pr\u00edncipe, &#8220;senhor da guerra&#8221; do bairro de Wharf J\u00e9r\u00e9mie e da Viv Ansanm, a confedera\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es criminosas que controla a capital do Haiti.<br \/>\nEle est\u00e1 certo de ter descoberto o motivo. Existem na \u00e1rea homens-lobos, uma esp\u00e9cie de feiticeiros anci\u00e3os. Eles t\u00eam o poder de se transfigurar em animais para atacar \u00e0 noite e uma capacidade especial de fazer adoecer e matar crian\u00e7as.<br \/>\nO rei decide, ent\u00e3o, que, para salvar seu filho, suas hostes precisam sair \u00e0 ca\u00e7a desses feiticeiros.<br \/>\nS\u00e9bastien \u00e9 um homem forte e r\u00fastico de 32 anos. Em uma das casas, ele est\u00e1 debaixo da cama da sua m\u00e3e e observa dois homens a levarem embora.<br \/>\nEm outra, a av\u00f3 de Evelyn diz: &#8220;Que ningu\u00e9m fale nada. Escondam-se, todos.&#8221; A anci\u00e3 abre a porta e \u00e9 raptada.<br \/>\nO av\u00f4 de Sheila tamb\u00e9m \u00e9 levado embora. Quando ela sai para averiguar sobre seu paradeiro, o anci\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 morto.<br \/>\nMan\u00fa tamb\u00e9m procura seus pais, que n\u00e3o atendem o telefone. No dia seguinte, ele descobre que seu pai foi desmembrado a golpes de fac\u00e3o.<br \/>\nOs bandidos de Micanor matam ainda o tio e o primo de Dustin. Ele conta a hist\u00f3ria com dois buracos de bala no corpo.<br \/>\nO pr\u00edncipe Benson Altes morre na madrugada de 7 de dezembro de 2024. Ele tinha seis anos.<br \/>\nDurante seis dias, seu pai tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos. Ele os corta com fac\u00e3o, faz os corpos desaparecerem com fogo ou os joga no fundo do mar.<br \/>\nA busca por sobreviventes<br \/>\nV\u00eddeos em alta no g1<br \/>\nNo final de fevereiro de 2025, tr\u00eas meses depois do massacre em Porto Pr\u00edncipe, consigo agendar uma reuni\u00e3o com a advogada Rosie Auguste Duc\u00e9na, chefe da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH, na sigla em franc\u00eas). Mas chegar at\u00e9 l\u00e1 \u00e9 complicado.<br \/>\nA capital haitiana \u00e9 a cidade mais violenta do pa\u00eds mais pobre e violento do continente americano. E 90% de Porto Pr\u00edncipe est\u00e1, h\u00e1 mais de um ano, sob o controle da Viv Ansanm, a maior confedera\u00e7\u00e3o de gangues criminosas j\u00e1 vista na regi\u00e3o.<br \/>\nDesde 29 de fevereiro de 2024, os bandidos tomaram posse de um bairro atr\u00e1s do outro, queimando delegacias de pol\u00edcia, esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio locais, escolas, edif\u00edcios governamentais, cemit\u00e9rios, estradas&#8230; Eles devastaram a cidade.<br \/>\nOs 10% que resistem \u00e0 ofensiva s\u00e3o defendidos pelo pouco que resta do Estado haitiano, uma miss\u00e3o internacional comandada pelo Qu\u00eania, civis e pelos homens comandados por pessoas como o ex-policial Samuel Joasil, o mais conhecido de todos.<br \/>\nEstas brigadas montam barricadas quase todos os dias, colocam carros queimados, port\u00f5es improvisados, cercas de arame farpado ou fogo em pneus para impedir a entrada dos bandidos e fazer com que eles, se conseguirem entrar, se movimentem com lentid\u00e3o.<br \/>\nAssim, eles poder\u00e3o ca\u00e7\u00e1-los, mat\u00e1-los e, em muitos casos, queim\u00e1-los.<br \/>\nA mobilidade tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s, que estamos nesta esp\u00e9cie de fortaleza.<br \/>\nHomem passa perto de um cad\u00e1ver atirado em uma vala de Porto Pr\u00edncipe, em 19 de outubro de 2025<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nConverso por telefone com Rosie Auguste desde a minha chegada a Porto Pr\u00edncipe, no final de fevereiro de 2025. Mas \u00e9 apenas em meados de mar\u00e7o que consigo finalmente me sentar em frente a ela, no seu escrit\u00f3rio.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o sei, ningu\u00e9m sabe por que os bandidos fazem o que fazem&#8221;, responde ela, quando pergunto o motivo do massacre em Wharf J\u00e9r\u00e9mie.<br \/>\nRosie Auguste \u00e9 uma das maiores especialistas nas gangues e na viol\u00eancia de Porto Pr\u00edncipe. Ela acredita que esta \u00e9 uma forma de press\u00e3o para fazer com que a cidade caia com mais rapidez.<br \/>\n&#8220;Terroristas&#8221;, segundo ela.<br \/>\nEla tamb\u00e9m considera que os senhores da guerra elaboram a estrat\u00e9gia, mas n\u00e3o controlam as hostes de adolescentes que, embriagados pela adrenalina e pelo poder, acabam assolando a popula\u00e7\u00e3o de forma arrepiante. E acrescenta que os anos vivendo entre a viol\u00eancia deformam esses meninos.