{"id":69537,"date":"2026-05-13T06:22:23","date_gmt":"2026-05-13T09:22:23","guid":{"rendered":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=69537"},"modified":"2026-05-13T06:22:23","modified_gmt":"2026-05-13T09:22:23","slug":"acesso-a-diagnostico-e-tratamento-de-doencas-geneticas-que-afetam-a-imunidade-ainda-e-desigual-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crajubaremacao.com.br\/?p=69537","title":{"rendered":"Acesso a diagn\u00f3stico e tratamento de doen\u00e7as gen\u00e9ticas que afetam a imunidade ainda \u00e9 desigual no Brasil"},"content":{"rendered":"<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/Xp69tMfcuvDLwv5NTUiMnZ5C_I4=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/R\/K\/mkM4q0QJ2XhuSl0yDy5A\/dna-closely.jpg\"><br \/>     Freepik<br \/>\nOs erros inatos da imunidade s\u00e3o doen\u00e7as raras que afetam o sistema imunol\u00f3gico e podem levar a imunodefici\u00eancia, doen\u00e7as autoimunes, infec\u00e7\u00f5es graves ou incomuns, inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, alergias intensas e aumento do risco de c\u00e2ncer.<br \/>\nEmbora pouco conhecidas, essas condi\u00e7\u00f5es representam um grupo amplo e complexo de doen\u00e7as gen\u00e9ticas que impactam significativamente a qualidade de vida dos pacientes.<br \/>\nNa Am\u00e9rica Latina, a preval\u00eancia estimada dessas doen\u00e7as era de aproximadamente 1 em cada 10 mil indiv\u00edduos.<br \/>\nNo entanto, com o avan\u00e7o das t\u00e9cnicas de sequenciamento de DNA, estudos mais recentes indicam que esse n\u00famero pode ser maior, com estimativas globais variando entre um em mil e um em cinco mil pessoas. Esse aumento n\u00e3o necessariamente reflete um crescimento real dos casos, mas sim uma maior capacidade de diagn\u00f3stico.<br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas, mais de 500 genes j\u00e1 foram identificados como causadores de erros inatos da imunidade, segundo o comit\u00ea de especialistas da Uni\u00e3o Internacional das Sociedades de Imunologia.<br \/>\nEssas condi\u00e7\u00f5es podem ser herdadas de diferentes formas \u2014 autoss\u00f4mica dominante, autoss\u00f4mica recessiva ou ligada ao cromossomo X \u2014 e apresentam manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas bastante diversas. Isso significa que uma mesma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica pode resultar em quadros muito diferentes entre pacientes. Em alguns casos, duas pessoas com o mesmo defeito gen\u00e9tico podem apresentar sintomas leves ou graves, ou at\u00e9 mesmo permanecer sem manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas.<br \/>\nEsse fen\u00f4meno pode estar relacionado, entre outros fatores, \u00e0 chamada penetr\u00e2ncia gen\u00e9tica. Quando a penetr\u00e2ncia \u00e9 completa, todos os indiv\u00edduos com a muta\u00e7\u00e3o desenvolvem a doen\u00e7a. J\u00e1 na penetr\u00e2ncia parcial, apenas uma parcela dos portadores manifesta sintomas, o que torna o diagn\u00f3stico ainda mais desafiador.<br \/>\nV\u00eddeos em alta no g1<br \/>\nSequenciamento gen\u00e9tico<br \/>\nO avan\u00e7o do sequenciamento de nova gera\u00e7\u00e3o revolucionou a identifica\u00e7\u00e3o dessas doen\u00e7as. Essa tecnologia permite analisar grandes por\u00e7\u00f5es do DNA de forma r\u00e1pida e detalhada, aumentando significativamente a taxa de diagn\u00f3stico molecular. Antes disso, o sequenciamento era realizado por m\u00e9todos mais tradicionais, como o sequenciamento de Sanger, que, embora preciso, \u00e9 mais limitado e analisa regi\u00f5es espec\u00edficas do material gen\u00e9tico.<br \/>\nApesar desses avan\u00e7os, a disponibilidade dessas tecnologias no Brasil ainda \u00e9 limitada. Isso dificulta o diagn\u00f3stico precoce, o acesso a tratamentos personalizados e o aconselhamento gen\u00e9tico adequado para pacientes e suas fam\u00edlias.