<br \/>\nMas, como os demais especialistas, ela acredita, suspeita, intui, mas n\u00e3o sabe ao certo.<br \/>\nRosie Auguste est\u00e1 visivelmente perturbada. Ela chama os bandidos da Viv Ansanm de covardes. Diz que eles atacam a popula\u00e7\u00e3o antes do governo.<br \/>\n&#8220;Eles sabem onde est\u00e1 o primeiro-ministro, onde moram os funcion\u00e1rios, mas preferem atacar mulheres e crian\u00e7as desarmadas&#8221;, ela conta, com a testa franzida. &#8220;Fazem viola\u00e7\u00f5es em massa em frente a todo mundo e matam beb\u00eas.&#8221;<br \/>\nEla documenta e denuncia h\u00e1 anos, n\u00e3o apenas as barb\u00e1ries das gangues. Ela tamb\u00e9m acusa o Estado haitiano de passividade, permissividade e conluio.<br \/>\nPor isso, Rosie Auguste acredita que sua vida esteja em risco. Ela n\u00e3o seria a primeira pessoa assassinada por documentar esta situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTento entrevistar sobreviventes do massacre desde a minha chegada. Mas um jornalista local me diz que \u00e9 imposs\u00edvel.<br \/>\nEle conta que n\u00e3o se pode entrar em Wharf J\u00e9r\u00e9mie porque o rei Micanor ficou paranoico e levou seus homens com ele.<br \/>\nO jornalista tamb\u00e9m afirma que os sobreviventes n\u00e3o podem sair do bairro. Micanor montou barreiras que controlam a sa\u00edda das pessoas e ret\u00eam os celulares dos moradores. E os que conseguiram fugir para outros bairros ou para campos de refugiados improvisados correriam s\u00e9rios riscos.<br \/>\nPe\u00e7o a Rosie Auguste e ela promete tentar, mas destaca que, para eles, movimentar-se pela cidade seria quase um suic\u00eddio. Ela me pede para regressar no in\u00edcio de abril de 2025.<br \/>\nNesta segunda entrevista, chego ao seu escrit\u00f3rio de moto com Ivander, meu guia local.<br \/>\nA cidade est\u00e1 em chamas neste dia. A Viv Ansanm atacou as proximidades da fortaleza \u00e0 noite e os tiros continuam sendo ouvidos. A brigada do comandante Samuel Joasil est\u00e1 nas ruas, com suas armas de fogo.<br \/>\nRosie Auguste explica que a devasta\u00e7\u00e3o da cidade come\u00e7ou com o assassinato do ent\u00e3o-presidente do Haiti Jovenel Mo\u00efse (1968-2021). Ela conta o trabalho de formiga que sua equipe precisou fazer, arriscando a pr\u00f3pria vida, para preparar o relat\u00f3rio sobre o massacre de Wharf J\u00e9r\u00e9mie.<br \/>\nNo final da nossa conversa, ela entrega um documento muito detalhado, com mais de 120 testemunhos. E me pergunta: &#8220;Onde voc\u00ea quer fazer as entrevistas?&#8221;<br \/>\nFrente ao meu assombro, ela abre uma porta e me mostra cinco pessoas sentadas em um banco, com olhar assustado.<br \/>\nEm um ato ins\u00f3lito de valentia, eles cruzaram uma cidade em guerra, atravessando barricadas, fogo e balas. Eles se arriscaram a ter a mesma sorte dos seus familiares, para me contar como eles morreram e evitar que sua hist\u00f3ria termine no mesmo lugar dos seus corpos \u2014 ou seja, no fundo do mar do Caribe.<br \/>\nNo final das entrevistas, todos afirmam que seguem em contato com os seus, dizem falar com eles em sonhos e observ\u00e1-los morando em casa, cuidando dos seus filhos, cozinhando sua comida e fugindo com eles pela cidade.<br \/>\nSeus testemunhos, um relat\u00f3rio da rede de organiza\u00e7\u00f5es locais e outro das Na\u00e7\u00f5es Unidas s\u00e3o a base desta reconstru\u00e7\u00e3o do ocorrido entre 6 e 11 de dezembro de 2024, quando o rei Micanor perpetrou o maior massacre cometido por uma gangue criminosa no continente americano no s\u00e9culo 21.<br \/>\nFoi naqueles dias que os sobreviventes come\u00e7aram a sonhar.<br \/>\nO rei assassino e a maldi\u00e7\u00e3o dos anci\u00e3os<br \/>\nMulher chora depois que gangues armadas executaram seu marido em Poste Marchands (Porto Pr\u00edncipe, no Haiti), no dia 9 de dezembro de 2024<br \/>\nClarens Siffroy\/AFP via Getty Images<br \/>\nNa manh\u00e3 de 6 de dezembro de 2024, Evelyn e sua fam\u00edlia ouvem motos, homens falando alto e batidas na porta. Da rua, eles perguntam pela sua av\u00f3.<br \/>\n&#8220;Escondam-se e fa\u00e7am sil\u00eancio&#8221;, pede a av\u00f3 aos seus parentes, enquanto abre a porta.<br \/>\nUm dos homens entra com uma pistola e outro com um fac\u00e3o. Eles a levam em uma das motos.<br \/>\nAquela foi a \u00faltima vez em que Evelyn viu a av\u00f3 com vida.<br \/>\nNo fundo do bairro de Wharf J\u00e9r\u00e9mie, perto do mar, j\u00e1 se ouvem tiros. Ningu\u00e9m da casa se atreve a sair.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte, Evelyn e suas irm\u00e3s, em um ato de grande temeridade, se esgueiram at\u00e9 Nan Mangue, um pequeno banco de areia ao lado do porto de Wharf J\u00e9r\u00e9mie. Ali, em meio a um grande quebra-cabe\u00e7a de sangue, dividida pelo fac\u00e3o, elas encontram sua av\u00f3.<br \/>\nH\u00e1 alguns dias, o filho de seis anos do rei Micanor, Benson Altes, tem febre. Nenhum dos meus informantes sabe ao certo qual foi o motivo (uma doen\u00e7a relacionada aos pulm\u00f5es ou ao est\u00f4mago), mas ele fica pior em alguns momentos.<br \/>\nPorto Pr\u00edncipe perdeu para os bandidos quase todas as suas instala\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, p\u00fablicas e privadas. Nem as ambul\u00e2ncias da ONG M\u00e9dicos Sem Fronteiras conseguem chegar aos dom\u00ednios do rei Micanor, onde foram atacadas a balas em mais de uma ocasi\u00e3o.<br \/>\nFrente ao mal-estar do filho, Micanor chama seu hougan, seu sacerdote vodu pessoal, para salv\u00e1-lo.<br \/>\nO sacerdote afirma que Benson est\u00e1 doente por obra do vodu. Segundo ele, trata-se de uma esp\u00e9cie de feiti\u00e7o lan\u00e7ado por um loup-garou \u2014 um homem-lobo, uma esp\u00e9cie de feiticeiro muito temida no Haiti desde a \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO sacerdote an\u00f4nimo (nenhuma fonte ou relat\u00f3rio registra seu nome) tamb\u00e9m afirma que os anci\u00e3os e anci\u00e3s do bairro s\u00e3o respons\u00e1veis n\u00e3o s\u00f3 pelo sofrimento do pequeno pr\u00edncipe, como por outras mortes por doen\u00e7as em Wharf J\u00e9r\u00e9mie.<br \/>\nPara os membros das gangues, os anci\u00e3os se transformaram uma esp\u00e9cie de praga. E \u00e9 assim que ir\u00e3o tratar deles.<br \/>\nNa manh\u00e3 de 6 de dezembro de 2024, depois de uma longa reuni\u00e3o com o hougan, o rei Micanor decide p\u00f4r fim \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o. Ele re\u00fane suas tropas no quartel da gangue, conhecido como Centro de Treinamento, e manda que sejam trazidos para ali todos os anci\u00e3os do bairro.<br \/>\nS\u00e9bastien almo\u00e7a com sua m\u00e3e naquele dia. Ele n\u00e3o recorda o que eles comeram, mas sup\u00f5e que tenha sido arroz. Para muitos na cidade, este \u00e9 praticamente o \u00fanico alimento dispon\u00edvel.<br \/>\nO bairro est\u00e1 tenso, como sempre acontece em Porto Pr\u00edncipe. Eles ouvem tiros, a m\u00fasica de fundo que acompanha a cidade nos \u00faltimos cinco anos.<br \/>\nAt\u00e9 que chegam os bandidos.<br \/>\nJovens, eles chegam de moto, batem \u00e0 porta e gritam do lado de fora que querem sua m\u00e3e. Ela diz a S\u00e9bastien que se esconda; ela n\u00e3o pede, mas sim ordena.<br \/>\nS\u00e9bastien \u00e9 grande, tem fei\u00e7\u00f5es fortes, voz grave e bra\u00e7os largos. Seu pesco\u00e7o parece o tronco de uma \u00e1rvore forte e os bot\u00f5es de cima da camisa se esfor\u00e7am como podem para n\u00e3o sair em disparada a cada respira\u00e7\u00e3o dele.<br \/>\nMas, no dia 6 de dezembro de 2024, este homenzarr\u00e3o se enfia como pode debaixo da cama da sua m\u00e3e e se cobre com suas mantas.<br \/>\nEle acredita que eles est\u00e3o vindo para roubar, j\u00e1 que sua m\u00e3e e ele s\u00e3o comerciantes e mant\u00eam dinheiro vivo.<br \/>\nComo o rei Micanor \u00e9 seu vizinho e eles o conhecem h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas, ele n\u00e3o imagina que ir\u00e3o matar ningu\u00e9m do bairro. Talvez sua m\u00e3e, sim, e, por isso, ela manda que ele se esconda.<br \/>\nS\u00e9bastien observa do seu esconderijo que dois rapazes a levam e a fazem subir em uma moto. E, horas depois, ela far\u00e1 parte do quebra-cabe\u00e7a humano que tamb\u00e9m inclui a av\u00f3 de Evelyn.<br \/>\nO rei Micanor sequestra neste dia 127 anci\u00e3os, 90 homens e 37 mulheres, e os leva para Nan Mangue. Ali, quando cai a noite e tudo fica escuro, seus homens os matam a tiros e facadas.<br \/>\nO hougan recolhe sangue dos sacrificados e guarda em recipientes, ao lado de partes dos seus corpos.<br \/>\nNa tradi\u00e7\u00e3o vodu, esta \u00e9 uma forma de conservar a ess\u00eancia, de ficar com algu\u00e9m e escraviz\u00e1-lo al\u00e9m das barreiras impostas pela morte. Usando os termos do vodu, aquele homem fica com as almas dos anci\u00e3os.<br \/>\nA morte do pr\u00edncipe e as torturas do rei<br \/>\nHomem observa de p\u00e9, no telhado de uma casa destru\u00edda no bairro de Solino, em Porto Pr\u00edncipe (Haiti), no dia 17 de fevereiro de 2026<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nNa madrugada de 7 de dezembro de 2024, morre Benson Altes, o filho do rei Micanor. Mas o sangue derramado na noite anterior n\u00e3o \u00e9 suficiente para o hougan.