<br \/>\nO que investigamos<br \/>\nDiante desse cen\u00e1rio, realizamos uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica da literatura cient\u00edfica com o objetivo de entender como as tecnologias de sequenciamento de nova gera\u00e7\u00e3o v\u00eam sendo utilizadas no Brasil para o diagn\u00f3stico dessas doen\u00e7as.<br \/>\nForam analisados estudos dispon\u00edveis em bases como PubMed, SciELO, Embase e Scopus. Inicialmente, identificamos 237 publica\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a remo\u00e7\u00e3o de duplicatas e aplica\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios de elegibilidade, apenas 10 estudos foram inclu\u00eddos na an\u00e1lise final. Esse n\u00famero reduzido evidencia uma lacuna importante na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional sobre o tema.<br \/>\nObservamos que a maioria dos estudos foi conduzida em grandes centros m\u00e9dicos localizados nos estados do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, que concentram servi\u00e7os de refer\u00eancia para doen\u00e7as raras credenciados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Esse padr\u00e3o reflete uma desigualdade j\u00e1 conhecida na distribui\u00e7\u00e3o de recursos e infraestrutura em sa\u00fade no pa\u00eds.<br \/>\nMesmo nesses centros, h\u00e1 desafios para a implementa\u00e7\u00e3o de um portf\u00f3lio amplo de testes gen\u00e9ticos, especialmente para o diagn\u00f3stico de erros inatos da imunidade. Al\u00e9m disso, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) n\u00e3o reembolsa a maior parte dos testes gen\u00e9ticos. Isso significa que, mesmo quando fam\u00edlias buscam alternativas fora do sistema p\u00fablico, os custos recaem integralmente sobre os pacientes.<br \/>\nComo consequ\u00eancia, cerca de 75% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, que depende exclusivamente do SUS, tem acesso limitado a diagn\u00f3stico gen\u00e9tico abrangente e tratamento adequado. Esse cen\u00e1rio contribui para a manuten\u00e7\u00e3o de desigualdades regionais e sociais no acesso \u00e0 sa\u00fade, resultando, na pr\u00e1tica, em um sistema dual.<br \/>\nQuando o diagn\u00f3stico demora, o risco aumenta<br \/>\nEssa lacuna n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de acesso \u00e0 tecnologia ou produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2014 trata-se de um problema cl\u00ednico com impacto direto na vida dos pacientes.<br \/>\nO acesso tardio ao diagn\u00f3stico baseado em sequenciamento de DNA pode atrasar interven\u00e7\u00f5es potencialmente salvadoras, como o transplante de c\u00e9lulas-tronco hematopo\u00e9ticas. Esse procedimento pode ser curativo para algumas dessas doen\u00e7as, especialmente quando realizado precocemente.<br \/>\nIsso \u00e9 particularmente relevante em condi\u00e7\u00f5es graves, como a imunodefici\u00eancia combinada grave. Nesses casos, o diagn\u00f3stico molecular precoce \u00e9 essencial para orientar o transplante no momento adequado.<br \/>\nQuando realizado nos primeiros meses de vida, antes do desenvolvimento de infec\u00e7\u00f5es, o transplante est\u00e1 associado a melhores taxas de sobrevida.<br \/>\nPor outro lado, diagn\u00f3sticos tardios aumentam o risco de infec\u00e7\u00f5es graves e complica\u00e7\u00f5es. E reduz as chances de sucesso do tratamento.<br \/>\nPol\u00edticas e avan\u00e7os no Brasil<br \/>\nNos \u00faltimos anos, o Brasil tem avan\u00e7ado na incorpora\u00e7\u00e3o da gen\u00f4mica \u00e0 sa\u00fade. Iniciativas como o Programa Genomas Brasil t\u00eam impulsionado a medicina de precis\u00e3o por meio do sequenciamento gen\u00f4mico. Isso contribui para maior acur\u00e1cia diagn\u00f3stica e melhor compreens\u00e3o do risco de doen\u00e7as.<br \/>\nA Pol\u00edtica Nacional de Aten\u00e7\u00e3o Integral \u00e0s Pessoas com Doen\u00e7as Raras, institu\u00edda em 2014, estabeleceu servi\u00e7os de refer\u00eancia e redes de aten\u00e7\u00e3o especializada no SUS.<br \/>\nApesar da conquista, esses servi\u00e7os ainda est\u00e3o concentrados principalmente nas regi\u00f5es Sudeste e Nordeste.