<br \/>\nO rei envia seus homens com a ordem clara de matar a todos os familiares pr\u00f3ximos dos anci\u00e3os.<br \/>\nEles se espalham por todo o bairro, capturando fam\u00edlias inteiras.<br \/>\nCerca de 50 pessoas planejaram fugir pelo mar e, para isso, montaram um barco com t\u00e1buas e pl\u00e1stico. Mas, antes de se aventurarem pelo Caribe, eles organizam uma cerim\u00f4nia para pedir prote\u00e7\u00e3o aos loas, as divindades do vodu.<br \/>\nA m\u00fasica e os c\u00e2nticos chamam a aten\u00e7\u00e3o dos homens de Micanor e eles s\u00e3o logo cercados. Ao todo, 57 pessoas s\u00e3o golpeadas e apunhaladas sem serem mortas, sendo conduzidas \u00e0 m\u00e3o armada.<br \/>\nAlguns s\u00e3o transportados em motos, outros em ve\u00edculos pick-up, amarrados e amontoados.<br \/>\nNo Centro de Treinamento, o rei Micanor os tortura pessoalmente durante horas, segundo os testemunhos.<br \/>\nEle chora e sofre. O l\u00edder da gangue est\u00e1 ferido e paranoico. Ele Quer saber quem lan\u00e7ou a maldi\u00e7\u00e3o e onde est\u00e3o os feiticeiros que mataram seu filho.<br \/>\nMas ningu\u00e9m oferece uma resposta satisfat\u00f3ria. Ningu\u00e9m diz onde os monstros se escondem.<br \/>\nNa madrugada de 8 de dezembro, os ref\u00e9ns come\u00e7am a ser degolados e desmembrados. Quando o sol nasce, os homens lan\u00e7am peda\u00e7os \u00e0s chamas. E os restos que o fogo n\u00e3o destr\u00f3i s\u00e3o atirados ao mar.<br \/>\nOs reis e o vodu<br \/>\nA igreja de Saint Michel fica nos limites de P\u00e9tion-Ville, dentro da pequena fortaleza que ainda resta em Porto Pr\u00edncipe. Nela, dezenas de homens e mulheres levantam as m\u00e3os e as agitam no ar.<br \/>\nOs tambores soam como trov\u00f5es. A fuma\u00e7a sobe e vozes graves escapam de uma cabana de madeira.<br \/>\nEles me olham com desconfian\u00e7a, mas ningu\u00e9m se anima a me expulsar dali ou me fazer mal. \u00c9 um lugar sagrado e eles n\u00e3o ir\u00e3o manch\u00e1-lo, ainda mais com sangue de branco.<br \/>\nO dia \u00e9 5 de mar\u00e7o de 2025. Neste hounfor, ou igreja vodu, \u00e9 celebrado um rito a Ezili, a fam\u00edlia de loas associada \u00e0 fertilidade, \u00e0 for\u00e7a da maternidade, \u00e0 sensualidade, ao feminino, \u00e0 dan\u00e7a e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm grupo carrega uma mulher jovem com s\u00edndrome de Down. Im\u00f3vel, ela brilha como um p\u00e1ssaro grande com as asas em crescimento.<br \/>\nA jovem n\u00e3o fala. Ela apenas baba e emite uma esp\u00e9cie de grunhido doloroso.<br \/>\nEla foi recolhida da rua, onde vive ao lado de uma lixeira. Eles a vestiram e cal\u00e7aram da melhor forma poss\u00edvel e organizaram este evento para ela.<br \/>\nSeu objetivo \u00e9 pedir a Ezili que a proteja, que a acompanhe, que a perdoe. A mulher est\u00e1 gr\u00e1vida e dar\u00e1 \u00e0 luz nos pr\u00f3ximos dias.<br \/>\nOs devotos tamb\u00e9m exigem paz aos gritos e pedem aos loas que deem esperan\u00e7a e os ajudem a sobreviver.<br \/>\nEles pedem que a Viv Ansanm n\u00e3o entre e, se o fizerem, que eles possam derrot\u00e1-la.<br \/>\nCad\u00e1ver arde sob pneus em uma rua do centro de Porto Pr\u00edncipe, no dia 9 de fevereiro de 2026<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nO vodu \u00e9 uma das religi\u00f5es mais estigmatizadas do continente americano.<br \/>\nSegundo Alfred M\u00e9traux, um dos antrop\u00f3logos pioneiros no seu estudo, trata-se de um conjunto de cren\u00e7as h\u00edbridas entre credos africanos, inicialmente, e a f\u00e9 cat\u00f3lica dos escravagistas que chegaram \u00e0 Am\u00e9rica.<br \/>\nSeria muito dif\u00edcil explicar nesta reportagem as profundas ra\u00edzes do vodu. Basicamente, \u00e9 uma religi\u00e3o criada de baixo, com uma rela\u00e7\u00e3o profunda e terna com a natureza e os mortos.<br \/>\nNesta tradi\u00e7\u00e3o, os mortos n\u00e3o v\u00e3o embora. Eles ficam e fazem parte importante da vida cotidiana.<br \/>\nEles regressam em sonhos, confortam os vivos e, com o passar do tempo, se tornam divindades. \u00c9 desta forma que o pante\u00e3o haitiano vai crescendo, at\u00e9 se tornar imposs\u00edvel de relacionar.<br \/>\nO vodu n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia ou, pelo menos, n\u00e3o mais que as religi\u00f5es judaico-crist\u00e3s e mu\u00e7ulmanas. Ele se desenvolveu como motor ideol\u00f3gico e espiritual da revolu\u00e7\u00e3o haitiana do final do s\u00e9culo 18.<br \/>\nFoi depois de um ritual organizado por uma mulher que as pessoas escravizadas destru\u00edram o sistema de fazendas escravagistas mantido pelos franceses em 1791.<br \/>\nAssim foi fundado o Haiti, ap\u00f3s a primeira revolu\u00e7\u00e3o bem sucedida de pessoas escravizadas do continente americano, a primeira declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina e a segunda do continente, depois dos Estados Unidos.<br \/>\nPor isso, o vodu foi e, de certa forma, continua sendo uma religi\u00e3o eminentemente anti-imperialista.<br \/>\nO bairro de Solino, em Porto Pr\u00edncipe, foi alvo de ataques das gangues em dezembro de 2024<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nMas, como todas as religi\u00f5es, o vodu tamb\u00e9m foi usado para oprimir ainda mais aqueles que j\u00e1 s\u00e3o oprimidos.<br \/>\nUsar o vodu como arma para subjugar as pessoas n\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o do rei Micanor. Dezenas de senhores da guerra se orgulham de serem hougan e terem a prote\u00e7\u00e3o dos loas.<br \/>\nO primeiro a observar o potencial da f\u00e9 para reprimir os haitianos talvez tenha sido Fran\u00e7ois Duvalier (1907-1971), o ex-ditador do pa\u00eds conhecido como Papa Doc.<br \/>\nSeu aterrorizante regime durou de 1957 at\u00e9 a sua morte e teve dois pilares. O primeiro foi a cria\u00e7\u00e3o do grupo paramilitar Tontons Macoutes, que assassinava seus opositores e impunha o terror nos bairros. O segundo foi o vodu.<br \/>\nDuvalier se gabava de n\u00e3o ser mais um hougan, mas sim um loa; especificamente, Baron Samedi, o senhor dos cemit\u00e9rios, que protege a entrada para o mundo dos mortos.<br \/>\nEle se apresentava com a indument\u00e1ria cl\u00e1ssica daquele esp\u00edrito e, segundo os haitianos, falava como os loas e os mortos: com tom nasal.<br \/>\nOs 14 anos de governo de Duvalier deixaram um rastro de morte pelo Haiti, estabelecendo uma forma de fazer pol\u00edtica que prevalece at\u00e9 hoje no pa\u00eds.<br \/>\nPode-se dizer, de forma simplista, que a Viv Ansanm \u00e9 a heran\u00e7a de Papa Doc e que seus senhores da guerra m\u00edsticos e paranoicos s\u00e3o seu legado.<br \/>\nQuando o rei Micanor decide assassinar seus vizinhos, em 6 de dezembro, n\u00e3o se trata de uma inova\u00e7\u00e3o das formas de barb\u00e1rie. Ele segue uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica iniciada antes mesmo que ele tivesse nascido.<br \/>\nA paranoia do rei e os &#8216;homens-lobos&#8217;<br \/>\nPessoas fogem da viol\u00eancia no distrito Kenskof em Porto Pr\u00edncipe, no dia 29 de janeiro de 2025<br \/>\nClarens Siffroy<br \/>\nNo dia 9 de dezembro, as pessoas ficam sem comunica\u00e7\u00e3o em Wharf J\u00e9r\u00e9mie.<br \/>\nFrente \u00e0 cobertura da matan\u00e7a na imprensa local e nas redes sociais, o rei Micanor ordena o confisco dos telefones celulares de toda a popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSeus homens sequestram outras 60 pessoas, que foram levadas ao Centro de Treinamento. L\u00e1, elas s\u00e3o torturadas e interrogadas.<br \/>\nO l\u00edder quer saber quem vazou a informa\u00e7\u00e3o para a imprensa e para a organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos com quem entrei em contrato meses depois, em mar\u00e7o e abril de 2025.<br \/>\nA gangue imp\u00f5e o toque de recolher no bairro. &#8220;Ningu\u00e9m sai, ningu\u00e9m entra!&#8221;, ordenam os bandidos aos gritos pelas ruas.<br \/>\nMan\u00fa est\u00e1 longe do arqu\u00e9tipo que temos do refugiado. Ele usa camisa social, \u00f3culos e sapatos brilhantes. Fala ingl\u00eas e, por isso, consigo falar com ele sem filtros.<br \/>\nEle conta que mora em outro bairro (omitimos o nome do local por quest\u00f5es de seguran\u00e7a) e visitava frequentemente seus pais em Wharf J\u00e9r\u00e9mie.<br \/>\nEle podia entrar e sair sem ser molestado pelos bandidos do rei. Este \u00e9 um privil\u00e9gio pouco comum.<br \/>\nSeus pais tinham ali um bom neg\u00f3cio. Por ser porto, havia muito movimento e a possibilidade de obter produtos antes que eles subissem de pre\u00e7o ao adentrar no pa\u00eds.<br \/>\nNo dia 6 de dezembro, Man\u00fa ligou para seus pais e eles n\u00e3o atenderam. E, como j\u00e1 circulavam rumores sobre algo estranho acontecendo no bairro, ele se aventurou e conseguiu entrar em Wharf J\u00e9r\u00e9mie no dia seguinte.<br \/>\nSua m\u00e3e o recebeu em casa com a not\u00edcia de que, no dia anterior, homens de motocicleta haviam levado seu pai. E, apesar do toque de recolher, ele saiu para verificar o que havia acontecido com ele.<br \/>\nMan\u00fa descobriu que o pai foi desmembrado, suas partes foram queimadas e o que restou foi atirado ao mar. E tamb\u00e9m disseram a ele que estavam matando todas as pessoas com mais de 60 anos.