<br \/>\nOutras iniciativas importantes incluem a cria\u00e7\u00e3o da Rede Brasileira de Doen\u00e7as Raras (RARAS), em 2020, e, mais recentemente, a Rede Nacional de Gen\u00f4mica para Erros Inatos da Imunidade (RENOMIEII).<br \/>\nEsta \u00faltima integra atualmente 20 institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e centros de pesquisa e utiliza diferentes abordagens \u00f4micas \u2014 como gen\u00f4mica, prote\u00f4mica e transcriptoma \u2014 para melhorar o diagn\u00f3stico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes.<br \/>\nEsses esfor\u00e7os t\u00eam promovido maior integra\u00e7\u00e3o entre centros de gen\u00e9tica e bioinform\u00e1tica em todo o pa\u00eds, facilitando a incorpora\u00e7\u00e3o da gen\u00f4mica cl\u00ednica no SUS.<br \/>\nEm breve, este cen\u00e1rio deve mudar. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade anunciou, em fevereiro deste ano, a implementa\u00e7\u00e3o desses exames no SUS. O sequenciamento do exoma ser\u00e1 realizado no Instituto Nacional de Sa\u00fade da Mulher, da Crian\u00e7as e do Adolescente Fernandes Figueira da Fiocruz e no Instituto Nacional de Cardiologia.<br \/>\nEstas institui\u00e7\u00f5es j\u00e1 abrigam centros de refer\u00eancia para doen\u00e7as raras e algumas dessas iniciativas de projetos de pesquisa. Mas, a partir de agora, ter\u00e3o a capacidade de converter ci\u00eancia em sa\u00fade para a popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesafios persistentes<br \/>\nApesar dos avan\u00e7os, ainda existem barreiras importantes para a implementa\u00e7\u00e3o dessas tecnologias em larga escala.<br \/>\nDiferen\u00e7as entre plataformas de sequenciamento, m\u00e9todos de an\u00e1lise e padr\u00f5es de relat\u00f3rio dificultam a padroniza\u00e7\u00e3o dos resultados e a compara\u00e7\u00e3o entre laborat\u00f3rios.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a baixa representatividade da popula\u00e7\u00e3o brasileira em bancos de dados gen\u00f4micos internacionais limita a interpreta\u00e7\u00e3o de variantes gen\u00e9ticas, especialmente aquelas classificadas como de significado incerto.<br \/>\nNesse contexto, iniciativas nacionais como o banco ABraOM e o projeto DNA do Brasil s\u00e3o fundamentais.<br \/>\nEsses bancos re\u00fanem dados gen\u00f4micos de popula\u00e7\u00f5es brasileiras, incluindo grupos urbanos, rurais e ind\u00edgenas, contribuindo para melhorar a precis\u00e3o dos diagn\u00f3sticos.<br \/>\nCaminho \u00e0 frente<br \/>\nO avan\u00e7o das tecnologias de sequenciamento de DNA tem potencial para transformar o diagn\u00f3stico e o tratamento de doen\u00e7as raras no Brasil.<br \/>\nNo entanto, para que esse potencial se concretize, \u00e9 necess\u00e1rio ampliar o acesso a essas tecnologias, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a integra\u00e7\u00e3o entre pesquisa e sistema de sa\u00fade.<br \/>\nSem esses avan\u00e7os, o pa\u00eds corre o risco de aprofundar desigualdades j\u00e1 existentes, em que apenas uma parcela da popula\u00e7\u00e3o se beneficia dos avan\u00e7os da medicina de precis\u00e3o, enquanto muitos pacientes continuam enfrentando longas jornadas at\u00e9 o diagn\u00f3stico.<br \/>\nOs dados deste estudo ser\u00e3o publicados no peri\u00f3dico Frontiers in Immunology. Esta pesquisa recebeu financiamento da Faperj, Fiocruz, Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e CNPq.<br \/>\nRoberta Soares Faccion recebe financiamento de Faperj e CNPq.<br \/>\nZilton Farias Meira de Vasconcelos recebe financiamento da Faperj, Decit, CNPq e INOVA\/Fiocruz.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Freepik Os erros inatos da imunidade s\u00e3o doen\u00e7as raras que afetam o sistema imunol\u00f3gico e podem levar a imunodefici\u00eancia, doen\u00e7as autoimunes, infec\u00e7\u00f5es graves ou incomuns, inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, alergias intensas e aumento do risco de c\u00e2ncer. 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