<br \/>\nSua m\u00e3e tinha mais de 70. Por isso, Man\u00fa a escondeu como p\u00f4de e, no dia 9 de dezembro, ele a retirou de casa \u00e0s escondidas.<br \/>\nMas ela ficou doente, parou de comer e morreu na noite de Natal. &#8220;Morreu de tristeza&#8221;, lamenta Man\u00fa.<br \/>\nNo seu funeral, ao lado do caix\u00e3o da m\u00e3e, ele enterra outro caix\u00e3o com coisas do seu pai. Assim, ele se despede deles, explicando que eles voltaram para um mundo aonde a raiva do rei n\u00e3o consegue chegar: o mundo dos sonhos.<br \/>\n&#8220;Meus filhos s\u00e3o muito pequenos e n\u00e3o se lembrar\u00e3o deles, mas eles cuidam dos meus filhos&#8221;, afirma ele.<br \/>\n\u00c9 neste ponto que o choro irrompe e destr\u00f3i a fria compostura do burocrata.<br \/>\nO l\u00edder de gangue Jimmy Ch\u00e9rizier, conhecido como Barbecue, ao lado de uma moradora de uma regi\u00e3o de Porto Pr\u00edncipe controlada por ele, no dia 6 de julho de 2026<br \/>\nClarens Siffroy<br \/>\nNa tarde de 9 de dezembro, os bandidos do rei Micanor capturam tr\u00eas homens e duas mulheres que tentavam fugir de Wharf J\u00e9r\u00e9mie e atiram no ato.<br \/>\nOs tiros n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o vodu e os homens-lobos. O rei quer impedir de todas as formas que se saiba mais sobre o massacre. Por isso, ele pro\u00edbe que as pessoas saiam de casa e falem com os vizinhos.<br \/>\nMas \u00e9 muito dif\u00edcil ocultar mais de 200 assassinatos, mesmo com o fogo e o mar como aliados. A not\u00edcia vaza, algumas pessoas mandam v\u00eddeos para familiares fora do bairro e as imagens s\u00e3o compartilhadas com jornalistas locais ou nas redes sociais.<br \/>\nJimmy Ch\u00e9rizier, conocido como Barbecue (&#8220;churrasco&#8221;, em ingl\u00eas) \u00e9 o homem que se apresentou ao mundo como porta-voz e l\u00edder da Viv Ansanm. Ele e outros chefes da confedera\u00e7\u00e3o pedem respostas.<br \/>\nCada senhor da guerra tem autonomia sobre o &#8220;seu&#8221; territ\u00f3rio, mas uma matan\u00e7a deste calibre exige pelo menos uma explica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAnalistas especializados das Na\u00e7\u00f5es Unidas interceptaram uma mensagem do rei para a alta c\u00fapula da Viv Ansanm, em refer\u00eancia ao ocorrido:<br \/>\nOl\u00e1, colegas da Viv Ansanm. Sauda\u00e7\u00f5es, sou o rei Micanor.<br \/>\nVou contar sobre o incidente na minha regi\u00e3o.<br \/>\nMuitas pessoas dizem que cometi um massacre e falam em assassinatos. As v\u00edtimas s\u00e3o feiticeiros (homens-lobos). A coaliz\u00e3o Viv Ansanm n\u00e3o colabora com este tipo de pessoas.<br \/>\nPodem imaginar que tenho um filho que nasceu sadio e que os anci\u00e3os da regi\u00e3o conspiraram para mat\u00e1-lo, lan\u00e7ando feiti\u00e7os m\u00edsticos contra ele?<br \/>\nEm um caso como este, n\u00e3o posso permanecer impass\u00edvel; preciso me vingar. Em todas as bases da Viv Ansanm, exterminaremos os feiticeiros e limparemos a regi\u00e3o.<br \/>\nOuvi muitas mensagens na imprensa e de organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos.<br \/>\nVoc\u00eas sabem onde moro, quem eu sou. Voc\u00eas devem vir me buscar, s\u00e3o covardes, estou esperando voc\u00eas, venham me buscar. Assumo toda a responsabilidade pelo que fiz.<br \/>\nOs anci\u00e3os mataram meu filho, voc\u00eas acham que eu n\u00e3o iria reagir? Um filho que amo tanto. Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o pais do menino e, por isso, s\u00e3o insens\u00edveis \u00e0 dor.<br \/>\nEu, o rei Micanor, n\u00e3o cometi pessoalmente nenhum abuso; as pessoas que foram assassinadas est\u00e3o realmente mortas. Se outros devem ser assassinados, tamb\u00e9m morrer\u00e3o. Todas as gangues da Viv Ansanm ca\u00e7ar\u00e3o os homens-lobos (feiticeiros).<br \/>\nDada a explica\u00e7\u00e3o, ele prosseguiu com o massacre.<br \/>\n&#8216;Voc\u00ea mata os meus, eu mato os seus&#8217;<br \/>\nO bairro amanhece em sil\u00eancio. Ningu\u00e9m quer falar alto para n\u00e3o alertar os bandidos sobre sua presen\u00e7a.<br \/>\n&#8220;Os mais perigosos s\u00e3o os meninos, porque querem demonstrar seu poder e podem fazer mal s\u00f3 para isso&#8221;, explica Evelyn, a primeira sobrevivente que entrevisto.<br \/>\nOs homens do rei tomam as ruas e procuram algu\u00e9m a quem matar. Um deles \u00e9 Dustin. Magro e com cerca de 30 anos, ele manca, com uma perna enfaixada e o apoio de uma muleta.<br \/>\nDustin trabalhava com seu tio e seu primo em uma pequena oficina, o que lhe dava acesso ao bairro. Mas ele tamb\u00e9m confessa ter boas rela\u00e7\u00f5es com a gangue do rei Micanor.<br \/>\nQuando ali chegou, no dia 7 de dezembro, seu tio e seu primo j\u00e1 tinham sido assassinados. Ainda assim, decidiu ficar com a gangue, segundo ele, por medo de ser tomado por delator.<br \/>\nMas ele garante n\u00e3o ter se envolvido no massacre. E, como prova, mostra os dois buracos de bala no seu corpo.<br \/>\nEle conta que os bandidos se queixaram por ele n\u00e3o ter cumprido a ordem do rei. Todos tinham que matar.<br \/>\nAlguns chegaram at\u00e9 a fazer tratos para evitar derramar o pr\u00f3prio sangue: &#8220;Voc\u00ea mata os meus, eu mato os seus.&#8221;<br \/>\nAparentemente, eles n\u00e3o consideraram justo que Dustin se salvasse daquela condena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo dia 10 de dezembro, um dos homens de escal\u00e3o intermedi\u00e1rio do rei Micanor pede que ele estenda a m\u00e3o e, como castigo, dispara no centro da sua palma.<br \/>\nOutro aponta uma arma para sua cabe\u00e7a, Dustin se move, o bandido aperta o gatilho e o atinge na perna. Mas ele continua correndo e consegue escapar.<br \/>\nUm jovem membro de gangue de 14 anos patrulha as ruas do bairro Mariani de Porto Pr\u00edncipe, no Haiti, no dia 6 de outubro de 2025<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nAgora, Dustin mora como refugiado em algum lugar da fortaleza que ainda resiste em Porto Pr\u00edncipe. Suas feridas parecem ter se infectado.<br \/>\nSe os homens das brigadas de autodefesa o capturarem e descobrirem seu v\u00ednculo com a Viv Ansanm, eles o levar\u00e3o para a cuisine (&#8220;cozinha&#8221; em franc\u00eas), na esquina da rua 27 e da Bois Patate, em frente ao supermercado abandonado Tag Supermarket, no bairro de Canap\u00e9 Vert, o feudo do comandante Samuel Joasin e suas brigadas.<br \/>\nEles dar\u00e3o facadas suficientes para que ele n\u00e3o possa se mover, colocar\u00e3o pneus no seu pesco\u00e7o e atear\u00e3o fogo. Esta pr\u00e1tica se chama bwa kale e \u00e9 o destino dos bandidos capturados pela brigada.<br \/>\nA paranoia do rei e sua obsess\u00e3o para evitar que a not\u00edcia da matan\u00e7a continue se propagando fazem com que ele fique ainda mais desconfiado.<br \/>\nEle encontra oito homens e cinco mulheres que ainda conservam seus telefones. Eles s\u00e3o acusados de terem falado com jornalistas e levados para Nan Mangue, onde os primeiros grupos foram mortos.<br \/>\nAli, ele os tortura, mata e seus corpos t\u00eam o mesmo destino dos demais: fac\u00f5es, fogo e \u00e1gua salgada.<br \/>\nO rei louco e os sonhos<br \/>\nA cabe\u00e7a do l\u00edder \u00e9 uma loteria. E a not\u00edcia do massacre se espalha por toda a capital.<br \/>\n&#8220;O rei Micanor ficou louco&#8221;, comentam as pessoas nos bairros controlados pelos bandidos, incluindo na sua fortaleza.<br \/>\nUma pessoa det\u00e9m informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia estrangeira e explica que a Viv Ansanm considerou derrub\u00e1-lo e substitu\u00ed-lo por algu\u00e9m mais confi\u00e1vel, menos imprevis\u00edvel, \u00e0 frente de Wharf J\u00e9r\u00e9mie.<br \/>\nA mesma fonte me diz que o rei ficou sabendo ou intuiu a respeito e quis demonstrar que detinha o controle do bairro e da sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a.<br \/>\nNo dia 11 de dezembro, ele liberta as 60 pessoas raptadas dois dias antes e ordena aos seus homens que preparem sacos com arroz, feij\u00e3o, absorventes higi\u00eanicos e outros produtos mais.<br \/>\nO rei obriga as pessoas a sa\u00edrem de casa e faz a distribui\u00e7\u00e3o. Ele ordena que elas gritem seu nome e agrade\u00e7am porque, embora n\u00e3o tenha conseguido salvar seu filho, ele protegeu as outras crian\u00e7as do bairro contra os homens-lobos.<br \/>\nPessoas fazem busca entre o que ficou para tr\u00e1s no inc\u00eandio em um campo de deslocados em Porto Pr\u00edncipe, no Haiti, em 21 de dezembro de 2025<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\n&#8220;Viva o rei Micanor!&#8221;, grita Sheila, obrigada, enquanto mostra um saco de arroz para a c\u00e2mera do telefone celular de um bandido.<br \/>\nNo dia 5 de dezembro, ela havia ido com seu av\u00f4 para o mercado. Eles compraram chaco, um vegetal parecido com a mandioca, e cozinharam para comer juntos.<br \/>\nSobrou um pouco, mas ela acredita que, quando seu av\u00f4 foi levado para ser morto, na tarde de 6 de dezembro, ao lado de outros 126 anci\u00e3os, ele havia almo\u00e7ado o que eles prepararam juntos na v\u00e9spera.<br \/>\nEm 11 de dezembro, o rei Micanor j\u00e1 havia matado 202 pessoas. Mas, apesar dos sequestros, torturas e assassinatos, do toque de recolher e do arroz distribu\u00eddo, os bandidos dizem que h\u00e1 um novo v\u00eddeo nas redes sociais, onde vozes femininas narram o ocorrido nos \u00faltimos dias.<br \/>\nFrente a isso, ele ordena a captura de cinco mulheres e as leva para o Centro de Treinamento. L\u00e1, elas s\u00e3o torturadas e transportadas para Nan Mangue.<br \/>\nEssas cinco mulheres compartilham o mar com os restos de Jacinthe, Marcel, Grette, Magarette, Mimose, Ellionise, Montellas, Charita, Marthe, Adeline, Amadide, Charl\u00e9us, Euvanie, Milou, Immacula, Olympia, Umaliance, Milot, Jacqueline, Dieuv\u00e9, B\u00e9nita, Roosevelt, Jean, Rosiane\u2026 e outras 173 pessoas cujos nomes os relat\u00f3rios n\u00e3o registram por quest\u00f5es de seguran\u00e7a.<br \/>\nNesta cidade de bandidos, o falso rei massacrou os anci\u00e3os e, com eles, a mem\u00f3ria do bairro.<br \/>\nMas os sobreviventes afirmam que seus entes queridos retornam todas as noites em sonhos. E, com eles, vem tamb\u00e9m o passado.<br \/>\nO falso rei e a impunidade<br \/>\nMicanor n\u00e3o \u00e9 um rei, \u00e9 apenas um homem que governa impunemente um peda\u00e7o de mundo em uma ilha no Caribe. Ele nem mesmo \u00e9 o fundador da sua gangue.<br \/>\nSegundo uma pessoa que pertenceu ao grupo, Micanor era o terceiro em comando, um elemento muito violento e r\u00e1pido no gatilho, ou fac\u00e3o. Por isso, nunca confiaram nele, pois sempre foi paranoico, influenci\u00e1vel e inst\u00e1vel, segundo contam.<br \/>\nEm 2008, este senhor da mis\u00e9ria matou sua pr\u00f3pria mambo (sacerdotisa vodu) para, segundo ele, obter seu poder. E, em 2012, acabou com 12 pessoas acusadas por ele de serem feiticeiros.<br \/>\nOs dois l\u00edderes que os antecederam morreram perto de 2015, nas guerras fratricidas das gangues da capital. Elas disputavam entre si o controle dos espa\u00e7os miser\u00e1veis da cidade e das pessoas pobres que moravam neles, antes da Viv Ansanm.<br \/>\nA tarde deste dia de abril de 2025 vai se apagando em Porto Pr\u00edncipe e a Viv Ansanm ataca os extremos da fortaleza.<br \/>\nFa\u00e7o a quinta entrevista da tarde. Ouvem-se tiros ao longe e, pela janela, pode-se ver colunas de fuma\u00e7a subindo em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u.<br \/>\nA brigada fechar\u00e1 as ruas em breve para se proteger das multid\u00f5es raivosas da grande confedera\u00e7\u00e3o de bandidos.<br \/>\nVe\u00edculo armado da patrulha Bas Delmas, em Porto Pr\u00edncipe, no Haiti, em 12 de fevereiro de 2026<br \/>\nClarens Siffroy via BBC<br \/>\nDustin fala devagar, usando g\u00edria e com forte sotaque. \u00c9 dif\u00edcil entender o que ele fala.<br \/>\nMas o homem est\u00e1 contando sobre a morte do seu tio e do seu primo e como ele precisou caminhar por mais de uma hora com a perna ferida e a m\u00e3o destro\u00e7ada para contar esta hist\u00f3ria. Por isso, n\u00e3o conv\u00e9m interromp\u00ea-lo.<br \/>\nAo t\u00e9rmino das entrevistas, sa\u00edmos correndo na moto do guia Ivander. Algumas barricadas j\u00e1 est\u00e3o instaladas, mas conseguimos evit\u00e1-las.<br \/>\nA fortaleza p\u00f5e \u00e0 mostra seus espinhos e se prepara para sobreviver por mais uma noite.<br \/>\nAs testemunhas do &#8220;massacre dos idosos&#8221;, agora, dormir\u00e3o aqui, pois n\u00e3o podem mais regressar para os seus lares. Amanh\u00e3, eles tentar\u00e3o voltar sem serem assassinados ou capturados pela Viv Ansanm ou pelas brigadas de vigilantes.<br \/>\nQuase um ano e meio depois, quando escrevo esta reportagem, o massacre de Wharf J\u00e9r\u00e9mie permanece impune, mesmo com todos os testemunhos e evid\u00eancias que indicam o respons\u00e1vel pelo assassinato de 207 haitianos, em sua maioria anci\u00e3os: o autodenominado \u00faltimo monarca do Caribe, o senhor dos cais, um simples bandido chamado Monel F\u00e9lix Altes.<br \/>\nM\u00f2 yo pa janm ale<br \/>\nYo la toujou<br \/>\nYo d\u00f2mi nan dlo<br \/>\nYo mache nan r\u00e8v nou<br \/>\n(Os mortos nunca se v\u00e3o.<br \/>\nSempre est\u00e3o aqui.<br \/>\nDormem na \u00e1gua.<br \/>\nCaminham nos nossos sonhos.)<br \/>\nCan\u00e7\u00e3o tradicional f\u00fanebre do vodu haitiano.<br \/>\nOs nomes dos sobreviventes foram alterados nesta reportagem por raz\u00f5es de seguran\u00e7a.<br \/>\nV\u00cdDEOS: mais assistidos do g1<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta reportagem faz parte do projeto &#8220;A Queda de Porto Pr\u00edncipe&#8221;, da produtora Drom\u00f3manos e da organiza\u00e7\u00e3o Global Initiative. &#x26a0;&#xfe0f; Importante: esta reportagem traz descri\u00e7\u00f5es de sequestros e assassinatos que podem ser perturbadoras para alguns leitores. 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